O apanhador no campo do sentido – Vol.3, por Gustavo Conde

Foto: Jacques Lacan

O apanhador no campo de sentido – Vol. 3

Por Gustavo Conde

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A soberania da língua

Além de linguista respeitado, Saussure foi praticamente um ‘astrólogo’. Ele se interessava por ocultismo e por puzzles sofisticados de linguagem, como os anagramas. Era um obcecado.

Desta inclinação exótica, nasceram os conceitos mais célebres de toda a história dos estudos linguísticos. Saussure trouxe para a cena do comentário técnico e científico um conceito consagrado da astrologia: signo.

Denso e poderoso, este conceito se dividiu em dois, numa virtuosa operação morfológica-sufixal: significante e significado.

Saussure estabelecia ali o que nenhum filósofo conseguiu fazer em três mil anos de história do conhecimento. Ele “desmembrou” o fenômeno ‘palavra’ de maneira conceitual – e não mais das maneiras rústicas e impressionistas com as quais a ‘fatoração lexical’ vinha sendo feita pela linguística clássica e pela filosofia da linguagem.

Uma palavra, na sua inteireza, é um signo. Mas ela tem duas porções distintas: sua forma e seu sentido. Saussure liberta o sentido das amarras do significante que, por sua vez, também é libertado para possibilitar toda uma nova concepção de relações simbólicas mediadas pelo sujeito falante.

Foi esse movimento teórico que possibilitou a existência do estruturalismo. O pai do estruturalismo não é Claude Lévi-Strauss, é Ferdinand de Saussure.

Saussure foi uma espécie de Lula das ciências humanas. Ele tirou “40 milhões” de pesquisadores do limbo metodológico. Ele inaugurou mais de “200 escolas técnicas” de abordagem linguística consistente. Ele descobriu um ‘pré-sal’ de novos e poderosos conceitos, muito mais refinados e com muito mais valor agregado.

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Ele contaminou o mundo da ciência e influenciou toda a produção científica depois de si como nunca nenhum outro antes na história das ciências humanas. Saussure subverteu a lógica social dos rótulos e dos eruditismos, adensando muito mais toda e qualquer abordagem científica, humana e empírica.

O retorno do sujeito: Lacan

Depois de Saussure, tudo mudou. Vieram teorias mais socializantes e teorias mais cognitivistas – cujo expoente é Noam Chomsky que, não por acaso é admirador de Lula e entende como quase o mundo inteiro que tem acesso à informação de qualidade, que sua prisão é política e arbitrária. 

O papel de Saussure para a psicanálise, por exemplo, é descomunal. O que fez Lacan? Releu Freud com lentes saussurianas. Jacques Lacan – poder-se-ia dizer – é Sigmund Freud + Ferdinand de Saussure. Através da originalíssima concepção de linguagem de Saussure e do conjunto denso e empírico das teses de Freud, Lacan pôde formular uma teoria do sujeito calcada na linguagem e não mais nas ‘transcendentalidades’ filosóficas que vigoravam até então.

O psicanalista francês chegou a enunciar: ‘o sujeito está entre um significante e outro’. Ou: o sujeito é um ‘efeito’ da linguagem e não um ‘ente externo’. Essas e outras formulações do psicanalista francês – aqui parafraseadas – só foram possíveis porque Saussure recortou a língua de maneira extremamente técnica.

Ao mesmo tempo em que Lacan explorava esse eficiente e poético modo saussuriano de ver o mundo, outros pensadores e pesquisadores se lançavam vorazmente à teoria saussuriana, até mesmo para superá-la e contestá-la, girando a moenda da produção científica – que só pode ser científica se a possibilidade de refutação estiver vigorando em sua plenitude, caso contrário o volume de formulações e pressuposições técnicas e teóricas seria não mais do que um conjunto de dogmas.

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Aqui, os links do ensaio:

O apanhador no campo do sentido – Vol.1

O apanhador no campo do sentido – Vol.2

O apanhador no campo do sentido – Vol.3

O apanhador no campo do sentido – Vol.4

O apanhador no campo do sentido – Vol.5

O apanhador no campo do sentido – Vol.6

O apanhador no campo do sentido – Vol.7

O apanhador no campo do sentido – Vol.8

O apanhador no campo do sentido – Vol.9

O apanhador no campo do sentido – Vol.10

O apanhador no campo do sentido – Vol.11

O apanhador no campo do sentido – Vol.12

O apanhador no campo do sentido – Vol.13

 

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