Delfim Netto no Roda Viva, por André Motta Araújo

Uma lembrança de tempos gloriosos do Brasil-Nação: além de ministério, Delfim controlava secretarias estaduais e municipais. Era também economista do chão da feira - sabia de manhã o preço do tomate e da cebola

Reprodução

Por André Motta Araújo

O já lendário ex-Ministro Antônio Delfim Netto foi o entrevistado no programa RODA VIVA da última segunda-feira (08). Sua experiência e seu conhecimento são inigualáveis entre os economistas brasileiros.

Falando de modo rebuscado, como é de seu estilo, Delfim deixou claro sua discordância com a trajetória da política econômica brasileira desde o Plano Real. Delfim sublinhou que o papel do Estado é CENTRAL e muito mais amplo que o papel do mercado no carregamento do trem da política econômica. A ideia de que o mercado sozinho fará o crescimento é lunática, como deixou claro o ex-Ministro.

O quadro hoje é um de País paralisado, sem crescimento, tendo de um lado pessoas sem emprego e sem esperança, e de outro rentistas que não precisam de crescimento, lhes basta a renda estável. Quem precisa de crescimento são os pobres.

A mesma linha segue o agora revisionista André Lara Resende, um dos “pais do Real” e a mesma visão tem hoje as correntes majoritárias do novo pensamento econômico nos países centrais, especialmente na Inglaterra e nos EUA.

O neoliberalismo “à outrance” [sem misericórdia] foi desmoralizado pelo naufrágio da classe média nos EUA e Europa, especialmente. A chamada “Escola de Chicago” NÃO está mais entre as cinco principais escolas de economia dos EUA com prestígio intelectual, já é uma escola (como linha de pensamento) em rota descendente desde a crise de 2008, atribuída exatamente aos seus dogmas.

As crises sócio-políticas nos países centrais mostram um completo esgotamento do modelo neoliberal, o Brexit e o rebrotamento da extrema-direita são seus sinais mais evidentes. Previ essa trajetória em 2005, no meu livro MOEDA E PROSPERIDADE já estava claro o caminho que levaria a uma crise do modelo financista, da precarização dos empregos, da concentração de riqueza e da economia de papel sobre a produtiva.

Delfim chamou especialmente a atenção para o domínio da economia produtiva pelo estamento financeiro, o que levou a uma inédita diminuição da parcela da indústria na economia brasileira, uma das razões principais dos 13 milhões de desempregados no País e do desalento dos jovens pobres e sem futuro.

Nem é preciso dizer que Delfim deixou claro o mega erro de calibragem da política monetária que levou o País à estagnação por uma taxa de juros muito acima da taxa de crescimento que, a pretexto de mirar a inflação na meta, agora abaixo do piso da meta, sinal de doença, destruiu boa parte da indústria, dos empregos e fez o Brasil retroagir à uma economia puramente agrícola e mineral, algo do Século XIX, quando o Brasil não era moderno. Esse cenário levou a uma grande parte da população a viver de subempregos e bicos, em favor do mercado financeiro, à custa do País como um todo.

Delfim mostrou como o Brasil crescia nos anos 70 a 25% ao ano na exportação de manufaturados, através de programas bem desenhados de promoção e incentivo, fruto de projetos, de políticas específicas, de metas bem definidas, em suma, de uma política de desenvolvimento desenhada pelo Estado, o único que pode fazer.

Delfim também apontou a captura da renda nacional pelas corporações e mostrou como se chegou a essa anomalia com a gazua da Constituição de 88.

O economista tem apenas um grave defeito: com sua enorme autoridade, fruto da biografia, Delfim muitas vezes não vai ao ataque. Com sua potente arma intelectual, teria condições de ser mais incisivo para desmontar fraudes evidentes de políticas malucas ou enganosas, mas prefere tangenciar.

Alisa demais certas nulidades quando poderia desnudá-las. Leva seus argumentos com tal delicadeza que a crítica parece elogio, usa de sutileza própria dos intelectuais refinados mas grande parte da população não capta suas ironias sibilinas e não percebe a crítica escondida nelas.

Mas Delfim tem o mérito de não se esconder, aceita o debate e é uma memória viva de um Brasil com a maior taxa de crescimento no mundo.

Seu modus operandi, com uma agenda de trabalho que começava às 6 horas da manhã e terminava à meia noite, tinha tal capacidade de comando que, além do Ministério sob seu mando nominal (Fazenda, Planejamento e Agricultura em diferentes governos), controlava também as Secretarias de Fazenda dos Estados e das Prefeituras das capitais, os bancos públicos. Além disso tudo, Delfim era o economista do chão da feira, sabia de manhã o preço do tomate e da cebola.

No Brasil medíocre de hoje, onde relés operadores de mercado são tratados como gênios pela mídia chapa branca, as novas gerações não sabem que o Brasil teve grandes intelectuais gerindo o Estado, homens como Oswaldo Aranha, Roberto Campos, Delfim, Mário Simonsen, João Camillo Penna, Gustavo Capanema, Saraiva Guerreiro, Afrânio de Mello Franco, Afonso Arinos, João Neves da Fontoura, Araujo Castro, Hermes Lima, San Tiago Dantas, Azeredo da Silveira, homens cultos, com vastas bibliotecas, obras publicadas, cérebros de primeira ordem, ecléticos em vários temas.

Delfim é talvez o último representante dessa era pré-mediocridade dos “mercados” e de sua aspereza cultural, um deserto de ideias povoado por personagens obscuros, de pouca luz e nenhuma sabedoria, uma Era das Trevas. Delfim é uma lembrança de tempos gloriosos do Brasil Nação.

AA

13 comentários

  1. Parei pra ver e assisti a uma boa parte. Há muito que nao dava um segundo sequer de audiencia a esse programa. Fiquei pensando em um pergunta que a risonha bancada jamais faria: Professor, falando tudo isso sobre os mercadistas, os juros, o papel do Estado, do saber economico, do jeito que as coisas vão hoje em dia, o senhor nao tem medo de ser chamado de “esuerdopata”, “socialista”?

  2. Sr. André, boa noite. O senhor acredita que, em caso de aprovação do sistema de capitalização da Reforma da Previdência, do Paulo Guedes, os brasileiros correm o risco de ver repetir o ocorrido em 2008 nos Estados Unidos? A quebra do Lehmann Brothers e o efeito cascata produzido lá, com a explosão da bolha imobiliária? Ou aqui as normas são mais hígidas?

    • O modelo de capitalização não funciona nem para paises ricos, que dirá para paises onde a população pobre é de 90%, é uma loucura completa, no CHILE, apontado por Guedes como modelo, a capitalização foi um DESASTRE, porque a Camara dos Deputados não manda uma delegação ao Chile para investigar?

      • O que os cabeções não dizem é que aposentadoria é dinheiro na veia da economia, estimulando crescimento e renda pras famílias e governo. Reforma da previdência não é neutra na economia, vai DIMINUIR o meio circulante, gerando pobreza. A propósito, recomendo o livro do André Araújo, tá tudo ali o que tem que ser feito e também o que não deve ser feito, com clareza e didatismo.

  3. O problema do desemprego não é só conjuntural, é também estrutural. Em sendo assim, a culpa do desemprego não é só do domínio da atividade produtiva pela especulação. Com o atual nível das forças produtivas, mesmo que se acabe com a especulação, o número de desempregado continuará nas alturas se a jornada de trabalho não for reduzida, de modo a compatibilizá-lá com o atual nível de avanço das forças produtivas.

  4. “As crises sócio-políticas nos países centrais mostram um completo esgotamento do modelo neoliberal, o Brexit e o rebrotamento da extrema-direita são seus sinais mais evidentes. Previ essa trajetória em 2005, no meu livro MOEDA E PROSPERIDADE já estava claro o caminho que levaria a uma crise do modelo financista, da precarização dos empregos, da concentração de riqueza e da economia de papel sobre a produtiva.”

    Salutar o agora “revisionista” André Araújo, mas o auto-elogio que faz em seu comentário, no melhor estilo Olavo de Carvalho, não corresponde à verdade dos fatos. André Araújo, outrora um histérico quanto à suposta ameaça advinda de “bolivarianos” e “comunistas” – mais uma vez, no melhor estilo Olavo de Carvalho -, tinha ideias bastante diferentes destas que hoje esposa, principalmente em relação aos EUA e à economia neoliberal.

    Nesse vídeo de 2011, com sua participação no programa Brasilianas, é bastante ilustrativo.

    https://www.youtube.com/watch?v=sDORIR9sap4

    No minuto 5:45 do vídeo abaixo, André Araújo diz que a crise de 2008 é mera crise conjuntural, que são recorrentes nos EUA, que não são crises terminais, mas reajustes na economia, essa crise não vai durar mais que 2 anos, que a economia americana é muito flexível, se recupera muito rápido, não depende do dólar, mas das instituições, que lá são muito sólidas.

    No minuto 37:25, André Araújo “denuncia” a política externa brasileira que ele alega ser “contra os EUA só por ser”, tese absurda, e defende que o Brasil se aproxime mais dos EUA. Nesse ponto ele foi contestado pelos dois outros convidados do programa.

    Enfim, salutar que Araújo tenha mudado de opinião, lamentável que não reconheça seus erros e ainda tente confundir os desavisados.

    • Meu caro, agradeço o longo comentario. Eu vejo politica, economia e geopolitica como circunstancias de tempo e lugar, não me pauto por ideologias fixas e definitivas. Desde que existe o blog sou contrario ao apoio cego do PT ao bolivarianismo, no mesmo tempo e periodo de meus artigoscritiquei o péssimo tratamento dado pelo governo
      Dilma ao Embaixador americano Thomas Shannon, o melhor amigo do Brasil na diplomacia americana, que foi humilhado pelo Itamaraty quando saiu de Brasilia para ser o nº 3 do Departamento de Estado, seu almoço de despedida que protocolarmente deveria ser oferecido pelo Chanceler, foi anfitrionado por um 3º secretario, ofensa direta, desnecessaria, gratuita.
      Por outro lado fui aqui no blog o maior critico da inaceitavel ingerencia do Departamento de Justiça
      em questões brasileiras, jurisdicionando a Petrobras e empreiteiras do Brasil. Agora acho uma aberração o alinhamento cego e gratuito do Itamaraty ao governo Trump, um erro monumental.
      Minha visão é sempre mutavel porque assim é a geopolitica, a economia e a sociedade.

      • Caro André Araújo,

        Mais uma vez, salutar sua mudança de opinião, ressalvo, porém, que você não era opositor do “apoio cego” ao PT e ao bolivarianismo, mas sim um radical opositor cego a ambos.

        A construção de uma ordem sul-americana, com projetos comuns nas áreas econômica, social, política e de defesa não era um projeto “bolivariano”, menos ainda um projeto anti-americano (apesar dos EUA, como já se sabe há muito, ser radicalmente contrário a qualquer projeto de desenvolvimento e autonomia da América Latina), porém, o senhor sempre esbravejava contra qualquer dessas iniciativas, classificando-as como “bolivarianas” e afins.

        O desmonte promovido desde o impeachment de Dilma deixam patente o erro de suas posições, portanto, mais uma vez parabenizo sua mudança de opinião.

        Por fim, concordo com sua opinião acerca do professor Delfim Netto, a quem sempre admirei como intelectual e homem de Estado.

        • Meu caro, em 2002 e 2003 tive um papel que presumo tenha sido essencial na abertura das portas do governo Bush para o novo governo do PT, essas tratativas dariam um grosso livro, alguma coisa foi revelada por vazamentos do Wikileaks sobre esse episodio, pode ser pesquisado no Google (Relatorio do Departamento de Estado).

  5. “…Delfim é uma lembrança de tempos gloriosos do Brasil Nação…” O Brasil é auto-explicativo. Nossa Bipolaridade Esquerdopata expulsa a Genialidade enquanto eterniza a Mediocridade. Quantos Delfim’s em quantas áreas não foram alijados do Processo por não se enquadrarem no Fundamentalismo Anacrônico da Mediocridade da Elite do Estado Brasileiro? Kátia Abreu não serviu, nem mesmo indo a pique com Dilma Roussef. A maioria das ‘Ratazanas Vermelhas’ já haviam abandonando o navio, muito antes do seu naufrágio. Subiram no primeiro barco que o oportunismo lhes proporcionou. Não serviam Gerdau ou Luiza Trajano, porque Competência, Patriotismo, Sucesso, Progresso ofende a Miopia da Indústria do Atraso e da Vitimização. Delfim passa por 6 décadas sendo tão atual, tão claro e competente, quando do seu início. Aproveitamos como Nação, apenas uma pequena parcela deste conhecimento. Pobre país rico.

  6. Resumindo:

    O Brasil deveria ter eleito Ciro Gomes!

    Infelizmente, agora é tarde demais…

    Dado o tamanho do desmonte apocalíptico que se espera desse governo, em 2022 (se a democracia ainda existir até lá) temo que o Brasil não terá mais solução e nem salvação.

  7. Nunca duvidei da capacidade intelectual e de trabalho de Delfim Neto. Acompanho-o desde os anos 80. Pena que fez tão pouco pelos pobres. Poderia ter feito muito mais.

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