Bolsonaro queima a Amazônia e o samba, por Josias Pires Neto

Um programa humorístico da Alemanha tratou o presidente brasileiro como sendo “o Trump do Samba”. A expressão é um insulto ao samba

      

Enquanto bota fogo no país, presidente queima o samba numa piada sem graça

Por Josias Pires Neto

Enquanto o tiranete mafioso pede ao povo para botar fogo no país, torrar as florestas, o pré-sal, a tecnologia espacial, queimar os ativos nacionais, a aposentadoria e entregar tudo aos banqueiros do Trump, um programa humorístico da Alemanha tratou o presidente brasileiro como sendo “o Trump do Samba”. A expressão é um insulto ao samba, que sempre cantou a beleza, a alegria da tristeza, a dor da paixão e da traição, o amor, a amizade, a natureza. A piada do alemão atua no curto circuito identitário Trump – Trevoso – Samba; e enxerga o Brasil dominado por lambe-botas, e isto é verdade. Mas ao mesmo tempo desqualifica o samba ao mais baixo patamar.

As operações identitárias são demasiadas complexas, apesar das aparências. De fato há sambas para todos os gostos e intenções. A  elevação do samba a símbolo do Brasil foi armação ideológica tramada na década de 1930, quando o nacionalismo, que vinha do século XIX, andava em alta, e o samba começava a contaminar o Rio de Janeiro desde fins da década de 1870.  A apropriação política levada a cabo pelo governo Vargas com o engajamento de instituições do Estado articuladas em nome de um projeto nacional fez o samba e o popular ganharem realce sem precedentes pelas décadas seguintes. Afinal de contas, a música e a dança afro-brasileiras são expressões culturais de tamanha potência  que podemos aventar a hipótese de que se o Brasil um dia der certo nele se consolidará algo que poderíamos chamar de civilização do samba.

Apesar do desprezo das elites, os mais pobres do Brasil sempre enfrentaram longa história de dificuldades para sobreviver em meio a conflitos duros e negociações possíveis; e nos legaram um patrimônio cultural que sintetiza o melhor do Brasil. A equivalência entre “samba” e “Brasil” contém algo da verdade cultural do país quanto à força extraordinária de africanos e afro-brasileiros que, apesar de capturados nas teias da escravidão, enfrentaram todas as circunstâncias e nos legaram esse rico patrimônio cultural [e material!] exuberante. Identificar Brasil e Samba só vale a pena quando é para referir-se ao melhor do Brasil. Quando se trata de identificar o país com o pior que existe aqui o roteirista alemão poderia ter dito que o Brasil agora está nas mãos do “Trump de botequim” para fazer referência a um samba clássico de Noel Rosa, recentemente lembrado pelo cientista Ricardo Galvão, diretor demitido do INPE.

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Para o roteirista do programa de humor alemão quem manda no Samba agora é um trumpinho de quinta categoria cujo projeto é levar o Brasil para a lata de lixo da História. O samba sempre cantou outras coisas para e sobre o Brasil. Getúlio e sua “máquina” cultural investiu para que o samba enaltecesse o trabalho, cantasse as “glórias nacionais” patrioticamente e, ao mesmo tempo, viabilizou a difusão pelas ondas das rádios, dos discos e ajudou a problematizar em outro nível o conceito de cultura brasileira. Todo aquele projeto, porém, foi tragado pela mercantilização e internacionalização das culturas do período posterior. Hoje há o “grande samba” do turismo do Rio de Janeiro que se desdobra desde a modernização varguista e há a imensa diversidade de sambas de morro, de terreiro, de bairro, de rua, de asfalto, de roça etc. Hoje em Salvador e outras partes do país há alguns milhares de grupos de capoeira e de samba – autônomos e persistentes – e, de um modo ou de outro, esta foi sempre a condição histórica do país.  O samba tem pai, tem mãe, tem tios, tias, irmãos e irmãs, o samba é a comunidade, é o terreiro, é a terra, é a dança, a música, o canto que vieram dos ancestrais e foram mantidos e atualizados pelas sucessivas gerações.

A maioria que construiu e continua construindo esse patrimônio cultural é a maioria excluída da nação, excluída dos benefícios produzidos coletivamente. A ideia de que o samba possa simbolizar a nacionalidade só terá validade, só deveria ser levada a sério quando a expressão da maioria – hoje excluída da nação – for incluída como beneficiária das riquezas nacionais. O samba é profundamente democrático. As escolas de samba e a indústria da música favoreceram a difusão e reprodução do samba, a inclusão social fantástica e, ao mesmo tempo, aprofundaram relações com os sistemas dominantes.  – questões históricas a serem compreendidas.

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Por ordem do samba: Trumps tirem as mãos do Samba, máfiosos alto lá. O samba está presente de norte a sul, sempre esteve, antes do Brasil ser Brasil, o samba forma territórios de amizade e de disputas. Expressão musical exemplar do povo brasileiro, o samba sempre foi instrumento de afirmação dos excluídos. O samba é do povo, o samba é o povo.

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