Jessé de Souza e a necessidade de criarmos uma nova identidade, por Rafael Pizzato

Por Rafael Pizzato Vier

Li aqui no Blog o artigo de Jessé de Souza na Folha e resolvi fazer o seguinte comentário sobre suas reflexões. Sem entrar em maiores detalhes sobre os governos de Getúlio e Geisel, mas tentando entender a essência do pensamento de Jessé sobre a sociedade brasileira.

Ninguém resolve um problema que não existe.

E qual foi o problema que o Jessé criou?

Ele jogou fora nossa identidade.

Agora, precisamos arrumar outra.

Se Jessé não tivesse destruído a “Casa grande”, a “Cordialidade”, os “Donos do Poder” e nossa suposta incapacidade de distinguir entre a “Casa e a rua”, entre outros mitos; nunca saberíamos que nossa identidade, na verdade, é um documento falso. Além disso, tampouco, teríamos descoberto que precisamos de uma nova identidade.

E a razão dessa identidade ser falsa, era porque se via subjetividade – maus hábitos – onde havia objetividade – desigualdade extrema. Em outras palavras, não eram os vícios que produziam a miséria, mas a opulência frente à miséria que permitia o afloramento dos vícios.

Por isso, a indolência, corrupção estatal* e a leniência em relação ao bem público não pertencem a nossa identidade. Esses desvios de conduta são parte da natureza humana, a desigualdade extrema, porém, é o fruto de uma construção social. Essa obra social que erguemos no passado e insistimos em manter intacta é que potencializa os desvios de conduta, uma vez que impede o desenvolvimento de “freios e contrapesos sociais” capazes de barrarem o afloramento desses desvios.

Para ser mais direto e citar um caso concreto. Quem acredita que a Lava Jato é uma operação de combate à corrupção é porque ainda tem a velha identidade na carteira. A Lava Jato é uma operação para derrubar um governo que tem como um de seus objetivos principais a construção de uma sociedade mais inclusiva e, portanto, menos desigual.

Como diria o ditado, não se faz omelete sem quebrar os ovos. E esse é o papel da “República do Paraná” através da operação Lava Jato. Essa operação está cumprindo a mesma função que a aeronáutica desempenhou quando implantou a “República do Galeão”, para acabar com o “mar de lama” do Getúlio. O mesmo papel do Corvo, na Rádio Globo, para impedir a eleição, posse e o governo do “populista” (e, posteriormente, corrupto) Juscelino. E, por fim, tem o mesmo papel que tiveram as forças armadas no combate à “república sindicalista” de Goulart, que iria implantar um “regime comunista” no Brasil.

Leia também:  Lalo Leal Filho: Revelações abalam candidatura de Moro, mas mídia insiste

O latifundiário Goulart que deixou o país, por convicção, para evitar um conflito, iria implantar o Comunismo no Brasil. Ora, ora. Acreditar nisso, naquela época, é o mesmo que hoje acreditar que a Lava Jato combate a corrupção; quando um dos principais corruptos envolvido nas investigações está comandando a derrubada da Chefe de Estado e de Governo do Brasil.

A fé na identidade falsa do Brasil é tamanha, que o herdeiro do império Global justifica, na carta enviada ao jornalista David Miranda, que o golpe contra a Presidência se deve a descoberta pela Laja Jato do “maior esquema de suborno e corrupção na história do país”. Uma história dessas somente é aceita porque a fé na nossa identidade corrupta é muito grande. Uma crença que vai da esquerda à direita, da intelectualidade universitária, à Igreja Católica. Uma fé que todos nós de “classe média bem formada” temos: definitivamente somos um país de corruptos, ou melhor, de governantes e políticos corruptos.

Antes de lermos o livro de Jessé, todos nós acreditávamos, ou ao menos, desconfiávamos ser essa nossa verdadeira identidade. Hoje, estamos perplexos ao perceber as tolices teorizadas pelos descobridores de nosso falso “RG”, uma identidade cheia de vícios que acaba desaguando nesse conceito genérico de corrupção tão empregado hoje. E aí se enquadram desde Freire, passando por Buarque de Holanda, Faoro, Da Mata, entre outros.

Por fim, nos damos conta de que é preciso muita fé na nossa “natureza viciada”, para acreditar que o objetivo da operação Lava a Jato é combater a corrupção (um de nossos males de origem), quando, na verdade, todos dos principais envolvidos, ou ao menos denunciados nominalmente como recebedores de propinas que a operação diz combater, estão sendo os maiores beneficiários da operação. Do Presidente da Câmara Eduardo Cunha; ao Vice Presidente da República Michel Temer até o Presidente do Senado Renan Calheiros – todos do mesmo partido. O partido mais envolvido no “maior esquema de suborno e corrupção na história do país”.

Leia também:  'Se acabarem as fake news, acaba Jair Bolsonaro', diz especialista

E por que isso está acontecendo?

Para impedir o combate a desigualdade extrema.

Por quê?

Para perpetuar a opulência de poucos ao custo da miséria de muitos, ou seja, a maior das corrupções, entendida aqui como desvio de conduta humana.

Por fim, vale a pena insistir. Acreditar que se combate a corrupção derrubando um inocente para premiar um grupo de fortes suspeitos de desvios, tendo a sua frente um evidente corrupto, é uma fé cega no nosso RG fake.

E, por nos revelar a essência da desigualdade que há por trás do aparente combate a corrupção e, a partir disso, podermos nos dar conta de que ao acreditarmos cegamente estar combatendo um problema identidário gravissimo (a corrupção), estamos na verdade perpetuando (a desigualdade extrema) que impossibilita a solução desse problema secular: Jessé é o cara.

E qual é a solução para o problema que Jessé criou ao jogar na lata do lixo nossa identidade? Cabe a nós descobrir. Cabe a nós construirmos uma nova identidade comum, mais condizente com nossa nacionalidade.

* Corrupção “no Estado” não existe, pois, esse tipo de desvio numa República de sistema capitalista pressupõe sempre um ente privado na relação.

Obs.: Não confundir os intelectuais e sua militância política no combate as desigualdades sociais, em especial Raimundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, com os desdobramentos que tiveram a leitura de suas obras.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

11 comentários

  1. Velhos hábitos

    Com o argumento da corrupção, o golpe é operacionalizado pelo judiciário. O Supremo Golpe.

    Nosso judiciário é uma herança viva do império, representante da desigualdade extrema.

    É um poder que atende a quem tem o poder, sempre. Antidemocrático, não é eleito e não tem conexão com o cidadão.

    Contra a corrupção, a aberração do domínio do fato, o início desse processo de expulsão do PT da presidência.

    É uma casta reacionária, agarrada à burocracia e autoprotegida. Um exemplo são as raízes do ministro Gilmar Mendes, fincadas no estado há pelo menos 108 anos (http://pragmatismo.jusbrasil.com.br/artigos/300348314/as-mordomias-os-privilegios-e-o-paternalismo-de-um-judiciario-arrogante). Essa família de juízes passou pela república velha, pelo estado novo, pela democracia 50/ 63, pela ditadura militar, e pela nova república. Ou seja, não leva em consideração nenhuma ideologia, somente o poder. Isso não tem parelelo no executivo e no legislativo.

    O poder garantidor é o que não garante a igualdade, só os privilégios. 

    Nosso grande passo para trás recebe o impulso das togas.

  2. Muito , muito bom. Simples e

    Muito , muito bom. Simples e claro , como o que é bom. Pena que o Senador Cristovão não consiga entender.

  3. Eu conheço muito bem a

    Eu conheço muito bem a “identidade atual” do Brasil: É monárquica e escravocrata. Basta um passeio pelo seu congresso, pelos “palácios da justiça”, pelos prédios dos órgãos públicos mais importantes.

    Prestem atenção na opulência desnecessária, na insistência em se construir espaços “pomposos”, em colocar mármores em lugares que deveriam prezar pela simplicidade. E principalmente prestem atenção na forma como vocês se tratam entre si dependendo da alegada posição social e do cargo. Encontrei muitos desembargadores, secretários e juízes que é fácil imaginar eles usando perucas brancas e trajes cheios de dourados como se usavam nas antigas cortes européias.

    Notem como estes “nobres” se dirigem aos subordinados e em especial note como eles se dirigem para quem possa ser considerado como “pobre”.

    Notem como os seus diretores de grandes empresas, gerentes e outros cargos considerados importantes lidam com os seus empregados, especialmente os empregados lá embaixo na hierarquia. Não é uma relação de ser humano para ser humano como deveria ser em uma democracia, mas de “senhor” para “plebeu”.

    E aviso que todos os outros países que conseguiram passar dessa fase tiveram que quebrar muitos ovos pelo caminho, que o diga os franceses e os americanos. Ovos que vocês brasileiros morrem de medo de quebrar mas que terão que quebrar cedo ou tarde se quiserem evoluir como país.

    • truque da coisa ou como funcionou, a meu ver…

      sinal, mentiras, induções, presença em político safados, inversão de valores morais, etc, da Globo, ocupou primeiramente quase 97% do espaço brasileiro

      e agora estão fazendo de tudo para que o governo de Dilma não neutralize com verdades, educação adequada e assistência social realista, não apenas fantasiosa, como sempre foi antes da chegada dos petistas no governo

  4. já eu penso que tem conexão com o cidadão sim…

    porque dão asas a desgraça social, causam os mais altos prejuízos que já tivemos e, como se não bastasse, apoiam um arremedo de governo democrático que já está declarando que vai nos obrigar, sociedade, a pagar por tudo o que eles mesmos destruiram, no caso do golpe não resultar em quebradeira geral a começar por lá

  5. é o alcance do sinal…

    sinal que não é de governo, menos ainda de combate à miséria, é fantasioso, hipnotizador, é sinal de elite, de tudo uma maravilhas a serem conquistadas com trocas de govenos

    e não sou eu que garanto, quem sou eu? um nada

    quem garante são pesquisas internas não divulgadas, incluindo não só os telespectadores, mas também todos os criadores de programação

  6. E para coroar sua armação, a elite está convencendo os

    os políticos perseguidos e sua presidente, de que é melhor haver nova eleição. Isto é parecido com o que tem feito Moro.  Prende o cara e só alivia se ele se aliar e entregar alguma coisa de útil. De preso o cara passa a colaborador.  Pois agora eu vejo, entre nóss, um bando de colaboradores para amainar o golpe, “para o bem do Brasil”.

    Esta elite é mesmo muito esperta.   Vai usar as mãos dos perseguidos para consumar o golpe e desmobilizar o povo.

  7. jessé seria o mesmo cara

    jessé seria o mesmo cara fundamental para o pensamento brasileiro

    mesmo sem desminstificar especilamente as obras de sergio buarque e faoro…

  8. contato com Jessé de Souza

    prezados, gostaria de ter a oportunidade de ouvir uma palestra do professor Jessé de Souza. Para isso, gostaria de saber como contatá-lo para saber de suas atividades.

    Agradeço

    Alexandre Faccioli

    celular: (11) 98231-8747

    residência: (11) 5572-8760

  9. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome