E agora, Lula?, por Fernando Horta

A aposta dos liberais brasileiros (que sumiram enquanto força política) é que Lula saíra como um leão ferido e partirá para cima das hienas bolsonaristas imediatamente.

Foto Victor Saavedra

E agora, Lula?, por Fernando Horta

Como em outro momento da história em que o fascismo se manifestou fortemente, há três projetos políticos em disputa no Brasil, e não dois. Convém tomar cuidado, pois as estratégias de dois deles parecem ser as mesmas daquelas demonstradas no século XX.

Entre 1933 e 1939, historiadores definiram a política do mundo ocidental para com a Alemanha nazista de “política do apaziguamento”. A ideia é que, tal qual hoje, o fascismo não nasce impossível de ser contido e somente cresce pelos espaços deixados pelos liberais que comandam as instituições. Lá, na Europa do entre-guerras, quando se deram conta do tamanho do erro que foi deixar Hitler sem ser contido, já era tarde. Desde o rearmamento da Alemanha até as anexações de território, os liberais ocidentais tentaram conter Hitler unicamente pela via da diplomacia. E uma diplomacia frouxa que, quase sempre, permitia ao Fuhrer alcançar seus objetivos.

Algo muito semelhante aconteceu no Brasil. Bolsonaro e seus apoiadores têm tido carta branca para fazerem o que bem entendem. Desde as fraudes nas eleições até o uso de violência explícita por parte de policiais e bolsonaristas têm sido aceitos pelas instituições. Elas esperavam que se pudesse “normalizar” a bestialidade e boçalidade do governo do capitão fascista, talvez, de forma semelhante ao que se fez nos EUA com Trump. As instituições erraram. Primeiro porque Trump não é fascista, é apenas um esperto bilionário surfando na onda conservadora e, segundo, porque as instituições brasileiras não são as norte-americanas. Vai aí quase trezentos anos da democracia funcionando como vantagem para as de lá.

Lá, no entre-guerras, os liberais ocidentais (capitaneados pelos EUA e pela Inglaterra) jogaram os nazistas contra os soviéticos. Toda a estratégia, conhecida como “bleed and bait”, foi dita abertamente pelo então senador Harry Truman em entrevista para o New York Times (veja a figura). Mesmo com a URSS pedindo a abertura de uma frente de guerra no ocidente (que ajudaria a dividir o exército alemão e acelerar sua queda), os interesses do ocidente seguraram esta decisão até o famigerado “Dia D”. O objetivo, com muito bem explicado por Truman, era fazer com que soviéticos e nazi-fascistas se enfraquecessem mutuamente, deixando espaço para o mínimo de esforço para a vitória dos liberais ocidentais.

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A soltura de Lula, neste momento, não se deve a um “mea culpa” do judiciário brasileiro. Tampouco a um reconhecimento dos direitos de Lula, por anos negados. A soltura se deve a três fatores: (1) por um lado o mercado e os capitalistas perceberam que não apenas Bolsonaro entregará um resultado econômico desastroso, como também o descontentamento social provocado pelas medidas de Guedes podem trazer prejuízos adicionais para as indústrias brasileiras. Por outro lado (2), a direita brasileira percebeu que Bolsonaro tem um projeto pessoal, ditatorial e totalmente criminoso de poder, baseado no aumento do controle de parcela de Estado por ele mesmo ou seus filhos. Por último (3), a incapacidade de obter resultados aceitáveis em QUALQUER área de atuação do governo, acendeu a luz vermelha das burocracias. Elas, enfim, entenderam que o fascismo não aceita dividir poder e, portanto, a sua própria existência, encasteladas nos micropoderes do Estado liberal, está em jogo.

O presidente Lula saiu da cadeia rugindo mais do que um Leão enfurecido. Como era de se esperar, o Lula que saiu está furioso e isto é TUDO o que os liberais que o soltaram querem que ocorra. Na verdade, soltaram Lula para que ele dê combate sem quartel a Bolsonaro e que os dois se destruam (ou se enfraqueçam) até as eleições de 2022. Este objetivo não foi disfarçado e está presenta nos editoriais e “opiniões” de nove em cada dez jornalões brasileiros. Acho, contudo, que o presidente precisa conhecer muito bem a história do século XX aqui. O fascismo brasileiro, que alguns insistem em chamar de “bolsonarismo”, trabalha na mesma lógica dos fascismos europeus: há o fim do “ator racional” na política. Não se deve achar que combater o fascismo no Brasil pode ser feito com argumentos racionais ou com a política “normal” com que se combateu FHC, Collor e etc. Como demonstrava Adorno, o nível de irracionalidade dos sujeitos que apoiam o fascismo, nos remete à construção de todo um mundo à parte, que não tem ligação com o mundo real e que interdita qualquer debate.

Quem venceu a segunda guerra foi, sem sombra de dúvida, a URSS. E o que permitiu que a URSS vencesse a segunda guerra foi um movimento arriscado e extremamente inteligente de Stalin e sua burocracia. A chamado “Pacto Ribentropp-Molotov” ou “Pacto de Não-Agressão nazi-soviético” está longe de ser o que as críticas liberais e trotskystas diziam que era. A bibliografia atual mostra que em momento algum houve “alinhamento” ou “apoio” da URSS para com a Alemanha. Aliás, Stalin tinha sido o único líder a oferecer todo o exército soviético para a contenção de Hitler após o chamado “Acordo de Munique” em 1938. Como Stalin não foi nem ouvido pelo ocidente, ele compreendeu a estratégia era jogar a Alemanha contra os soviéticos e se antecipou. Documentos mantidos em segredo por mais de 70 anos mostram isto claramente.

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O Pacto Ribentropp-Molotov oferece à URSS quatro necessárias vantagens: (1) atrasa o ataque alemão ao território soviético de forma que as indústrias soviéticas pudessem ser redirecionadas para o esforço bélico. Caso a Alemanha tivesse atacado a URSS em 1939, muito provavelmente a segunda guerra teria sido vencida pelos nazistas. Em segundo lugar (2), o acordo previa a “divisão” da Polônia o que significava meia Polônia longe das mãos nazistas, ao invés da Polônia inteira. Isto, para a história da segurança da Rússia, é muito significativo. Todas as invasões do Ocidente à Rússia se deram pela Polônia. Era necessário controlar a porta. Ainda (3), o Pacto Ribentropp-Molotov, permitiu aos soviéticos se aproximarem da máquina de guerra nazista e estudá-la. Molotov exigiu que observadores soviéticos acompanhassem a “Wehrmacht” (exército nazista) com a desculpa de atestarem o respeito “aos limites” do tratado. De fato, ali é que ocorreu a percepção soviética de quanto estava atrasada frente ao exército alemão. Por último (4), o Pacto redirecionou a Alemanha para o Ocidente, forçando a demolição da “política do apaziguamento” e da estratégia norte-americana mencionada acima.

A ordem do dia foi, portanto, ganhar tempo e reorganizar. Tudo o que acredito que o presidente Lula PRECISA fazer. Há severas brechas no campo da esquerda brasileira, seja do “trabalhismo pendular” do PDT ou do “esquerdismo de ressentimento” do PSOL. Há importantes lideranças com as quais sentar, como Ciro Gomes por exemplo, e ponderar com eles que as agressões precisam cessar, neste momento. Ademais, Bolsonaro ainda goza de considerável força no Brasil. Detém os meios de Estado, Moro permanece intocado, direcionando todo o custo dos vazamentos do The Intercept para Dallagnol que será, sem dúvida, “o primeiro a ser comido”. Há também uma grande quantidade de militares e policiais explicitamente fascistas, dispostos a TUDO para defenderem o seu “mito”. E uma parcela que julgo em torno de 22 a 30% da população que ainda não foi afetada pela deterioração econômica a ponto de caírem em si a respeito do governo de Bolsonaro. É preciso tempo para que Bolsonaro continue a derreter sem que ele reencontre a muleta do “anticomunismo”.

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A aposta dos liberais brasileiros (que sumiram enquanto força política) é que Lula saíra como um leão ferido e partirá para cima das hienas bolsonaristas imediatamente. E neste embate ambos perecerão. A aposta do fascismo de Bolsonaro é que Lula reascenderá a “polarização” e o medo e agressividade dos embates farão uma cortina de fumaça na incompetência e vilania do governo, algo que inteligentemente a presidenta do PT vinha negando a Bolsonaro. Se queremos vencer de vez a ameaça à nossa democracia e aos direitos humanos que representa Bolsonaro, nenhum dos dois caminhos nos serve. É preciso recompor nosso campo, é preciso ganhar tempo. É preciso combater Bolsonaro e seus comensais apenas em 2022. Ouçamos a História, antes que seja tarde demais!

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1 comentário

  1. Excelente a análise e a comparação com o que a URSS vivenciou na segunda guerra…… Também enxergo como nítida a intenção da Globo e seus parceiros passarem à nossa classe média rasa o mantra: “Nem Bolsonaro, nem Lula, basta de radicalismos! Vamos de Luciano Huck, o “centro” equilibrado e sensato para o Brasil…”

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