O crepúsculo do Banco Espírito Santo, por Carlos Fino

Jornal GGN – Em artigo publicado no O Globo, o jornalista português Carlos Fino, correspondente da RTP, detalha a crise do Banco Espírito Santo – BES. Ele diz que, no final do mês passado, o presidente executivo da instituição, Ricardo Salgado, foi chamado à uma reunião no Banco de Portugal, na qual foi exigido dele que afastasse todos os membros da família Espiríto Santo da administração do banco, incluido o próprio Salgado.

Carlos Fino compara a família dona do BES com os Rockfeller nos EUA e os Agnelli na Itália, dizendo que eles criaram um império com investimentos em diversos setores. Uma das motivações da forte intervenção do órgão regulador foi uma auditoria realizada em maio, que confirmou irregularidades graves na Espírito Santo International. Carlos Fino diz, ainda, que a intervenção de resgate financeira “duríssima”, junto com uma dívida pública crescente, era tudo que Portugal não precisava.

Enviado por Pedro Penido dos Anjos

Do O Globo

O crepúsculo do Espírito Santo

Carlos Fino

No final do mês passado, apenas quatro dias depois de um bem sucedido aumento de capital, Ricardo Salgado, presidente executivo da maior instituição bancária privada portuguesa, o Banco Espírito Santo – BES, foi chamado ao Banco de Portugal.

No decorrer do que terá sido uma tensa reunião, o Governador da entidade reguladora do setor bancário exigiu de Salgado o afastamento da administração do banco de todo e qualquer membro da família Espírito Santo, incluindo ele próprio.

Conhecido nos meios financeiros pelo petit nom de DDT (acrónimo para Dono de Tudo Isto), Ricardo Espírito Santo Salgado, 70 anos, via assim terminar de forma inglória uma carreia de 22 anos à frente do BES, último representante de várias gerações de banqueiros que tiveram origem modesta quando no final do século XIX, José Maria do Espírito Santo Silva, filho de pais incógnitos, abriu uma pequena lotaria de bairro em Lisboa.

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Equivalentes em Portugal ao que são os Rockfeller nos EUA ou os Agnelli em Itália, os Espírito Santo souberam criar, ao longo dos 144 anos de existência do BES – atravessando várias épocas, muitas convulsões, diferentes regimes políticos e mais de uma revolução – um império tentacular com interesses nos mais diversos setores, a ponto de se dizer por vezes que “em Portugal, o que não é do Estado é do Espírito Santo”.

O que se passou então para que a entidade reguladora – justamente criticada pela sua inação noutros casos de perturbações graves no setor bancário – tenha sido desta vez tão determinada, ousando impor aos Espírito Santo – um dos poucos grupos merecedores do título de “donos de Portugal” – o afastamento dos seus membros da direção direta do seu próprio banco?

Por um lado, o maior escrutínio – quer nacional, quer europeu – a que estão submetidas as instituições bancárias desde a eclosão da crise financeira de 2008; por outro, a gravidade de alguns fatos detectados, ainda que tardiamente, no funcionamento do universo BES.

Já no final do ano passado tinham eclodido dissensões no interior da família, com disputa aberta pela liderança, trazendo para a praça pública – facto inédito numa história mais que secular sempre pautada pela discrição com que se geriam os negócios – a revelação de profundos desentendimentos, fazendo crescer boatos e especulações sobre a saúde financeira do grupo.

Uma auditoria realizada em maio no Luxemburgo a pedido do Banco de Portugal acabou por confirmar existirem irregularidades graves numa das empresas do Grupo Espírito Santo (GES), a Espírito Santo Internacional – ESI, holding que concentra as participações nas áreas financeira e não financeira.

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A auditoria revelou que não foram registrados 1,2 mil milhões de euros de dívidas nas contas de 2012 e que a ‘holding’ tem capitais próprios negativos de 2,5 mil milhões de euros, ou seja, está em falência técnica.

Soube-se depois que tem havido atrasos nos pagamentos de aplicações financeiras a clientes do Banco Privée Espírito Santo, que investiram em papel comercial da ESI.

Em Angola, onde o BES detém 55,7% do capital do BES Angola (BESA), o risco de muitos clientes não pagarem os empréstimos levou já o Estado angolano a prestar uma garantia soberana de 18 meses de cerca de 4.000 milhões de euros. Se for usada, pode significar que o Estado angolano passará a controlar o banco.

Para agravar ainda mais a situação, soube-se ainda que a operadora de telecomunicações Portugal Telecom – PT decidiu ajudar o BES, de que é sócia, comprando 900 milhões de euros de papel comercial à insolvente RioForte (holding não financeira do Grupo Espírito Santo), operação que a brasileira Oi, que está em processo de fusão com a operadora portuguesa, disse desconhecer.

Há ainda uma exposição indireta do BES no montante de 650 milhões de euros através de papel comercial de empresas do grupo vendidas aos clientes de retalho, a que acrescem 1,9 mil milhões de euros colocados em clientes institucionais.

Apesar de tudo isto, o Banco de Portugal tem garantido que “a situação de solvabilidade do BES é sólida” e que foram tomadas medidas “para evitar riscos de contágio ao banco resultantes do ramo não-financeiro do GES”.

A exposição do BES ao Grupo Espírito Santo – explicou o Banco de Portugal – é de 1,18 mil milhões de euros (3,57 bilhões de reais), mas graças aos aumentos de capital ele conta com um colchão financeiro de 2,1 mil milhões de euros (6,35 bilhões de reais).

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No entanto, a questão é complexa, devido às imbrincadas relações, por vezes cruzadas, entre as diferentes empresas do grupo.

Uma pergunta não pode deixar de ser feita: se o ESFG – Espírito Santo Financial Group – tiver problemas e entrar numa situação de incumprimento, quem responde? O BES será ou não chamado a garantir parte desse valor?

Na quarta-feira passada, enquanto as ações do BES caíam a pique, a agência de notação financeira Moody’s cortava o ‘rating’ do ESFG para apenas três níveis acima do incumprimento.

Dada a presença tentacular do Grupo Espírito Santo na economia portuguesa, eventuais problemas de insolvência irão certamente repercutir de forma negativa numa série de empresas, provocando falências em cadeia e levando ao agravamento do desemprego.

Uma coisa é certa – acabado de sair de uma intervenção de resgate financeiro duríssima, ainda a braços com uma dívida pública que não pára de crescer e que vai exigir muitos anos de sacrifícios, esta crise de confiança numa das suas maiores instituições bancárias era tudo o que Portugal não precisava.

Carlos Fino é um jornalista internacional português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, tendo coberto diversos conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. Costuma ser lembrado como “aquele repórter do furo mundial”, por ter sido o primeiro a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na última Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012), onde atualmente reside.

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