Impeachment de Dilma está designado para proteger a corrupção, por Glenn Greenwald e David Miranda

Jornal GGN – Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, os jornalistas Glenn Greenwald e David Miranda apontam para o fato “mais bizarro” da crise política vivida no país: o de que quase todas figuras políticas importantes que defendem o impeachment da presidente Dilma Rousseff enfrentam acusações de corrupção mais sérias do que ela, o que vale também para aqueles que podem assumir o poder no caso de um afastamento.

Eles ressaltam que, de Michel Temer a Eduardo Cunha, passando por Aécio Neves e Geraldo Alckmin, importantes adversários de Dilma estão envolvidos em escândalos que “destruiriam a carreira de qualquer um numa democracia minimamente saudável.” Para Greenwald e Miranda, é irônico que a presidente seja um dos poucos atores políticos que não está diretamente envolviod em casos de enriquecimento pessoal. 

Os jornalistas também argumentam que estes fatos, somados ao “tratamento abertamente político de Moro” ao ex-presidente Lula e a cobertura “embaraçosamente sensacionalista” do Jornal Nacional, fizeram como que a mídia estrangeira alterasse radicalmente sua percepção sobre a crise brasileira. Leia mais abaixo:

Da Folha

 
GLENN GREENWALD E DAVID MIRANDA
 
 
O fato mais bizarro sobre a crise política no Brasil é também o mais importante: quase todas as figuras políticas de relevância que defendem o impeachment da presidenta Dilma Rousseff –e aqueles que poderiam assumir o país no caso de um eventual afastamento da mandatária– enfrentam acusações de corrupção bem mais sérias do que as que são dirigidas a ela.
 
De Michel Temer a Eduardo Cunha, passando pelos tucanos Aécio Neves e Geraldo Alckmin, os adversários mais influentes de Dilma estão envolvidos em chocantes escândalos de corrupção que destruiriam a carreira de qualquer um numa democracia minimamente saudável.

 
Na verdade, a grande ironia desta crise é que enquanto os maiores partidos políticos do país, inclusive o PT, têm envolvimento em casos de corrupção, a presidenta Dilma é um dos poucos atores políticos com argumentos fortes para estar na Presidência da República e que não está diretamente envolvido em casos de enriquecimento pessoal.
 
Esses fatos vitais têm alterado radicalmente como a mídia internacional vê a crise política no Brasil. Durante meses, jornalistas norte-americanos e europeus retrataram de forma positiva as manifestações nas ruas, a investigação da Operação Lava Jato e as decisões do juiz federal Sergio Moro.
 
Em razão desses fatos, agravados pelo tratamento abertamente político de Moro com relação ao ex-presidente Lula e pela cobertura midiática embaraçosamente sensacionalista feita pelo “Jornal Nacional” e por outros programas da Rede Globo, agora muitos estão reconhecendo que a realidade é bem menos inspiradora ou nobre.
 
A sociedade brasileira tem muitas razões legítimas para se zangar com o governo. Mas para uma parte da elite midiática e econômica do país, a corrupção é apenas uma desculpa, um pretexto para atingir um fim antidemocrático.
 
O objetivo real é remover do poder um partido político –o PT– que não conseguiu derrotar após quatro eleições democráticas seguidas. Ninguém que realmente se importasse com o fim da corrupção iria torcer por um processo que delegaria o poder a líderes de partidos como o PMDB, o PSDB e o PP.
 
Pior, está se tornando claro que a esperança dos líderes dos partidos da oposição é de que o impeachment de Dilma seria tão catártico para o público, que permitiria o fim silencioso da Operação Lava Jato ou, ao menos, fosse capaz de fazer com que tudo terminasse em pizza para os políticos corruptos.
 
Em outras palavras, o impeachment de Dilma Rousseff está designado para proteger a corrupção, não para puni-la ou até acabar com ela –o retrato mais característico de uma plutocracia do que de uma democracia madura.
 
Impeachment é uma ferramenta legítima em todas as democracias, mas é uma medida extrema, que deve ser usada somente em circunstâncias convincentes de que há crimes cometidos pelo presidente da República e quando há provas concretas das ilegalidades. O caso do impedimento de Dilma não responde a nenhum desses dois critérios.
 
Em uma democracia avançada, o Estado de Direito, não o poder político, deve prevalecer. Se, apesar disso tudo, o país estiver realmente determinado a apear Dilma do poder, a pior opção seria deixar essa linha de sucessão corrupta ascender ao poder.
 
Os princípios da democracia exigem que Dilma Rousseff termine o mandato. Se não houver opção, e ela for impedida, a melhor alternativa é que sejam realizadas novas eleições e, assim, que a população decida quem assumirá seu lugar, pois, como está na Constituição, todo poder emana do povo.
 
GLENN GREENWALD, 49, cofundador do site especializado em reportagens sobre política nacional e externa The Intercept, é vencedor do Prêmio Pulitzer de Jornalismo em 2014 e do Prêmio Esso de 2013
 
DAVID MIRANDA, 30, jornalista e ativista, é impulsionador do Tratado Snowden, proposta internacional de proteção à informação 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  Lalo Leal: Aos 70 anos, TV brasileira tem pouco a comemorar

6 comentários

  1. Não vai ter golpe! PP e líder do PMDB Picciani estão com Dilma

    Acabo de ler no Twitter:

    Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara: “tenho um convencimento que as pedaladas fiscais não configuram crime de responsabilidade”.

  2. “Esse processo de impeachment é nulo de pleno Direito”

    A defesa que José Eduardo Cardozo fez do processo de impeachment da presidente Dilma na Comissão Especial da Câmara é demolidora. Ela desmoraliza a Câmara Federal e, em vista de todo o argumento da peça da AGU, se a maior parte desses deputados tivesse respeito pelo cargo que ocupa, trataria de pôr fim nesse proposito que apenas envergonha e diminui essa casa.

  3. No Br, Impeachment é assunto p/ iniciados

    É que esses jornalistas gringos, o Glenn Greenwald e o David Miranda, não sabem da missa nem metade. É que o impeachmente da presidente brasileira tem um “quê” do além ou messiânico. Isso mesmo. Porque é também assinado por uma, digamos assim, “iluminada”, a dra Janaina, professora de Direito Penal na USP, faculdade onde obteve o doutorado sob orientação do jurista tucano Miguel Reale Júnior que é outro jurista que assina o pedido de impeachment, e que, em relação a si própria “afirma ser espírita, têm atribuído a forças superiores o fato de ter conhecido Bicudo[refere-se à Hélio Bucudo, outro jurista que assina com ela o pedido de impeachment]” e que, como afirma em seu discurso, “Deus manda uma legião para cortar as asas da cobra”, em referência a Lula” , e que “Ela submeteu o pedido de impeachment a um padre amigo da família.”[citacões retiradas do post DCM – http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/janaina-diz-que-nao-estava-possuida-e-nem-bebada/ ]

  4. NOVAS ELEIÇÕES NO SEU PAÍS
    Omite muito, se caracteriza se mocinho justo e verídico, quando na verdade influência conflitos maiores e sugere algo que ainda gera insatisfação.

    Nada de novas eleições. Viva na periferia ou com a desigualdade matando familiares seus diariamente. O motivo? Preconceitos.

    Dilma terminará seu mandado. Está tendo um GOLPE, vocês influenciam novas soluções e nós brasileiros lutaremos pelo que de fato nos interessa: NOSSA DEMOCRACIA RESPEITADA E A PERMANÊNCIA DA ELEITA POR MAIORIA DOS BRASILEIROS A PRESIDENTA DILMA.

    MACHISTAS NÃO PASSARÃO

    Mulheres, nas ruas defendendo nós mulheres. (somos maioria e estamos nos unindo)

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome