Do subdesenvolvimentismo da burguesia brasileira, por Igor Fuser

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Enviado por José Carlos Lima

Do Outras Palavras

Infâmia: o quem-é-quem da burguesia brasileira

Onze meses após o golpe, país afundou em recessão e retrocessos. Não se vê, entre as elites, o menor arrependimento ou intenção de alterar o rumo. Por que?

Por Igor Fuser

O golpe de estado de 17 de abril de 2016 atropelou as ilusões de quem acreditava nas virtudes infinitas da política de conciliação de classes – a ideia de que seria possível superar o apartheid social e o subdesenvolvimento no Brasil sem confronto com as elites dominantes, mas apenas por meio do crescimento da economia. No pós-golpe, essas mesmas elites demonstram plena convicção de que agiram corretamente, em defesa dos seus interesses.

Tal como ocorreu em tragédias históricas anteriores, como o golpe de 1964, o campo progressista discutirá ainda por muito tempo os fatores e as circunstâncias da derrubada de Dilma Rousseff, a começar pelos motivos da espantosa passividade das camadas mais pobres da população, as mais beneficiadas pelos governos liderados pelo PT.

Outro traço marcante no golpe de 2016 – tema da presente coluna – é o alto grau de coesão que as classes dominantes demonstraram na agressiva ofensiva contra o governo legítimo.

Com a óbvia exceção dos empreiteiros da engenharia pesada, enrolados na Operação Lava Jato (que claramente inclui entre seus objetivos a destruição desse setor estratégico da economia nacional), o que se viu na mobilização golpista foi um verdadeiro quem-é-quem da burguesia brasileira.

Lá estavam, unidos pelo “fora Dilma”, os banqueiros, os barões do agronegócio, os magnatas da mídia, os caciques da indústria brasileira remanescente, a fina flor do “PIB” nacional de mãos dadas com os grupelhos fascistas, os políticos picaretas e os pit bulls do Judiciário. Não faltou nem mesmo a rede de lanchonetes Habib’s, hoje tristemente famosa pela morte de um menino numa de suas lojas, que deu um desconto especial aos clientes que comparecessem aos atos pró-impeachment.

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Na vanguarda, para eliminar eventuais dúvidas sobre os interesses de classe em jogo, marchava o patético pato da Fiesp. Justamente a Fiesp, aquela mesma entidade que, tradicionalmente, é vista como principal porta-voz de uma burguesia brasileira, “interna” como dizem alguns teóricos. Por esse termo se costuma designar um segmento da classe dominante supostamente autônomo e portador de interesses próprios, contraditórios (dizem) com as preferências do imperialismo estadunidense e dos seus aliados no país.

De acordo com essa teoria, que não se confunde com a fé ingênua da cúpula ex-governista na conciliação de classes, as gestões presidenciais de Lula e Dilma seriam a expressão política de uma “frente neodesenvolvimentista”, articulada em torno de uma “grande burguesia interna” que estaria gerindo o país em aliança com a classe trabalhadora e em conflito com uma chamada “burguesia associada”, neoliberal e pró-imperialista.

Enquanto o primeiro grupo burguês teria o foco dos seus interesses voltado para o mercado interno e a expansão produtiva, o segundo grupo agiria a serviço dos interesses externos, do bloqueio a qualquer tipo de desenvolvimento autônomo.

A “grande burguesia interna” incluiria os maiores grupos econômicos de capital nacional em todas as áreas, desde o agronegócio até empresas financeiras como o Bradesco e o Itaú, gigantes empresariais como a JBS Friboi, a Votorantim, a Ambev, a Gerdau e a Vale, os grandes grupos de ensino e saúde privados, além, é claro, dos colossos da construção civil – Odebrecht & cia.

Essas e outras empresas, favorecidas com linhas de crédito e todo tipo de apoio oficial, amealharam, de fato, lucros fabulosos no ciclo de governos progressistas. Porém em momento algum mostraram qualquer compromisso ou apoio ativo ao projeto político liderado pelo PT. Aceitaram todas as benesses, pressionaram (em geral, com sucesso) por vantagens setoriais aqui e ali. Mas no campo político se limitaram, nos melhores casos, a tolerar os governos “de esquerda” como uma extravagância temporária numa trajetória histórica de cinco séculos de poder irrestrito da elite dominante.

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Houve quem encarasse essa postura pragmática como expressão de uma sólida aliança de classes, o que explicaria a relativa estabilidade política naquele período, apesar da permanente campanha midiática anti-PT e anti-governo.

Quando surgiu a oportunidade, a burguesia agiu em bloco para golpear a democracia. Se alguém ainda tem alguma dúvida, recomendo que leia a bela reportagem da jornalista Aline Maciel, da Agência Pública, sobre o envolvimento ativo das entidades representativas da indústria brasileira, em nível nacional e nos estados mais importantes, para pressionar os parlamentares indecisos nas vésperas da votação na Câmara dos Deputados (25/08/2016).

Muita coisa aconteceu nos onze meses que se passaram depois daquele dia de infâmia. Ministros do desgoverno golpista caíram e foram trocados em meio a denúncias de corrupção. Um deles chegou a comparar o núcleo do poder político em Brasília a uma suruba. A economia mergulhou de vez na recessão. A soberania nacional está sendo desmantelada e a imensa riqueza do pré-sal entregue de bandeja às empresas estrangeiras.

E não se verifica no seio da burguesia brasileira o menor sinal de arrependimento, a menor intenção de alterar o rumo do retrocesso em curso. Alguém ousaria, nesse cenário, profetizar a reconstituição da “frente neodesenvolvimentista”? Difícil.

De concreto, o que se vê nos meios empresariais, além do entusiasmo pela destruição de direitos trabalhistas, pelo desmonte da previdência pública e pelo congelamento dos investimentos sociais, são, no máximo, queixas pontuais, sem maior relevância no cenário político.

A mesma Fiesp que liderou as multidões de verde-amarelo na Avenida Paulista agora reclama do desmonte das políticas de “conteúdo local” na exploração do pré-sal. Mas sua insatisfação fica por aí mesmo, sem qualquer desdobramento prático, sem ao menos a intenção de inserir esse assunto na agenda política geral (quem quiser conferir, olhe o site da entidade).

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A burguesia, como classe, vê os seus interesses essenciais contemplados pelo retrocesso histórico que o governo golpista tenta impor à sociedade brasileira. Nunca teve interesse genuíno no projeto (neo) desenvolvimentista defendido pelo PT, por setores da burocracia estatal e sindical e por alguns intelectuais independentes, como Luiz Carlos Bresser-Pereira.

Desde sua ascensão à classe dirigente, na primeira metade do século 20, a burguesia brasileira tem clara consciência de que seu futuro está associado à dominação imperialista e à inserção numa ordem mundial capitalista sob hegemonia dos EUA.

Os burgueses brasileiros – isto está no seu DNA – desconfiam dos projetos de desenvolvimento nacional porque sentem que esse caminho os levaria a se marginalizar do sistema imperialista ao qual associam sua existência e seu futuro. Odeiam os trabalhadores, desprezam os pobres e têm dificuldade até mesmo em assumir plenamente uma identidade nacional brasileira.

“Queremos o nosso país de volta”, gritavam, nas ruas. Agora o têm, espero que não por muito tempo. Dessa gente, nada de bom se pode esperar.

Igor Fuser
Professor na Universidade Federal do ABC (UFABC), doutor em Ciência Política pela USP e autor do livro “Energia e Relações Internacionais” (Editora Saraiva, 2013)

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20 comentários

  1. do….

    Gestapo Ideológica. Esquerdopatia tupiniquim que não tem cura., A elite são sempre os outros. Os erros são sempre os outros. Medíocres e incompetentes a bloquear as soluções democráticas do país. Estado sem controle em eleições  obrigatórias. Terra do Atraso. O Brasil se explica. 

  2. Análise perfeita …

    Nunca pensei que fosse passar pelo que meu pai passou nos  preâmbulos  dos  “anos de chumbo”.  Náo entendia  como um bando de fanáticos denominados TFP  fosse capaz de mobilizar toda  a  burguesia da época para derrubar o perigo comunista.  Também, não entendia como é  que algum órgão sózinho conseguisse manipular todo um continente, explodindo palácios  e  jogando jovens ao mar  para purificar o sistema perfeito !!

    Agora , vendo os  patos  e os katakaquis que pululam por aí américa latrina afora, entendo perfeitamente, tal qual a  operação condor,   a  engrenagem utilizada:  – o “cérebro” fez um  teste piloto no Paraguai., para  ajustar a  potência  dos próximos bombardeios.   Na sequência, inverteram a  lógica do xadrez e  começaram a  derrubar  os  novos reis e rainhas latinos ( caíram Argentina, Brasil, Chile, Colombia )….Não perderam tempo com os peões Bolívia, Equador e Nicarágua  …..

    A  engrenagem é simples.  É igual a  coalhar todo o leite:  basta colocar-se as bactérias corretas  e  em 24 horas, você talha o balde de leite todo !   Foi o que aconteceu !

    Período de governo de esquerda???   Eles  sempre tiveram em mente que, era  apenas um período de carnaval, aonde  poderiam se retirar tranquilamente  para seus Resorts em Porto Seguro ou Angra  e  deixar a  massa se acabar nas drogas, sexo e samba, que depois  da quaresma, tudo voltaria  a  sua normalidade !!

    Temos  que aprender  a não bancar  mais  as buchas de canhão do sistema.   Ao invés  de montar novas FRENTES de esquerda,  sugiro que ajamos  de agora  em sempre  como FUNDOS de esquerda !!    Chega  de sair carregando bandeiras e tocando caixa na frente da cavalaria  só prá sermos  os  primeiros  a ser flechados  pelo inimigo !!

     

  3. A plutocracia nacional marcou

    A plutocracia nacional marcou com ferro em brasa, na pele da população brasileira, sua marca: a crueldade e o desprezo pelos brasileiros.Há apenas um elemento positivo decorrente do golpe de estado, que é a certeza de que o projeto da classe dominante é impedir qualquer projeto de país. Qualquer projeto de nação, concebido por uma frente de esquerda, deve excluir a participação dessa burguesia, caso contrário, será uma farsa. Assim sendo, esse processo totalitário será permanente, sem retorno. O conflito será cada vez maior, mas o inimigo se revelou e se expôs por inteiro.  

  4. Perfeito!

    Mas, a aparente passividade das camadas mais pobres é hisstórica deriva de varios motivos, por ex., a ficha ainda não caiu, o virtual o histórico e virtual aparthaid que engessa luta de classes no Brasil e que tem sua vaálvula de escape na criminalidade ( as peemes militarizadas seriam  uma espécie de panela de pressão?).

    • A passividade das camadas

      A passividade das camadas mais pobres é facilmente explicável. Somos um povo de Merda. Sempre fomos. A ditadura aqui não matou quase ninguém simplesmente pq o nosso povo de merda a aceitou bovinamente.

      A Ditadura da Argentian matou 10x mais em um país com um quinto da população do Brasil e por um terço de do tempo. 10x5x3 = 150. Se a Ditadura Brasileira tivesse matado que nem a Argentina, para cada morto, ela teria matado 150. Seria um banho de sangue, mas foi desnecessário em um país com um povo tão bovino e bonzinho.

      Ou seja, como povo, os Argentinos dão na gente nem é de 7 x 1, mas de 150 x 1

      • Exatamente; 
         
        a única saída

        Exatamente; 

         

        a única saída da situação em que estamos é o povo brasileiro mudar e tomar o controle do país – sem isto, não temos chance e o Lula e a Dilma fizeram de tudo, mas não chamaram o povo às ruas…

         

        … se eles não mudarem essa postura, eles vão ser golpeados de novo caso se elejam.  

      • Concordo plenamente com o

        Concordo plenamente com o “somos um povo de merda” e ainda acrescento “povo bunda mole”.

        Pela meritocracia, temos o que merecemos.

  5. ótimo artigo.
    nós levaremos a

    ótimo artigo.

    nós levaremos a vergonha e o ridículo a todos os golpistas – todo dia, em todo lugar.

    eles não se orgulham doq fizeram pq na foto já ficou feio, eles acrediamq fiozeram o melhor pra eles- sim.  Mas esperam ingenuamente q a massa vai esquecer, vai passar.

    tudo passa. mas o aprendizado acontece e depois de aprender não se esquece mais.

    iremos cada vez mais aprender. o povo é a chave, já aprendemos essa parte

    sem crime, sem impeachment. esta estamos aprendendo ainda.

    mas não vai levar 21 anos de novo.

    • Aprender é fácil…
      O

      Aprender é fácil…

      O problema é rasgar os contratos do pré-sal depois de assinados. A esquerda Brasileira não tem culhões para isso…

      E ainda mais rsgar e deposi levar bomba na cabeça.

      Destruimos o país de forma irreversível dessa vez.

      Quando aprendermos, seremos um povo miserável, afinal, o país está sendo salgado para que nunca mais isso aqui possa ser nada.

      E eles vão curtir a grana em Miami.

  6. Antes de falar da passividade

    Antes de falar da passividade do povo, falemos da passividade BOVINA DA DILMA e PT. Nada fizeram pra deter a marcha do golpe. Isto ainda tem que ser muito bem discutido.

  7. E a gobo

    E todo o papel desinformador e caluniador da globo? . Desinformaram aos obres e classe média e dominaram os poderes.

    Não há país que resista a isso. Acho até que é para destruir mesmo.

    Veja a tranquilidade com que ela leva o país, se permitindo até a algumas pequenas críticas, sempre mostrando quem manda, ao temer.

    Temos nosso “pradva” a serviço de outro país.

  8. A burguesia “brasileira” é

    A burguesia “brasileira” é subdesenvolvimentista não por medo de ser marginalizada no mundo da globalização, mas sim porque há uma grande vantagem em ser a burguesia de um país subdesenvolvido: 80% da população está excluída da competição pelas posições de status e prestígio na sociedade. 

    Veja bem, nem se trata de ter mais dinheiro porque, em um país crescendo rumo ao status de desenvolvido, é possível fazer bastante dinheiro desde que se estude um pouco sobre finanças e administração; se trata de fazer dinheiro, mas com menos esforço e ocupando as posições de prestígio na sociedade (melhores universidades, melhores concursos públicos e melhores cargos gerenciais em empresas).

    O aspecto central é que a burguesia “brasileira” quer estudar pouco, se esforçar pouco e, mesmo assim, se manter no topo da sociedade.   

     

  9. A burguesia “brasileira” é

    A burguesia “brasileira” é subdesenvolvimentista não por medo de ser marginalizada no mundo da globalização, mas sim porque há uma grande vantagem em ser a burguesia de um país subdesenvolvido: 80% da população está excluída da competição pelas posições de status e prestígio na sociedade. 

    Veja bem, nem se trata de ter mais dinheiro porque, em um país crescendo rumo ao status de desenvolvido, é possível fazer bastante dinheiro desde que se estude um pouco sobre finanças e administração; se trata de fazer dinheiro, mas com menos esforço e ocupando as posições de prestígio na sociedade (melhores universidades, melhores concursos públicos e melhores cargos gerenciais em empresas).

    O aspecto central é que a burguesia “brasileira” quer estudar pouco, se esforçar pouco e, mesmo assim, se manter no topo da sociedade.   

     

  10. A população tem que se

    A população tem que se organizar e tomar as rédeas do seu próprio destino, pois a depender dessa classe domiante, só lhes resta mesmo trilhar a pinguela para o inferno.

  11. Por isso acredito que o

    Por isso acredito que o pensamento de Ciro Gomes é exageradamente otimista. Na visão do ex ministro, se a essa elite for mostrado um projeto de desenvolvimento bem elaborado, ela adere com entusiasmo. Eu, assim como o autor do texto, acho que o buraco é mais embaixo. Qualquer projeto nacional emancipador, bem elaborado ou não, competente ou não, será por ela hostilizado ideologicamente. 

  12. Líder Supremo

    O grande mal foi não termos permitido a reeleição eterna do Lula, como a Venezuela fez com o Chávez. Nosso líder supremo iria resolver todos nossos problemas, exatamente como os bolivarianos fizeram na Venezuela!!! UAHUAHUAHUAHAUHAUA
    NUM CHOLA PETRALHADA SEM VERGONHA CAMBADA DE VAGABUNDOS MAMADORES DAS TETAS DOS PREVS DA VIDA E PELEGADA DE SINDICATO QUE QUER MAIS QUE TRABALHADOR SE EXPLODA PARA MANTER SEU PODER PAÇOQUINHA NOS SINDICATOS.

  13. + comentários

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