Deus está morto no país do Estado Mínimo na série ‘Ninguém Tá Olhando’, por Wilson Ferreira

É sintomática a representação do Céu como uma repartição pública e os anjos como burocratas entediados de alguma estatal

Deus está morto no país do Estado Mínimo na série ‘Ninguém Tá Olhando’

por Wilson Ferreira

As representações no cinema e audiovisual sobre o Céu, anjos e vida após a morte são um verdadeiro sismógrafo do que ocorre aqui embaixo, na vida dos vivos. A série brasileira de humor da Netflix “Ninguém Tá Olhando” (2019) não poderia ser diferente: retrata uma organização burocrática de anjos da guarda que protegem os seres humanos, sempre seguindo as regras de um chefe ausente. Um anjo recém-chegado passa a questionar as regras estabelecidas, fazendo todo o sistema lentamente afundar em crise. É sintomática a representação do Céu como uma repartição pública e os anjos como burocratas entediados de alguma estatal: num país no qual o discurso neoliberal do Estado Mínimo em que as estatais são a fonte de todos os males políticos e econômicos, essa série faz todo o sentido. Se Deus/Estado estiver morto, então ninguém tá olhando! A tese nietzschiana da morte de Deus se encontra com o Estado Mínimo neoliberal.

As representações da vida após a morte no cinema são verdadeiros sismógrafos do que se passa entre os vivos na terra. A mesma coisa pode-se considerar os filmes que exclusivamente tratam de anjos. As sucessivas mudanças das representações daqueles que são considerados mensageiros ou intermediários entre Deus e a humanidade também parecem refletir ansiedades culturais ou cenários sociais, políticos e ideológicos.

Olhando em perspectiva as representações dos anjos na teologia e na tradição esotérica, há basicamente três interpretações sobre papel cósmico dessa legião celeste: (a) mensageiros que levam sinais de advertências do Sagrado, além de animadores dos astros – um papel de comunicação; (b) a ordem hierárquica dos anjos celestiais como imagem correspondente da hierarquia terrestre – as relações recíprocas entre os anjos devem inspirar a ordem entre os homens; (c) o papel de “anjos da guarda”. Porém, nas escrituras bíblicas, a função protetora dos anjos é reservada unicamente aos santos e aos justos.

Ao longo das décadas, esse sismógrafo celeste no cinema parece acompanhar essas três interpretações básicas. Durante a Segunda Guerra Mundial e imediatamente ao pós-guerra filmes como Que o Céu Espere (1941) ou A Felicidade Não Se Compra (1947) são contos moral de positividade e motivação tanto para humanos como para anjos – anjos que querem provar a Deus que merecem as asas que ganharam ou humanos que encontram nos anjos sinais enviados pelo Divino.

Na sociedade de consumo solidificada no pós-guerra O Céu Pode Esperar (1978), os serviços dos anjos podem ser representados como uma prestação de serviços celeste – anjos podem falhar e, como um consumidor, o humano mortal pode reclamar pela reparação de erros.

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A coisa fica mais sombria com a virada para o século XXI: filmes como Dogma (1999) Constantine (2005), Legião (2010) ou séries como Dominion (2014) e Lucifer (2016) tendem para a interpretação (b) sobre os anjos: anjos decaídos, punidos por Deus, conspiram contra o criador comprometendo a ordem terrestre ou colocando em risco o próprio Cosmos. Em mundos pós apocalipse (Dominion) homens lutam ao lado de anjos para restaurar a ordem.

Porém, a série brasileira de humor Ninguém Tá Olhando (2019) aborda a interpretação (c) dos anjos como protetores dos humanos. Marcando a primeira colaboração entre a produtora Gullane com a plataforma Netflix, retrata uma organização burocrática de anjos da guarda na qual os “angelus” (os personagens insistem que não são “anjos”) uniformizados protegem invisivelmente os seres humanos, sempre seguindo as regras de um chefe ausente (Deus?). Um novo “angelus” chamado Uli, um “calouro” naquela organização, passa a questionar as regras estabelecidas, fazendo todo o sistema lentamente afundar em crise enquanto os episódios vão narrando alegremente as consequências e as interações amorosas entre humanos e anjos.

Da mesma forma que a virada das representações sombrias dos anjos no século XXI foi um sismógrafo das angústias culturais envolvendo a virada do milênio (bug do milênio, mundos virtuais, Matrix etc.) e crise política (os atentados de 2001, guerra ao terror e crash de 2008), a representação audiovisual brasileira dos anjos da guarda, em Ninguém Tá Olhando, como funcionários de uma repartição pública em algum funcionalismo estatal celestial, é igualmente um sismo do debate político-ideológico transborda da política para a cultura: a hegemonia do discurso neoliberal e da apologia do Estado Mínimo através dos clichês (recorrentes tanto no jornalismo corporativo quanto em telenovelas e filmes) da ineficiência do Estado e da incompetência do servidor público.

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Se a ordem e hierarquia celestes refletem a ordem entre os humanos, então, nos céus brasileiros, só poderiam ser representados pela ineficiência de uma máquina estatal.

Junto com esse discurso ideológico sub-reptício que é a base do argumento da série, Ninguém Tá Olhando também flerta com altos conceitos como a discussão entre livre-arbítrio/necessidade, aleatório/caos contra ordem cósmica e a suposta ausência de Deus numa organização cujo chefe está sempre ausente – uma alusão tese nietzschiana da morte de Deus.

A Série

  1. Cumprir a Ordem do Dia (O.D.)
  2. Não aparecer para os humanos
  3. Não proteger humanos fora da O.D.
  4. Jamais entrar na sala do Chefe

Ulisses ou “Uli” (Victor Lamoglia) é o “calouro”, o novo anjo criado pelo “Chefe” depois de milênios. Ela encara os desafios do seu primeiro dia de trabalho na repartição número 5511 do “Sistema Angelus”, ouvindo o diretor seção alertando que jamais um “angelus” pode desobedecer quaisquer das quatro regras acima. Sob pena de uma punição imediata do “Chefe”.

E, o que é pior: como punição extra, ver por toda eternidade o filme com Nicolas Cage Cidade dos Anjos – refilmagem canhestra do clássico cult Asas do Desejo de Win Wenders.

 Importante: a O.D. é a indicação do humano (afixado em um mural com a escalação de todos os “funcionários”) que o angelus deverá proteger no dia. O nome é gravado em uma pequena bola que aparece em um terminal mecânico. Nome indicado a partir da sala do Chefe, ao final de um estreito corretor sob uma placa “Não Entre”.

Não há quaisquer explicações sobre quem é o Chefe é qual o propósito em obedecer às quatro regras. Para Uli, tudo parece arbitrário. Razão pela qual ele inferniza com perguntas seus dois mentores que o acompanharão na sua primeira OD: Greta (Júlia Rabello) e Chun (Danilo de Moura). Nenhum deles sabe das respostas.

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Uli aos poucos vai percebendo que todos ali funcionam no automático: ninguém questiona nada e estão totalmente alienados do propósito daquele sistema burocrático – obrigatoriedade de redigir relatórios, carimbos e arquivar tudo em caixas-arquivo em um gigantesco depósito a perder de vista.

Logo nas primeiras missões, Greta e Chun vão percebendo que Uli é desobediente, anárquico e sistematicamente vai desobedecendo cada uma das regras. Para complicar, Uli se apaixona por uma humana chamada Miriam (Kéfera Buchmann).

Mas isso é apenas o início do caos que está para surgir: Greta e Chun ficam desnorteados ao perceberem que Uli não é punido: Cadê o castigo instantâneo e fulminante do Chefe enfurecido? Parece até que “ninguém está olhando!”.

A certa altura no decorrer dos oito episódios da primeira temporada, Uli tenta desfazer a mitologia em torno dos anjos para a sua amada humana Miriam: “Anjos não voam, pegam ônibus e trabalham numa repartição pública que protege humanos de forma aleatória…”.

É sintomático esta representação do Céu como uma burocracia estatal ineficiente, cujos servidores sequer entendem qual o propósito do seu trabalho diário: acostumados a não questionar as quatro regras, repetem automaticamente a rotina diária.

Assim como o lobby da indústria de armamentos nos EUA incentiva a inserção de seus produtos nos filmes Hollywoodianos (armas são legais, tornam o mocinho mais poderoso, másculo etc.), da mesma forma, no Brasil, a hegemonia do discurso econômico neoliberal na elite política e cultural cria formas subliminares para desmoralizar a presença do Estado na sociedade – através de uma estratégia de “agendamento” (agenda setting), moldar a opinião pública para torna-la favorável à agenda neoliberal de privatizações, desregulamentações econômicas e trabalhistas, etc.

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