De que ‘politicamente correto’ estamos falando?, por Antonio Hélio Junqueira

De que ‘politicamente correto’ estamos falando?

por Antonio Hélio Junqueira

Nos dois discursos que proferiu como presidente empossado do Brasil – no Congresso Nacional e no parlatório –, nesta última terça-feira, 1º de janeiro de 2019, Bolsonaro pouco mais fez do que reafirmar “ad nauseam” sua saga messiânica contra a esquerda nacional, repetindo a mesma estratégia forjada nas oficinas do imaginário delirante e quixotesco que acompanha, sem trégua, a recente trajetória do “mito”.

A mídia – tanto a de abrangência interna, quanto a de alcance internacional – surpreendeu-se com o inusitado das falas de um presidente que mesmo já eleito, mais parecia aprisionado ao calor da disputa eleitoral, no interior da qual mais importa detratar e demonizar todo e qualquer suposto inimigo, do que apresentar coerentes plataformas de governo.

Na retórica requentada das falas presidenciais, a ideologia não apenas supera, mas sobretudo oblitera o aguardado pragmatismo de um governo que ensaia seus primeiros passos. No primeiro e mais moderado discurso, com exatos dez parágrafos de extensão, a palavra ideologia – ou suas variantes, em diferentes combinações de adjetivos, sempre ameaçadores e pejorativos –, foi usada quatro vezes. No segundo, dirigido ao povo, com 14 parágrafos, palavras ou expressões equivalentes se repetiram cinco vezes. No vocabulário que seguramente delineará as linhas discursivas do presidente eleito, a ideologia surge representada como “viés”, como “amarra”, como objeto de submissão e como motor sistemático e nefasto de destruição de valores, tradições, famílias e alicerces sociais. As falas presidenciais nomeiam explicitamente, entre seus vitupérios, as expressões sintagmáticas: “ideologia de gênero”, “ideologização de nossas crianças”, “ideologia que defende bandidos e que criminaliza policiais” e o enviezamento ideológico das nossas relações internacionais.

Prato cheio para a Análise do Discurso, campo do conhecimento consolidado no bojo dos turbulentos anos 60, nos quais se concedeu primazia à análise dos conteúdos ideológicos portados pelos discursos políticos.

Nosso propósito, com essa coluna, é o de discutir fenômenos afetos ao tripé comportamento, sociedade e consumo, em seus desdobramentos na conformação da sociedade em que vivemos. Nesse âmbito, um aspecto particular da fala presidencial nos chama ao dever da crítica. Trata-se, especialmente, do trecho do discurso dirigido ao povo, do parlatório, no qual o presidente eleito comprometeu-se literalmente a “libertar” o país “do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”. E surge aqui a pergunta que norteia esse artigo: de que politicamente correto estamos falando? Se é politicamente correto, porque algo deve ser combatido? Se alguma coisa já se diz correta, o que pode haver de condenável nela?

Vamos, então, tentar desatar o nó.

A expressão “politicamente correto”, apesar da imensa generalização do seu uso nos dias atuais, nem de longe comporta sentidos confortáveis, estáveis e confluentes. Pelo contrário, trata-se de um jargão escorregadio e pantanoso, que, em realidade, mais serve para designar tudo o que, nas mais variadas medidas, destoa, conflita ou não compactua com os sentidos sociais dominantes. Nessa direção, reveste-se do papel da denúncia das iniquidades do poder e do desvelamento das crises culturais, sociais ou políticas iminentes. Na outra mão, o fenômeno revela suas nuances falaciosas, ao criar, de forma apenas cosmética, o sentimento de novos consensos possíveis, de valorização e de reconhecimento das diferenças, sem, contudo, abalar os alicerces da dominação real e cotidiana.

Sabemos que os sentidos não estão nas palavras, mas nas condições sociais da produção dos discursos. Palavras de teor racista, machista, homofóbico, xenofóbico, ou denotadoras de outras vertentes da estigmatização social só fazem os sentidos que fazem por ocorrerem e serem utilizadas em contextos de discriminação e de exclusão.

Ao adentrar essa arena estamos, sem dúvida, assumindo discussões a respeito do funcionamento ideológico da linguagem, no interior da qual, os sentidos sociais das palavras entram em disputa. Trata-se de um fenômeno de natureza tanto linguística, quanto política, na medida em que denuncia as consequências da atribuição dos sentidos às palavras em seu funcionamento cotidiano.

Sem dúvida que entre as maiores dificuldades em se enfrentar a discussão sobre o politicamente correto está o fato de que o fenômeno tende sempre a se apresentar como progressista e revelador de avanços na organização e expressão social das minorias. Nesse sentido, adquire status de irrefutabilidade, dada suas evidentes boas intenções em prol da igualdade e do apaziguamento social. Contudo, essa mesma prática discursiva também se desdobra em suas vertentes sociais mais obscuras e restritivas, como o patrulhamento ideológico, o cerceamento da liberdade de expressão e a instauração dos eufemismos que pouco mais fazem que mascarar as reais intolerâncias e perversidades presentes no cotidiano do corpo social. Por isso, chamamos, já de início, a atenção para o paradoxal e o pantanoso no âmbito do politicamente correto.

Entre as maiores vítimas do politicamente correto está o humor, que, em realidade, sequer sobreviveria sem altas doses de incorreção, uma vez que parte substancial da graça vem da subversão dos sentidos cotidianos, corriqueiros e estabilizados. Porém, o humor, mais do que confirmador das práticas sociais vigentes, pode e talvez deva ser visto como aliado e coadjuvante da mudança social. Em 2014, por ocasião da comemoração aos 41 anos ininterruptos da realização do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, e mais especificamente da edição do livro “Caxara de Forfe”, a convite do meu grande amigo Adolpho Queiroz, pude registrar a reflexão de que “do riso também nasce consciência, pois que faz emergir mazelas escondidas e assim elabora a crítica e tensiona as relações sociais aí implícitas”. Sigo, evidentemente, pensando assim.

Mas, retornando aos discursos da posse presidencial, certamente não é de humor que estamos falando. O politicamente correto que surge da fala do líder político eleito da nação é o que deve ser combatido sem trégua, posto que ameaça e abala os alicerces da família e da “tradição judaico-cristã” que conforma a sociedade brasileira vislumbrada na visão do poder ora ascendente.

O politicamente correto visado é, sem dúvida, o que porta, defende e tenta assegurar os mínimos direitos de índios, quilombolas, negros, mulheres e representantes das comunidades LGBT que, não por acaso ou coincidência, foram justamente os primeiros a serem atingidos pelas novas medidas provisórias assinadas, apenas passadas poucas horas da posse presidencial.

Nesse contexto, torna-se evidente que o novo governo instaura intencional e inequivocamente a sua demarcação social. Seu mandato não será para todos os brasileiros, mas para aqueles comprometidos com os valores mais tradicionais, arcaicos e patriarcais da sociedade brasileira. O novo poder instituído não abre frentes inclusivas de negociação e entendimento. Pelo contrário, assume forte e decisivamente o desmonte institucional erigido pelo esforço das lutas sociohistóricas de trabalhadores, de mulheres progressistas e das minorias oprimidas.

O politicamente correto denunciado pelo novo governo e objeto assumido do seu combate é claramente determinado: é todo e qualquer gesto, fala, disposição, atitude, comportamento e pensamento que desafie o status quo do conservadorismo e do autoritarismo estruturante das sociedades ocidentais, colonizadas e economicamente marginais.

Leia também:  O mundo no combate ao Coronavirus, lições para o Brasil, por Paulo Gala

Trata-se do “novo” que não aporta nada de novo. Muito pelo contrário, trata-se da consagração do velho, do arcaico, do descabido, do desproposital. Talvez o lado ainda mais perverso desse quadro seja o da sua notável e inequívoca esquizofrenia que se expressa, entre outros trechos discursivos, naquele em que o paladino nacional reafirma textualmente seu “compromisso de construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”.

A pesquisadora norte-americana, Moira Weigel, associada da Universidade de Harvard, já havia nos alertado para o fenômeno, em suas inescapáveis similitudes com o governo de Donald Trump, nos Estados Unidos. Para ela, em entrevista ao jornal “El País”, os ataques ao considerado politicamente correto é a nova narrativa adotada pela direita para poder expressar livremente, sem amarras, sem censuras e sem vergonhas, todas as mais antigas formas de racismo e sexismo. Trata-se do estabelecimento de um novo pacto retórico entre a elite e a classe média atônita e desinformada, cujo objetivo maior é o de reassegurar e perpetuar as velhas formas sociais da concentração da riqueza e do poder.

Ao que tudo indica, o fenômeno vem – e seguirá em frente – produzindo seus efeitos de largo e forte impacto. Tanto lá, quanto agora cá.

Antonio Hélio Junqueira – Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Professor Colaborador e Pesquisador do Mestrado Profissional em Gestão de Alimentos e Bebidas (Universidade Anhembi Morumbi – UAM) e de Pós-Graduação em Comportamento do Consumidor e em Agronegócios, Abastecimento e Alimentação (ESPM e UAM).

Referências das citações:

DELLA COLETTA, Ricardo. “Moira Weigel: o discurso contra o politicamente correto é uma retórica que inviabiliza o debate democrático”. Entrevista com Moira Weigel. El País. 8 de setembro de 2018.

JUNQUEIRA, Antonio Hélio. Vidas Secas. Em: QUEIROZ, Adolpho; VICENTE, Evaldo; CIASI, Letícia Hernandez. Caxara de Forfe. 41 anos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Piracicaba, SP: Gráfica e Editora Rio Pedrense Ltda. – Centro Nacional de Humor Gráfico, 2014.

12 comentários

  1. O “politicamente correto”,

    O “politicamente correto”, queiram ou não, AQUI, não derivou dum processo de aprendizagem e amadurecimento civilizatório, mas de copy e cola, “daquilo que de melhor” alguns comunicadores viram no estrangeiro (em especial na EUROPA).

    Do dia pra noite o brasileiro não podia usar da sua ironia cotidiana  ..do seu espirito zombeteiro

    De repende não se podia falar bicha, sapatão, negão  …isso enquanto os bicha, sapatões e negões podiam falar os termos “livremente”

    Sem se perceber o negro não podia ser chamado de racista, só o BRANCO

    Sem preparo nem explicação nos impuseram a COTA RACIAL por exemplo (em consonância com EUA, Africa do SUl ou Australia) países com problemas  CONTEMPORÂNEOS absurdamente diferentes dos nossos, aonde quase a UNANIMIDADE do povo daqui sabe que nosso problema, HOJE, é de cunho social e esta presente em todas asa etnias.

    ..claro que esse tipo de violência cultural causou desconforto e até hoje provoca reações

    Aliás, esse quaro de HIPROCRISIA latente foi muito bem retratado nas TIRADAS maravilhosas do José Simão quando se referia ao TUCANÊS.

    Devo reconhecer, que quando Danilo Gentili (um rapaz, pra mim, desprovido de uma visão mais acurada sobre a realidade economico-social e política no Brasil) vem a público e diz que o povo tá de saco cheio de ver político (referindo-se aos progressistas) CAGANDO REGRA todo dia ..devo dizer que não deixo de dar razão a ele

    Claro que interessante agora será ver como ele reagirá às REGRAS DIÁRIAS que estão sendo “cagadas” pelos crentes da direita a todo momento.

    Fato é que quando “bons modos”, atos civilizatórios, são IMPOSTOS ou importados, sem que ampla maioria da sociedade não esteja preparada pra assimilá-lo, da nisso, até o que parecia fazer sentido, acaba virando algo opressivo, TAL_QUEI !!??.

    • Incrível! Pleno século XXI ,
      Incrível! Pleno século XXI , mas a conversa é a mesma de 1888, nosso problema é social.
      Racismo é um problema social.

      • Não se combate racismo com

        Não se combate racismo com RACISMO ..Não existe racismo do BEM

        sou pela COTA SOCIAL  ..pela reserva de vagas porporcionais a serem disputadas entre alunos oriundos de escolas similares (se 90% dos candidatos são de escolas públicas, que 90% das vagas sejam reservadas a eles)

        A política de COTAS nasceu pra compensar males de vivos contra VIVOS, nos EUA e Austrália por exemplo

        Aqui, buscou-se apenar inocentes (de outras etinas) por pecados cometidos por mortos

        INFELIZMENTE, pela rigidez de pensamento e de diálogo, hoje vemos o ódio presente em muitos extratos

        o BRASILEIRO é solidário  ..cristão católico em maioria (ainda)  ..NUNCA admitiu na boa essa segreção pela CÔR

        E só pra deixar claro  ..sou pelo mérito TAMBÈM – e NÃO de forma exclusiva, que fique claro

          ..QUAL seja, busca-se com políticas públicas compensatórias (cotas sociais, bolsa família, ajuda pra custeio e revisão do curriculun de escolas públicas por exemplo, melhora de ensino) busca-se ingualar os indivíduos de EXTRATOS diferentes (pobre e rico, no popular)  ..FEITO isso, depois de formados, em concursos, é cada um PRA SI !!  ..a sociedade tem o direito de imaginar que quem o esta atendendo tem todo preparo e mérito pra fazê-lo

        Assistir não é adotar, nem passar a mão na cabeça de que não quer se esforçar ..há sempre que se buscar meios de se ajudar, mas tb de se cobrar do empenho  ..equilíbrio difícil

         

        em tempo – pelos meus critérios hoje as universidades públicas estariam com 70% de negros em suas cadeiras  ..vê-se que seria uma questão JUSTA, limpa e de bom senso

         

        ps – apoio e exalto a polítca educaional de LULA, a construção das universidades, escolas técnicas, prouni e pronatec, ciência sem fronteira  ..mas ABOMINA o critério eugenista importado do PSDB e de FHC (e diga-se, aprovado por este çupremo que esta aí)

         

  2. Irrefutabilidade

    Entendo que o cerne da questão está na “irrefutabilidade” do discurso dito progressista. A palavra sugere progresso, avanço, descortinar de horizontes. Mas,…chamar de trabalho ou intentar regularizar a prostituição como profissão? Isso é progressista? Nada mais antigo como a exploração do homem e da mulher por um cafetão ou cafetina. Então os progressistas devem descer do seu pedestal de irrefutabilidade, sendo tolerantes com a perspectiva e com o discurso do outro.

  3. Cotas e Romanelli

    Até a década de 80  nas páginas de emprego dos grandes jornais, havia  a frase: “Exige-se boa aparência”

    Não preciso dizer que isto era a cota para brancos.

    Não preciso dizer que  os filhos destas pessoas a quem foi vedado o direito de trabalhar são os que agora estão entrando nas universidades através das cotas.

     

    • “Exige-se boa aparência” O buraco é mais embaixo.

      Ledo engano.

      Era mais abrangente. Atingia todos os brutti, sporchi e cattivi.

       

      • Sim atingia outros também

        Mas eu creio que é falso ignorar e minimizar o  foco étnico e histórico deste pais. Os bruti, sporchi e  cattivi, vieram substituir a mão de obra negra, mas nos anos 70 já estavam  muito bem e se dizia que tinham boa aparência.

        • Deviam ler mais Alcantara Machado e menos Nina Rodrigues

          No começo a arrogância indígena perguntou meio zangada: Carcamano pé-de-chumbo. Calcanhar de frigideira. Quem te deu a confiança. De casar com brasileira?

          Somos todos mamelucos!

          O erro é utilizar o discurso do opressor. Isso o torna legítimo.

  4. Frases

    Damares:
    Damares

    “menino veste azul e menina veste rosa”,

    Onyx

    “demite 300 servidores comissionados e diz que iniciou despetização
    ‘Vamos retirar quem tem marca ideológica clara”

    General Heleno
    “Nossa missão é tratar de segurança e viagens do presidente e cuidar do sistema de inteligência brasileira. Esse sistema  foi derretido pela senhora Rousseff que não acreditava em inteligência”

    é  ‘natural’ aproximação do Brasil com EUA e Israel na área de inteligência

    Witzel quebra placas:
    ” o caso Mariele deve ser encerrado em breve;”

     “Pelo que o delegado me falou, em termos de COLHEITA de prova, ele já está avançado”

     Moro no comando do COAF:

     “está decretada a censura ao presidente, conselheiros e servidores do órgão; a partir de agora eles estão impedidos de manifestarem “em qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento no Plenário”;

    Guedes aos empresários e banqueiros:

    “Nós temos que libertar as futuras gerações do regime trabalhista e previdenciário que nós temos hoje. O governo democrático vai inovar e abandonar a legislação fascista da Carta del Lavoro [nome da CLT em italiano]”.
     

    Ministro das Relações EXTERIORES

     

    A missão do diplomata será semelhante: “Libertar o Itamaraty (…) de ideologias perversas”.

    “A partir de hoje, o Itamaraty volta à Pátria Amada”.

  5. Em louvor
    Em louvor ao fim do politicamente correto, como passou a ser nossa política de estado, de acordo com o decretado pelo presa, vamos a um pequeno exercício da nova velha retórica escrota de guerra:

    Se político é tudo merda e ladrão, o Bozo, que passou 30 anos no parlamento, o que é?

    Como três de seus filhos também se fizeram políticos, o que a família do Bozo é?

    Ora, ora, ora, às favas com o politicamente correto em tempos de novíssimo pensamento zap zap padrão bozominion:

    A família do Bozo é então uma quadrilha de ladrões. Com tantos merdas reunidos formam um esgoto a céu aberto.

    É lógico.

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