De Wuhan a Manhuaçu: caminhos e dispersão planetária da covid-19

O município é um caso típico da atual fase da disseminação da doença no Brasil, quando se observa uma interiorização do número de casos notificados.

Observatório Social da Covid-19

De Wuhan a Manhuaçu: caminhos e dispersão planetária da covid-19

[1]Marden Campos (UFMG)

[2]Luciana Lima (UFRN)

[3]Ivanovitch Silva (UFRN)

[4]Gisliany Alves (UFRN)

[5]Ludmila Beatriz (UFMG)

O município de Manhuaçu, localizado na Zona da Mata Mineira, tem uma população estimada em cerca de 90 mil habitantes. Até o dia 6 de julho de 2020 possuía 242 casos diagnosticados de covid-19, com 7 óbitos registrados. Os índices de isolamento social do município produzidos com base em dados de telefones celulares indicam uma baixa adesão da população às medidas de contenção do coronavírus. O município é um caso típico da atual fase da disseminação da doença no Brasil, quando se observa uma interiorização do número de casos notificados.

A presente nota técnica discute os padrões de espraiamento do coronavírus pelo planeta, relacionando-o à lógicas de mobilidade espacial e medidas de adesão da população às políticas de confinamento.

O início e a intensidade da contaminação de uma população pelo novo coronavírus depende de uma complexa interação entre fatores comportamentais, medidas de contenção da doença, assim como de seu nível de interação com outras populações onde o vírus já esteja presente. Por se tratar de uma doença recém surgida entre os humanos, ainda faltam à ciência e a medicina conhecimento de aspectos chave dos processos de manifestação, agravamento, cura e imunidade à covid-19. Por isso, as políticas de contenção do contágio visam alterar o comportamento das pessoas quanto à proteção individual e a redução de contatos físicos com outros indivíduos. Tais medidas, chamadas de interversões não-farmacológicas, concentram-se prioritariamente em reduzir a mobilidade espacial da população e evitar a concentração de pessoas em espaços reduzidos.

O exemplo mais emblemático das interações entre padrões de mobilidade e políticas de isolamento social vem da própria China, local de origem da doença. O fato do vírus ter contaminado seres humanos em um dos mais importantes hubs de transporte do país fez com que ele se espalhasse rapidamente pelo globo. Ao mesmo tempo, as severas restrições à circulação interna impostas rapidamente pelo governo chinês reduziram seu espalhamento naquele país.

Normalmente a doença chega aos países a partir de locais com elevado nível de deslocamentos transfronteiriços. O nível de conexão desses locais com outras regiões dos países dita o ritmo de espraiamento do vírus. A intensidade da circulação interna da população e a densidade populacional das localidades pode levar ao aparecimento de hotspots da doença, o que geralmente ocorre em uma primeira onda de contágio de cada país. Assim se deu com Milão, Madri, Nova Iorque e São Paulo, dentre outros.

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Políticas de restrição da circulação e testagem em massa podem deter o espraiamento do contágio e o confinamento da doença nesses espaços. Por outro lado, a ausência dessas medidas levam o vírus a se disseminar por outras regiões dos países em proporção direta com o ritmo dos deslocamentos internos da população. Surgem então novas ondas de contágio, geralmente em locais que tiveram pouca participação no número de casos da primeira onda.

Políticas de restrição da circulação tem tido alta efetividade na diminuição do contágio quando adotadas antes do espalhamento do vírus na população. Contudo, a efetividade da política depende das formas de garantir a adesão da população as normas de restrição da circulação.

A evolução da doença pelo Brasil seguiu um padrão específico. O primeiro hotspot da doença no país foi a região metropolitana de São Paulo, que possui todas as características necessárias para tal.

Primeiramente, possui o principal aeroporto internacional do Brasil: o Aeroporto de Guarulhos. Apenas em janeiro de 2020, o aeroporto recebeu mais de 3,5 milhões de passageiros do exterior. Além disso, por ser uma metrópole com 20 milhões de habitantes e elevadíssima densidade populacional, houve rápida disseminação do vírus na população. Até o dia 15 de junho havia mais de 93 mil casos de covid-19 confirmados apenas no município de São Paulo, com 5.652 óbitos. Há evidências de que o número real de casos seja até 10 vezes maior, dada a baixa testagem realizada no Brasil. Embora concentre 26% da população do estado, o município de São Paulo detém 40% dos casos e 52% dos óbitos do município.

Esse padrão de concentração da doença na capital do estado é observado em 20 dos 26 estados da federação. Apenas 6 estados apresentam um percentual de casos confirmados no interior superior ao percentual da população que reside fora delas. As maiores concentrações dos casos nas capitais vis-à-vis à concentração da população são observadas na Bahia, no Maranhão, no Pará e em Rondônia.

Minas Gerais é um dos poucos estados que tem maior concentração da doença no interior, relativamente à população residente nessas áreas. Enquanto 52% da população do estado reside na capital, ela registra 40% dos casos da covid-19 do estado.

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Observa-se inclusive um crescimento acelerado do número de casos registrados no interior. Ao que tudo indica, a implementação de medidas de distanciamento social na capital ocorreu antes que houvesse um espraiamento elevado da doença na cidade. Por outro lado, vários municípios do estado não tiveram sucesso no isolamento social e hoje veem o número de casos da doença disparar.

Os dados sobre isolamento social em alguns dos maiores municípios mineiros mostram a heterogeneidade de comportamento da população no estado quanto à adesão ao isolamento. A empresa In Loco (inloco.com.br) desenvolveu um Índice de Isolamento Social em que é possível acompanhar, diariamente, a variação do número de pessoas que ficaram em suas casas. O indicador é construído com base em informações agregadas e anônimas da movimentação de 60 milhões de aparelhos celulares em todo o país. De acordo com a In Loco, os dados são provenientes de aplicativos parceiros instalados pelos usuários. Esse índice é expresso por valores entre zero e um: quanto maior o seu valor, maior a proporção de pessoas que permaneceram em suas residências.

Com base nesse indicador, podemos observar os diferenciais de adesão ao isolamento entre os municípios mineiros.

Primeiramente, é preciso destacar a queda dos índices de isolamento no estado durante o mês de maio, porém há um leve aumento nos índices de isolamento no mês de junho. Olhando alguns dos municípios mais populosos do estado, vemos que Juiz de Fora e Belo Horizonte apresentaram os maiores níveis de distanciamento social. Juiz de Fora apresentava 2228 casos confirmados de covid-19 e 58 óbitos. Já Belo Horizonte apresenta 7890 casos confirmados e 176 óbitos até o dia 6 de junho. Montes Claros é um município que apresenta queda progressiva dos índices de isolamento, sendo o com menor índice entre as cidades mais populosas do estado. Montes Claros tem 303 casos confirmados e 4 óbitos. Paracatu já tinha baixos índices de isolamento em abril e segue com a tendência a redução dos índices de isolamento, o município tem atualmente 301 casos e 1 óbito.  As cidades apresentaram maiores índices de isolamento entre os meses de março e abril, a partir daí todas reduziram os índices significativamente. No entanto, a partir da segunda metade de junho nota-se uma tendência de aumento novamente. É também em junho que o estado notificou significativo aumento no número diário de casos confirmados.

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Detalhando um pouco mais o isolamento no interior, vemos que há grande heterogeneidade entre os municípios. Diamantina, Ouro Preto e Barbacena apresentaram os maiores índices de isolamento entre 18 e 31 de maio entre os municípios pesquisados. Diamantina tem atualmente 31 casos confirmados e um óbito. Ouro Preto, 186 casos e 2 óbitos. Barbacena 384 casos confirmados e 5 óbitos. Os municípios de Governador Valadares, Uberlândia e Montes Claros são entre os municípios analisados os que apresentam menores índices de isolamento. Governador Valadares tem atualmente 1503 casos confirmados e 46 óbitos, e Uberlândia 7570 casos confirmados e 110 óbitos.

Dentre os municípios analisados, um dos que se destaca negativamente quanto ao índice de isolamento é o município de Manhuaçu. A situação do município é um exemplo típico de interiorização da doença no país, que encontra um terreno propício para a propagação, devido ao baixo nível de isolamento social adotado pela população. O elevado número de casos confirmados e óbitos proporcionalmente ao tamanho da população do município indica que diversos outros municípios do estado que apresentam baixo nível de isolamento devem se preparar para uma rápida disseminação do vírus em suas populações, caso nos sejam adotadas medidas urgentes de proteção da população.

Um sinal de alerta deve ser dado, e ele vem do exemplo de município que podem não estar preparados para uma contaminação massiva da população.

[1] .Professor do departamento de Sociologia da UFMG e coordenador do Observatório Social da Covid-19 da UFMG.

[2] Professora adjunta do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DDCA/UFRN) e vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Demografia (PPgDEM/UFRN).

[3] Professor adjunto do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMD/UFRN) e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação (PPgEEC/UFRN)

[4] Graduada em Ciências e Tecnologia e em Engenharia de Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre em Engenharia Elétrica e de Computação (UFRN).

[5] Graduanda em Ciências Sociais na UFMG.

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1 comentário

  1. “Minas Gerais é um dos poucos estados que tem maior concentração da doença no interior, relativamente à população residente nessas áreas. Enquanto 52% da população do estado reside na capital, ela registra 40% dos casos da covid-19 do estado.”
    “Segundo as estimativas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, assinalaram que a cidade de Belo Horizonte tem 2.501.576 de habitantes. Unindo com a região metropolitana o número chega a 5,9 milhões de habitantes. (1º de abr. de 2020.)”
    Segundo estimativas divulgadas pelo IBGE, o estado de Minas Gerais tem 21.168.791 habitantes.
    OBS: com todo o respeito que merecerem os e as subscritoras do presente artigo, os dados apresentados para fundamentar a tese que defendem não se sustentam perante aos que podem ser acessados no Google e divulgados pelo IBGE.

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