O apanhador no campo do sentido – Vol.7, por Gustavo Conde

Foto: o filósofo da linguagem John Austin (à direita)

O apanhador no campo do sentido – Vol.7

Por Gustavo Conde

[Continuação]

Análise do discurso de Lula

A máquina de produzir sentido de Lula é avassaladora. É essa máquina que todos tentam entender e poucos conseguem, atrelados a miragens teóricas do passado. Lula vence o embate dos sentidos, a batalha que a civilização trava desde sempre, mascarada pelos interesses dos maus perdedores que, como no mercado financeiro, ‘estancam’ e ‘represam’ o sentido.

Esse é o primeiro comentário que pode ser feito a respeito do gesto enunciativo de Lula: ele distribui o sentido como quem distribui riqueza, enquanto seus adversários preferem acumular sentidos – como acumulam capital – e montar castelos particulares de marfim, opacos e incomunicáveis.

Por isso, eles perdem. Por isso, eles tiveram que prender Lula: porque não há adversário para ele na arte generosa de compartilhar o sentido e, em função disso, fatalmente vencer as batalhas e as narrativas.

A coerência existencial e moral que Lula ostenta empareda esta cena precária dos eternos coadjuvantes da história e da política. Lula pratica a mesma política gerencial em seu regime internalizado de sentidos e dicções que aquela aplicada à governança pública. Em outras palavras, Lula governa como fala e fala como governa. São gestos siameses.

Nesse sentido, Lula transborda coerência e é exatamente daí que emerge o principal elemento fiador de seu discurso. A coletividade ‘entende’ e ‘codifica’ esse conjunto de ações que caracteriza seu modus operandi simbólico enquanto ser humano – e não apenas enquanto político ou orador.

O jeito de lidar com a coisa pública e com o universo político-partidário é também uma linguagem, plena de todos os recursos e dimensões que uma língua humana é capaz de produzir.

Leia também:  Mobilidade, direito universal, por Gilberto Maringoni

Verbos performativos

‘Falar’ e ‘fazer’ foram, de fato, postos em relação de sinonímia teórica já nos anos 50 pelo filósofo da linguagem britânico John Austin. Em seu livro “Quando Dizer é Fazer”, ele postula uma nova classe de verbos que ilustram essa condição de o discurso ‘criar’ realidades.

O exemplo máximo é o verbo “prometer”. Quando se diz “eu prometo”, não se descreve nenhuma ação, seja ela abstrata ou concreta. É, semanticamente, diferente de se dizer “eu corro” ou “eu sonho”.

Para Austin, quando se diz “eu prometo” se cria uma realidade nova, com a qual, tanto o interlocutor quanto o enunciador terão de lidar dali por diante. É o que ele chama de ‘verbos performativos’.

Somam-se a essa família verbal aqueles verbos produzidos no espaço do direito, como “condenar” e “libertar”. São significados fortemente dependentes das instituições, mas não somente, até porque a própria língua é, em si, uma instituição (sob a qual todos os falantes acordam um compromisso tácito de convivência e cooperação mútua).

Essa inter-relação poderosa que a língua trava com as práticas, sociais, pessoais e/ou institucionais, é que produz densidades de sentido diferenciadas e fortemente persuasivas no corpo social do debate público. Ela produz o que poderíamos chamar de ‘tesão pelo sentido’ e/ou ‘tesão pela existência’.

[Continua]

Aqui, os links do ensaio:

O apanhador no campo do sentido – Vol.1

O apanhador no campo do sentido – Vol.2

O apanhador no campo do sentido – Vol.3

O apanhador no campo do sentido – Vol.4

Leia também:  Lula, Ciro & Marta, por Patrícia Valim

O apanhador no campo do sentido – Vol.5

O apanhador no campo do sentido – Vol.6

O apanhador no campo do sentido – Vol.7

O apanhador no campo do sentido – Vol.8

O apanhador no campo do sentido – Vol.9

O apanhador no campo do sentido – Vol.10

O apanhador no campo do sentido – Vol.11

O apanhador no campo do sentido – Vol.12

O apanhador no campo do sentido – Vol.13

 

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1 comentário

  1. Se o discurso cria realidades…

    A facada do Bolsonaro foi criada pelo seu discurso de violência. A culpa não é do Bispo mas do próprio Bolsonaro.

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