Funk, reprimido na rua e ignorado na escola, por Rogério Pelizzari

Tese demonstra que professores — como a maioria da população — desconhecem e têm preconceito pelo ritmo, apreciado por quase 70% dos alunos. Não exploram a rica possibilidade de usar essa referência musical na educação

Imagem: Guilherme Rolfsen

por Rogério Pelizzari

Após a tragédia na madrugada de 1 de dezembro, que deixou nove mortos na favela de Paraisópolis, multiplicaram-se manifestações em apoio à atuação da polícia entre autoridades e populares. O Governador de São Paulo tratou de esclarecer, antes de qualquer apuração sobre o episódio, que as ações ostensivas seriam mantidas. Nas redes sociais, pipocaram mensagens que tratavam de responsabilizar as próprias vítimas, sob o argumento de que aqueles não eram nem lugar, nem horário e nem trilha sonora para pessoas de bem.

Parece óbvio que não podemos ignorar os problemas decorrentes da realização de eventos que atraem multidões, especialmente em espaços públicos sem condições básicas de organização, infraestrutura e segurança. São legítimas e devem ser atendidas as queixas dos moradores sobre o barulho, motivado pelas caixas de som potentes instaladas em diferentes pontos das regiões onde os bailes acontecem. Também vieram à tona reclamações em relação aos transtornos à mobilidade, causados pela ocupação das ruas e das calçadas por milhares de pessoas, a maioria delas jovens. Cabe, enfim, investigar as denúncias de tráfico de drogas durante as festas e propor medidas que busquem coibir práticas criminosas.

A catastrófica intervenção policial e sua repercussão, contudo, confirmam o preconceito e a opinião enviesada de nossa sociedade em relação a elementos da cultura cuja origem remete às comunidades periféricas das grandes cidades. A música, os hábitos sociais, os gostos e preferências, que são produzidos e reproduzidos a partir de localidades marcadas pela pobreza, pela falta de assistência e de serviços públicos, são vistos como inferiores, de má qualidade, menor e, no limite, considerados uma espécie de atestado prévio de culpa: “Digas o que ouves e eu te direi quem és.”

Um dia depois do incidente, em entrevista à Folha de S. Paulo, o ascensorista Roberto Oliveira, padrinho do adolescentes Gustavo Xavier, de 14 anos, que morreu pisoteado enquanto tentava fugir dos cassetetes, bombas de gás lacrimogênio e dos tiros de bala de borracha, evidencia os critérios utilizados pelo poder público para definir onde e como fazer uso da força para garantir a ordem social. “Se fosse lá, como é mesmo? Em Higienópolis, o tratamento seria diferente. Como disseram os Racionais MCs, da ponte pra cá é diferente.”

Funk, rap e educação

Defendi tese de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP), em março deste ano, que buscou verificar a percepção dos professores sobre as referências musicais dos estudantes. A pesquisa revelou, dentre outras coisas, que os educadores ignoram percentual superior a 90% das canções e artistas mais ouvidos pelos jovens com os quais eles convivem diariamente.

O estudo envolveu cerca de 1,5 mil educandos e quase 40 profissionais de educação de cinco escolas. Na primeira fase, crianças e adolescentes do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do médio responderam a um questionário. O objetivo era identificar hábitos, comportamentos, gostos e preferências.

Os dados foram, então, organizados e, na segunda etapa, o foco se voltou para os mestres. Eles foram reunidos para discutir e opinar sobre os resultados, assim como responderam a alguns testes que tinham o propósito de aferir o quanto sabiam a respeito do que os alunos gostavam e não gostavam de ouvir.

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Quase todos tinham consciência de que os gêneros musicais favoritos entre os estudantes são o rap (69,3%) e o funk (68,3%), mas nenhum reconheceu sequer uma entre as dez obras com o maior número de menções pelos jovens. Além disso, os docentes não conseguiram reproduzir ao menos trechos das canções nem mesmo depois de terem sido apresentados às suas respectivas letras.

Com relação aos dez artistas que mais se destacaram na pesquisa, os Racionais MCs (4º) foram os únicos identificados pelo conjunto de educadores. De resto, pouco menos de um terço deles disse conhecer o rapper norte-americano Post Malone (7º) e cerca de um quinto fez referência ao Projota (9º). Também foram lembrados, mas por apenas dois participantes, o coletivo 1Kilo (2º) e o cantor Hungria Hip Hop (5º). Em relação aos demais representantes do ranking, Gaab (1º), Mc Kitinho (3º), Mc Kekel (8º) e Mc Denny (10º) podem ser classificados como ilustres desconhecidos entre os mestres, uma vez que todos os participantes das dinâmicas foram incapazes de reconhecê-los.

Vale destacar ainda que, exceção feita ao aclamado grupo de rap paulistano, que ficou conhecido por hits como “Diário de um detento”, “Negro Drama” e “Homem na estrada”, os professores admitiram que não teriam condições de citar ao menos um trabalho dos outros compositores e intérpretes que figuravam nesta lista.

Diferentes motivos concorrem para explicar tamanho dessaber sobre as trilhas sonoras que atravessam a vida cotidiana destes meninos e meninas, incluindo a escola e a sala de aula. Uma delas é as novas tecnologias de comunicação, que baratearam e ampliaram as possibilidades de acesso, além de terem descentralizado as formas de produção e circulação de álbuns, faixas e artistas. Outra é os algoritmos, que personalizam as playlists, considerando o histórico de utilização, pesquisa e consumo dos usuários das plataformas voltadas para esse tipo de serviço, como sites e aplicativos.

Mas uma das principais razões para que os educadores ignorem traços mais específicos das preferências dos educandos é a visão crítica, frequentemente associada ao preconceito, aos estigmas e aos estereótipos. Durante a realização dos grupos de discussão, não foram incomuns os comentários depreciativos, sobretudo em relação ao funk, com a exposição de opiniões e juízos de valor, que, não raro, associavam as músicas, suas letras, as danças e os pancadões, além dos hábitos e dos comportamentos que deles decorrem, a um estilo de vida irresponsável, de qualidade inferior, que comprometeria negativamente e, no limite, atrapalharia a educação.

De acordo com depoimento colhido durante um destes encontros, “Aluno brasileiro, de modo geral, não valoriza a disciplina, o estudo. E se você ver, o estudo é oposto disso aí. Eles gostam disso [funk] e isso acaba se refletindo na sala de aula.”

Uma das professoras, em outra oportunidade, ao ser questionada sobre a possibilidade de utilizar as canções favoritas dos alunos no processo de ensino-aprendizagem, em alusão ao patrono da educação no Brasil, Paulo Freire, criticou o que denomina “mimetismo freiriano”, alegando que é preciso apresentar aos jovens algo que os permita transcender sua realidade imediata. Para ela, “ao reproduzir o ambiente do aluno”, a escola pode não conseguir “tirá-lo desse círculo vicioso, de dar um ponto seguinte, além daquele estrato em que ele está, porque repetiríamos o estrato que ele está.”

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Outras opiniões tratavam de diferenciar os matriculados em unidades públicas daqueles que frequentam as escolas particulares. Para os partidários da ideia, os repertórios seriam distintos, com a influência restrita dos trabalhos gravados pelos mcs entre os estudantes originários das classes média e alta ou, no mínimo, estes teriam condições de adotar olhar crítico em relação a tais músicas. “A percepção que eu tenho é que, na escola particular, o aluno ouve, mas ele ouve com um certo espírito crítico, diferenciado em relação a uma escola da periferia em que o aluno ouve funk e rap como cultura”, disse uma das educadoras.

Naturalmente foram colhidos também diversos depoimentos favoráveis ao entendimento de que é possível usar as referências musicais dos estudantes na educação. Esta perspectiva quase sempre partiu do pressuposto de que valorizar as experiências do aprendiz e inseri-las nas atividades pedagógicas facilitam a compreensão dos temas de aula. Neste sentido, além de observações genéricas sobre sua importância, alguns participantes mencionaram a presença da obra dos Racionais MCs no vestibular da Unicamp de 2018 e houve quem fizesse citações pontuais a projetos associadas a rappers como o Emicida.

De todo modo, chama a atenção a escassez de casos concretos. Identifiquei apenas uma experiência, da professora de matemática do 6º ano, que desenvolveu um trabalho para facilitar a compreensão da tabuada a partir da criação de paródias pelos alunos. Ela relatou que os aprendizes tinham autonomia para escolher a música e fazer as letras, desde que respeitassem o objetivo original da disciplina. A maioria dos artistas selecionados foram funkeiros e, na sua opinião, este fato foi essencial para o sucesso da atividade. “Eles levaram super a sério o trabalho. Essa ‘Só quer vrau’ [Mc MM] foi a primeira que apareceu. Esse Kevinho aí, Kekel, todos esses estavam na tabuada. E eles faziam isso mesmo… nanananana, na tabuada… vamos cantar, seis vezes um.”

Conhecer e ouvir para ensinar

Como deixou registrado para a posteridade o filósofo Michel Serres, “antes de ensinar o que quer que seja a alguém, é preciso, no mínimo, conhecer esse alguém”. Morto aos 88 anos em junho de 2019, o pensador francês colaborou com uma corrente de estudiosos, de pesquisadores e de entusiastas de práticas pedagógicas, que entendem a educação como um processo marcado pela interdependência entre professores e alunos. Aprender e ensinar, na perspectiva destes autores, seriam experiências diretamente vinculadas ao nível de interação, de mútua compreensão e de diálogo entre seus diferentes agentes.

É claro que os professores não podem ser responsabilizados pela política de segregação, nem pela perpetuação do preconceito em relação aos elementos que fazem parte da cultura das crianças e adolescentes com os quais lidam todos os dias. Submetidos a condições precárias de trabalho, com baixos salários, ausência de infraestrutura, falta de capacitação e jornadas diárias extenuantes, eles não recebem estímulos, não têm tempo, nem são incentivados a desenvolver propostas pedagógicas mais aderente à realidade e ao perfil dos educandos.

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Trata-se de uma percepção distorcida, que não ecoa somente nos profissionais de educação, mas, de alguma forma, envolve a todos nós individualmente e como sociedade, incluindo as autoridades políticas. Vereadores, prefeitos, ministros e até o presidente da república contribuem para institucionalizar práticas e visões de mundo, que só fazem ampliar o fosso da desigualdade, quando adotam narrativas duvidosas e de forte repercussão nas mídias. Tendem a ter muito mais impacto, portanto, declarações de um governador de estado, que apressou o elogio à ação da polícia antes de lamentar as vítimas, colocadas sob suspeição apenas pelo fato de serem pobres e frequentarem bailes funks.

Outro episódio recente, mas no plano federal, que revela uma pauta de reforço aos estigmas e divisões, foi a nomeação do maestro Dante Mantovani para a presidência da Fundação Nacional das Artes (Funarte). Doutor em música, o atual responsável pelo desenvolvimento de políticas públicas de fomento às artes no Brasil e partidário de, para dizer o mínimo, um exótico paradigma do conhecimento, publica com regularidade vídeos em sua página no Youtube, onde é capaz de estabelecer ligação entre o rock, a dialética negativa, Adorno, comunismo, o aborto e o satanismo.

Entre as manifestações de expoentes do governo Bolsonaro, destaca-se ainda a postagem no twitter do recém-empossado no cargo de presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira, que tratou de criticar o uso de canções de artistas nacionais na produção de material didático. Datado de 2017, o texto faz associação direta entre gêneros musicais e a qualidade da educação. “Livros didáticos estão cheios de músicas de Caetano Veloso, Gabriel O Pensador, Legião Urbana. Depois não sabem por que está todo mundo analfabeto”, escreveu.

A emergência das “teorias” dicotômicas, que buscam cristalizar ideias sem qualquer embasamento científico e estabelecer noções polarizadas de bem e mal, de bom e mau, de certo e errado representa um risco às conquistas obtidas a tanto custo, ao longo das últimas três décadas, no âmbito dos direitos humanos, das liberdades, da livre manifestação e da diversidade.

Em sociedades democráticas, a disseminação de valores e de saberes que garantam a afirmação, a consolidação e a manutenção da própria democracia é um dos papéis da escola. Iniciativas que estimulem o diálogo, o respeito mútuo e assegurem a tolerância às diferenças são princípios essenciais, que devem fazer parte da formação já nos anos iniciais da educação básica. Aproximar-se das crianças e adolescentes e ter conhecimento maior sobre as práticas juvenis podem ajudar os agentes envolvidos neste processo, que não estão restritos aos profissionais de educação, mas se estendem aos variados setores organizados da sociedade, à família, a nós, a você e a mim. Em tempos tão ensurdecedores, ouvirmos e incentivarmos a escuta como forma de revermos nossos próprios preconceitos e de resistirmos ao que há de pior no conservadorismo retrógrado.

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4 comentários

  1. Ôpa!!!
    Parece que estamos começando a entender o Brasil.
    Carregando preconceitos, como querer promover o mínimo de mudanças.
    Idéias sedutoras, cheirando a novas mas com pé lá atrás…
    A moçada percebe; e ainda são acusadas de não fazerem nada.
    Que tal chamarem essa turma para elaborar políticas e serem, elas mesmas, os agentes, sem intermediários, dessas políticas?

  2. Não surpreende ninguém o fato de os professores, bem como a maior parte da população adulta desconhecer os cantores e músicas do gênero funk: as músicas em geral são péssimas. Os “cantores” via de regra não passariam em teste para cantar em baile de escola, as melodias são inexistentes, consistindo em primitiva percussão, as letras são indigentes, quando não pornográficas (o que denota profundo mau gosto). Já o rap, que eu não classificaria propriamente como música, é poesia (de boa ou má qualidade) declamada com música de fundo.
    Então não se trata de preconceito. Música de qualidade sempre sobressai, de uma forma ou outra. E os professores fazem bem em não endossar o que é ruim. Se surgirem músicas de funk boas, naturalmente podem ser utilizadas no ensino.

  3. “Além disso, os docentes não conseguiram reproduzir ao menos trechos das canções nem mesmo depois de terem sido apresentados às suas respectivas letras.”
    Na verdade, os docentes NÃO TIVERAM CORAGEM de reproduzir ao menos trechos das “canções”
    riquíssimas em conteúdo…
    É, mas tem gente que gosta.
    Fazer o quê.
    Gosto não se discute, se lamenta.

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