O Comando do Golpe sob os riscos do sucesso próximo, por Sérgio Saraiva

A visão da vitória próxima aguça apetites e desperta interesses conflitantes. O limite inescapável do golpe em andamento está aí.

comando

Por Sérgio Saraiva

Há pelo menos dois anos vivemos no Brasil uma revolta.

Uma parcela da população, branca na sua virtual totalidade e de classe média e acima no seu estrato socioeconômico, foi chamada a derrubar o Governo Dilma. Governo esse democraticamente eleito, mas identificado com o estrato social oposto das classes dominantes. Dominante a ponto de fazer valer o seu poder apesar de minoria.

Como tais arregimentações se dão é algo que Umberto Eco já explicou em seu texto sobre o Ur-Fascismo, mas que não custa recordar:

“o Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório”.

Quem acompanha os movimentos dessa revolta percebe ou intui a existência de um comando e planejamento centralizados.

E que esse comando não buscou centrar as ações em movimentos de massa – ainda que cheirosas. Quem está no comando da conspirata quer apoio popular e demonstração de força. Mas não quer a ação popular que possa sair-lhes fora do controle.

Não é por outro motivo que as “manifestações” são convocadas para domingos. Na segunda-feira todos voltam a trabalhar normalmente.

Leia também:  Nuremberg para a Lava-Jato?, por Rogério Mattos

As ações estiveram sempre direcionadas a instrumentalização de grupos com força, disciplina e comando. O Judiciário, a Polícia Federal e o TSE.  Ainda que estes não necessariamente intencionados ao golpe.

A mídia cuidando da propaganda e pautando os partidos de oposição. E estes atuando em ações de desgaste, o impeachment entre elas, e imobilizando reações do governo na frente da administração pública.

Todos esses agentes facilmente identificados com e pela parcela da população branca na virtual totalidade e de classe média e acima no seu estrato socioeconômico.

A crise mundial é o pano de fundo que completa as condições meteorológicas para a tempestade perfeita.

Os interesses patrocinadores são bastante claros – os interesses do poder do capital. Nacional e internacional.  Os interesses americanos passaram de algum tempo a recender seu odor característico.

Para consumo externo, no entanto, tais interesses estão travestidos de apelo à moralidade através do combate à corrupção. Mas, para concluir que não buscam o combate à corrupção e sim o poder, bastam alguns os rostos públicos da conspirata. Vários deles não resistiriam a uma investigação da mesma Lava Jato. Mas ela não ocorreu para esses.

Pouca vez se viu tanta hipocrisia e desfaçatez.  Nenhuma novidade, o falso moralismo sempre foi refúgio de muitos canalhas.

A partir daqui, há uma questão tão crucial quanto mal resolvida.

Quem acompanha os movimentos dessa revolta percebe ou intui a existência de um comando e planejamento centralizados. Porém, quem compõe esse comando é algo a ser conhecido.

Isso porque comando exige autoridade. E autoridade para poucos, ainda que não para apenas um. Autoridade tem nome e número da carteira de identidade.

Leia também:  “Um regime impopular, antidemocrático e ditatorial”, apoiado pelos EUA, por César Locatelli

Quais?

Pois bem, sejam quais forem os no comando, esse comando mostra-se fraturado.

Nada o demonstra mais do que as duas ações do Ministério Público, federal e paulista, buscando a prisão de Lula, no curto espaço de uma semana.

A primeira, do Ministério Público Federal, revestida de rigor formal, ainda que, pela carência de provas, apoiada na Teoria do Domínio do Fato. Precisou ser desautorizada ao custo da autoridade da Lava Jato. O que está longe de ser pouca coisa. O juiz Moro, que aos poucos vai se demonstrando frágil, acatou a admoestação pública. O MPF reagiu em nota com teor insubmisso.

Agora essa ação do Ministério Público Estadual montada com a intempestividade, descuidos fatais e inconsequência dos primários a quem é dado poder. Essa desmoralizou a si própria.

A tese de perseguição política não poderia ser mais bem evidenciada.

A investida contra Dilma através da delação de Delcídio na revista Istoé foi atropelada no dia seguinte pela Lava Jato prendendo Lula. Na semana seguinte, bombardeada pela Folha de São Paulo e pela Globo que em clara retaliação à Istoé entregam o nome de Aécio.

Isso sem contar com “acidentes imprevisíveis” como encontrar pela frente a Paraty House e a Mossack-Fonseca no caminho da Família Marinho e Miriam Dutra no caminho de FHC.

FHC e o PMDB ensaiam o parlamentarismo de 1961, a militância ameaça partir para o tudo ou nada.

Todos pedem moderação enquanto incentivam o povo branco a ir para as ruas no dia 13 de março de 2016. Muito povo na rua legitimaria as ações daí para frente. Até talvez os excessos. Mas não resolve a questão de quem se apropriará dessa legitimação?

Leia também:  Como o Judiciário reagirá à exposição de sua hipocrisia?, por Luis Nassif

Já que talvez a visão tão próxima do fim do Governo Dilma tenha aguçado apetites individuais que decidiram, cada um por si, ser os primeiros a beber a água limpa da fonte do poder. A qual é reservada somente aos que saem na frente.

Agindo assim, acabariam por destruir a si mesmos.

O poder é sempre de poucos.

A continuidade do governo Dilma passa por isso. Pois, até que se restaure um comando inconteste, a manutenção de um inimigo frágil pode ser mais seguro do que a vitória de um aliado forte. Ao primeiro combatemos, mas o segundo nos submete.

O limite inescapável do golpe em andamento está aí.

Ainda há tempo e condições para isso?

PS: a Oficina de Concertos Gerais e Poesia apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

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8 comentários

  1. O limite de cada um é o seu
    O limite de cada um é o seu bolso.

    Quanto pior estiver a economia (e a condução econômica de Dilma é péssima), mais “golpistas” surgirão.

    Com a situação econômica atual: queda do PIB de 4% em 2015 e 2016, ou seja, no cenário de DEPRESSÃO econômica, qualquer governo, seja ele do PT, PSDB, PX, PW ou PZ, sofreria uma grande oposição da população em geral.

    Essa é a minha opinião. O resto é “jornalismo” a favor e contra. E acho muito pouco relevante para a maior parte da população.

    Acho que deveríamos nos preocupar menos com a forma e mais com o conteúdo.

  2. Vcs tem até…
    Os jogos olímpicos!

    Esta é a data!
    Porque da pretexto para uma intervenção internacional.
    E sim é lógico que é último recurso pois vai que Dilma é igual a JANGO e se dirija para A FAZENDA.

  3. Cada argumento!

     

    Achei desnecessário mencionar população branca e povo branco em 3 parágrafos. Para acentuar o ridículo o autor deveria tambem se referir a “olhos azuis”.  Que besteira! Somos um país mestiço. Claro, há brancos sim; o Turco Nassif, a Mariza Letícia, a Marta Suplicy, a Dilma, o André Araujo e um amigo meu que é afro-brasileiro albino. Há descontentes, sim, porque a coisa está ficando preta.

    • Se não entende, desenho: uma parcela MENOR da população

      De acordo com a PM e aproveitado pela Rede Glolpe, foram 3,8 milhões no país, sendo 1,4 na Paulista. Qualquer pessoa com um ensino fundamental meio aproveitado sabe que nela, bem lotadinha de cabo a rabo, cabem até 500 mil pessoas.

      O Datafolha, de oposição (vale isso, Arnaldo?) , depois de “5 milhões” da Parada Gay, já descobriu que mais que isso é pataquar, pega maal. Se apropriarmos a relação PM/Datafolha (hoje realista) e com a boa vontade de supor a avenida lotada de cabo a rabo (Consolação ao Paraíso), os 3,8milhões murcham para menos de 1,4 milhões.

      Contrapostos a 52 que RE-elegeram Dilma.

      Deu pra entender ou precisa pintar os olhinhos?

  4. sem um pacto político

    sem um pacto político naciomal responsábel e bem costurado, todos pérdem;;;

    a democracia deve ou deveria ter uma maneira de remover esses

    obstáculos e seuis representantes golpístas, 

    esse conluio  que defenestra tudo que tenha a ver com o governo popular…

  5. Bom texto, você está correto, embora o sucesso esteja longe

     

    Sergio Saraiva,

    Sobre o início do seu post com a referência ao entendimento de Umberto Eco sobre o fascismo (Ur-fascismo, ou seja, fascismo primordial, ou como é mais traduzido fascismo eterno), creio que bem vale a pena a leitura do post “As lições de Umberto Eco para identificar o neofascismo” de sábado, 27/02/2016 às 10:04, aqui no blog de Luis Nassif contendo, em uma indicação de Sergio T., um texto de Umberto Eco reproduzido na Revista Samuel e que fora apresentado originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa. O endereço do post “As lições de Umberto Eco para identificar o neofascismo” é:

    http://jornalggn.com.br/noticia/as-licoes-de-umberto-eco-para-identificar-o-neofascismo

    Há um comentário meu junto ao post “As lições de Umberto Eco para identificar o neofascismo” e que eu enviei sábado, 27/02/2016 às 20:42, em que, já no título, eu menciono a importância do post ser mais divulgado e ser motivo de reflexão. Além disso, em meu comentário eu deixo alguns links que ajudam na compreensão da nossa realidade política e suas vinculações com o fascismo.

    Eu particularmente não vinculo muito as manifestações de março, tanto a de ontem como a do ano passado, a um caráter fascista. Há fascismo no grupo que quer a volta dos militares, mas trata-se de grupo menor dentre os manifestantes. No extremo se pode dizer, até utilizando as identificações de Umberto Eco, que há fascismo também em aspectos isolados como a manifestação ser contra os partidos políticos ou ter um substrato nacionalista. No último exemplo, trata-se de um argumento ao extremo porque em um nacionalismo civilizado, em que não se deseja a ruina de outra nação, não há fascismo. Até porque o fascismo é barbárie e, portanto, não pode existir em um nacionalismo civilizado.

    É claro que a ojeriza aos partidos políticos tão presente nessas manifestações é um traço indelével do fascismo, mas aqui eu volto a fazer o papel do advogado do diabo e diria que a ojeriza aos partidos políticos é fruto do desconhecimento (da ignorância sobre a realidade). Idealiza-se a democracia e se esquece que sem partido não há democracia real. Vive-se apenas em abstrações, afastadas da realidade.

    Também é verdade que a ignorância é um traço do fascismo, mas em meu entendimento ao se desenvolver de modo pacífico, salvo manifestações exaltadas de um grupo pequeno, a ignorância, o desconhecimento da realidade política não leva os manifestantes necessariamente para o caminho do fascismo. Eles vão em direção ao fascismo porque lá no fascismo há amparo para uma ideologia que é montada na falta de ideia, mas não são em meu entendimento fascistas.

    O que ocorre é que a falta de conhecimento é fruto de muitos anos de aprendizados. No mundo todo, o ser humano aprende a desconhecer a realidade. E este aprendizado equivocado muitas vezes exige muitos anos de bancos escolares. Veja por exemplo, o Andre Araujo, um dos grandes se não o maior comentarista aqui do blog. Com uma longa experiência de vida, ele intuiu que em qualquer lugar do mundo a corrupção não constituiu, não constitui nem constituirá razão para atrasar o crescimento econômico de um país. Enfim ele conseguiu ficar livre do aprendizado que ele teve durante toda a vida de que a corrupção é um cancro que atravanca o crescimento do país. No entanto, ele não consegue trazer uma viva alma para passar a compartilhar também essa idéia.

    E o que é pior, ele também se deixa levar pelo aprendizado de muita falta de conhecimento. Durante a vida inteira falaram para ele que o Poder Judiciário tem uma força tremenda. Talvez não seja por outra que ele seja formado em Direito. Exímio conhecedor da economia brasileira ele não consegue apontar um momento na história econômica do Brasil em que o Judiciário, salvo na somatória dos gastos públicos do Poder Judiciário, tenha tido uma atitude que representou um aumento ou redução do PIB brasileiro em algo equivalente a 0,5% do PIB. Nada disso demove-o, entretanto, de dizer que é a Operação Lava Jato que está afetando a economia brasileira. Poucos aqui no blog, mesmo que entre economistas, que ele não é, tiveram tanto aprendizado sobre economia monetária, em especial sobre a economia brasileira, como ele. Esse aprendizado, entretanto, é infrutífero para ele perceber que mil Sérgios Moros não conseguiriam fazer na economia em dez anos o que um só Alexandre Tombini pode fazer em um dia.

    Então salvo pela presença dos fascistas verdadeiros, as manifestações de ontem e do ano passado devem ser vistas mais como um movimento pacifista insuflado pela incapacidade que temos de conhecer a realidade em que vivemos, em especial porque aprendemos a entender essa realidade de modo equivocado e incorporamos de modo inamovível esse entendimento.

    Quanto ao final do seu post e que é o título dele, eu reconheço que o Comando do Golpe corre os riscos do sucesso do golpe. Agora é uma possibilidade remota. Não vejo razão para o sucesso do golpe. Tudo conspira contra os golpistas. O problema é que nós custamos a perceber isso. Quase todos os apoiadores da presidenta Dilma Rousseff fazem críticas ao ministro Gilmar Ferreira Mendes na condução da Ação no TSE. Agora imagina se esta ação não existisse. Nesse caso estaria toda a oposição se debruçando sobre o impeachment. No fundo tudo vai ficar para as calendas gregas. Se a economia não se recuperar adeus PT na eleição de 2018. Se, no entanto, os sinais de recuperação econômica, que já vão aparecer no próximo PIB trimestral, estiverem apontando para a direção que eu vislumbro a economia vai recuperar bem antes e o PT volta a ganhar em 2018.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 14/03/2016

  6. Janot, 
    Assistindo um

    Janot, 

    Assistindo um julgamento no STF vi o quanto inalteceu a figura que estava ali na sua frente, fazendo defesa num sei do que, como sendo da sua querida Fundação Milton Campos.

    É a hora da verdade.

     

    http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/lava-jato-rastreia-arquivos-eletronicos-do-instituto-lula/

    O procurador que te representa é da turma formada por lá! Que nem vc. Já vi várias postagens que o mencionavam em matérias. É só buscar.

     

     

     

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