Fascistas e invisibilidade midiática não se combatem com flores, por Wilson Ferreira

Mas a retroescavadeira de Cid Gomes jogada contra policiais milicianos amotinados no Ceará mostra que não se combate o fascismo com flores, mas com uma contra-pauta que faça a esquerda abandonar as lacrações das guerras identitárias-culturais. 

do Cinegnose

Fascistas e invisibilidade midiática não se combatem com flores

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

O mais importante na grande mídia não é o que ela pauta. É o que ela não diz. O jornalismo corporativo tem o dom de atribuir invisibilidade a fatos que não atendem a atual pauta que sustenta a estratégia semiótica de guerra criptografada: a pauta identitária, cultural e de costumes. A invisibilidade do documentário “Democracia em Vertigem” na premiação do Oscar e os 20 dias de greve dos petroleiros são exemplos: depois que o documentário “perdeu” e a greve foi suspensa, de repente a mídia descobriu que existiam, mas como “derrotados”. O que há em comum nesses fatos “invisíveis”? São contra-pautas – revelam temas econômicos que mostram a insustentabilidade da agenda neoliberal. Grande mídia fala agora em impeachment de Bolsonaro depois do ataque à jornalista Patrícia Campos? Agora colunistas da grande mídia descobriram o “projeto de poder autoritário” de Bolsonaro? Mais uma tática de jornalismo Snapchat que hipnotiza a esquerda. Mas a retroescavadeira de Cid Gomes jogada contra policiais milicianos amotinados no Ceará mostra que não se combate o fascismo com flores, mas com uma contra-pauta que faça a esquerda abandonar as lacrações das guerras identitárias-culturais. 

Mais uma vez este Cinegnose vai citar uma frase emblemática do velho Leonel Brizola, que deveria ser o princípio metodológico fundamental par a esquerda: “Quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem: se a Rede Globo for a favor somos contra. Se for contra, somos a favor”.

Em outras palavras: o mais importante na grande mídia não é o que ela pauta. É o que ela não diz. Aquilo que é omitido e se torna invisível para a agenda midiática, é o que dá o verdadeiro significado para tudo que é destacado nas escaladas dos telejornais ou nas primeiras páginas dos jornais.

Se não, vejamos. Até há poucos dias, diante dos arroubos, bravatas e medidas intempestivas do presidente da república e seus filhos, a grande mídia assumia uma espécie de “jornalismo de faxina”. Passava o pano e dizia que tudo era “polêmico”. Nunca se leu ou ouviu tantas vezes essas expressões: “declaração polêmica”… “governo polêmico”… “ministro polêmico”. Com algumas variações como “intempestivo”, “falar sem pensar” e outras que limpavam a poeira, relativizando declarações.

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Nunca se ouviu também falar tanto em “é o novo normal”. Outros cravavam que o País estava sendo dominado pela “cultura do foda-se”…

Mas, de repente, parece que a grande mídia fez uma surpreendente descoberta: Bolsonaro e o General Augusto Heleno têm um “projeto de poder autoritário” e estão “forçando os limites da Democracia”.

As ofensas de cunho sexista de Bolsonaro com trocadilhos em torno da expressão “furo de reportagem” contra a repórter da Folha Patrícia Campos parecem ter sido a gota d’água. Por exemplo, num estalo a colunista do conservador Estadão, Vera Magalhães, escreve sobre impeachment por “crimes de responsabilidade e quebra de decoro”.

A revista informativa igualmente “faxineira”, Isto É, passou a pedir abertamente o impeachment do capitão da reserva dizendo que “o chefe de Estado já deu caudalosas razões para a abertura do processo de impeachment”. Fala também em “quebra de decoro e de ferir a liturgia do cargo que ocupa”.

E o que diz a Globo, a chefia da faxina dos últimos meses? A “voz dos mercados”, Miriam Leitão, alertou de que “assim morrem as democracias e nascem as tiranias” e que “o presidente radicalizou e está descontrolado”.

O áudio “vazado”

E, por último e não menos importante, a grande imprensa dá destaque ao áudio “vazado” (sempre quando a grande mídia fala em “vazamento” devemos desconfiar do oportunismo de um fato supostamente aleatório…) do general Heleno – na presença do Ministro Paulo Guedes e de Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) disse: Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. Foda-se!”.

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Muito sensacional, impactante! Revela-se a vocação democrática da grande mídia que arma as garras na defesa da ordem democrática e do Estado de Direito!

Mas, o que a grande mídia não mostra? O que jornalões e telejornais condenam à invisibilidade parcial ou total?

Somente alguns exemplos entre inúmeros. Para começar, a indicação de Democracia em Vertigempara o Oscar de Melhor Documentário. No início, críticos especializados da grande mídia audiovisual usavam a indefectível expressão “polêmico” para qualificar a produção que descrevia como a elite brasileira se cansou da Democracia e articulou o impeachiment de 2016.

Para depois condena-la à invisibilidade, até chegar a noite da entrega dos prêmios… só para dizer que Petra Costa tinha “perdido o Oscar” – quando somente a indicação já tinha sido uma vitória. Menos para a mídia que tirou o pó e escondeu tudo debaixo do tapete.

O mesmo destino teve a greve dos petroleiros: depois de 20 dias de paralisação, só ganhou as manchetes quando foi suspensa. E ainda assim, escondendo a vitória do movimento – a suspensão da demissão dos mais de mil empregados da Fábrica de Fertilizantes do Paraná, Fafen-PR.

Para a grande mídia, a liderança do movimento suspendeu a greve para “dialogar em Brasília com a Petrobrás em audiência do Supremo Tribunal do Trabalho”. Ou seja, o vitorioso fora o ministro Ives Gandra Martins, do TST, que havia declarado a greve como ilegal. E não os petroleiros que reverteram as demissões.

Enquanto isso, a notícia de que a produção industrial brasileira fechou 2019 em queda de 1,2%, simultânea à disparada do dólar e saída em massa de dólares do País foram recebidos com a expressão eufemística “sinais contraditórios da economia”, segundo o solerte Gerson Camarotti na Globo News, tentando apagar o incêndio.

Globo finge que não vê…

Jornalismo Snapchat

Mas o gênio irascível do ministro Paulo Guedes veio salvar o dia: a sua ironia contra as empregadas domésticas conseguiu sequestrar a pauta, alimentando a agenda identitária da grande mídia que serve de tática diversionista para desviar a atenção do respeitável público.

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Discutir de Guedes foi preconceito ou ofensivo é melhor do que a ter que falar dos incômodos “sinais contraditórios” que possam colocar em xeque a agenda neoliberal.

Mas depois do jornalismo de faxina, também entra em ação o chamado “Jornalismo Snapchat”: a crise dos serviços públicos com a fila de 2 milhões de pedidos de concessão da aposentadoria, além da fila de 3,5 milhões que esperam pelo Bolsa Família, foram noticiados em brevíssimas edições noticiosas para depois ser esquecida – assim como no aplicativo de mensagens Snapchat onde cada “snap” dura um breve período, para depois ser excluído do aplicativo e servidores.

E o que há em comum em todos esses fatos que ganharam o dom da invisibilidade pela grande mídia? São fatos que emergem da esfera econômica:

(a) Mais do que relatar os fatores políticos que levaram ao impeachment, Petra Costa revela a elite que se perpetua no Estado e que banca a República e que, às vezes, também se cansa da Democracia: Banqueiros (os credores do Estado), as famílias proprietárias da grande mídia (os defensores do Estado) e as construtoras (responsáveis pelo aço e cimento da infraestrutura do Estado);

(b) A greve dos petroleiros se reveste de importância crítica (e a grande mídia sabe disso) porque revela a possibilidade de resistência contra a política de privatizações aceleradas da infraestrutura estratégica nacional;

(c) Os “sinais contraditórios” da economia são sintomas de que a política econômica de austeridade fiscal não produz desenvolvimento sustentável;

(d) E que a extensão da paralisia dos serviços públicos aprofundará ainda mais a desigualdade e a insustentabilidade econômica.

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4 comentários

  1. Prezado Wilson Ferreira, creio que existe uma contradição radical em seu artigo, como se você houvesse caído nas mesmas armadilhas semióticas da direita que costuma combater com tanta propriedade. Desde quando um filho representante das oligarquias nordestinas, membro de um partido cujo próprio irmão já está sendo escalado pelo centrão para concorrer as próximas eleições, é um herói combatente contra o fascismo, pelo fato de haver investido com uma retroescavadeira contra policiais grevistas? Desde quando policiais grevistas que pleiteiam por melhores salários são fascistas? E desde quando a atual unanimidade da mídia oligárquica contra os PMs grevistas não faz apenas reafirmar o alerta do Leonel Brizola que você acaba por ignorar em seu artigo?

  2. Enquanto isso, o PT terceiriza ao PSOL os ataques ao PDT. Militantes do PSOL do CE e RJ estão atacando Cid Gomes nas redes sociais, tentando corroer a imagem corajosa do senador cearense. Os “bravos” militantes do PSOL nada fizeram contra os criminosos milicianos bolsonaristas. Mas o Cid…

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    • Direto de Paris para Sobral, a Vichy tupinambá.
      Uau.
      Nossa corajosa versão do marechal Petáin.
      Tenha vergonha nessa cara ô cabra.

  3. O Velho Coronelato a Velha Politica vendo seus Feudos e Oligarquias quase seculares desmoronando. Agora os Cidadãos, a Sociedade Civil, os Trabalhadores podem se defender. Fica explícito o temor que Elites e Oligarquias Fascistas produzidas desde 1930 tinham contra este Direito. A Verdade é Libertadora.

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