O dominó de uma terra arrasada, por Rui Daher

por Rui Daher

Não teria sido tudo uma fenomenal obra de ficção? Foi real a chegada aqui daquelas caravelas portuguesas? Índios e índias estavam mesmo com as partes pudendas cobertas ou fornicavam incessantemente enquanto um padre, uma cruz e um escrevente os enfiavam crenças cristãs?

Depois disso, quando a história do Brasil deixou de correr entre tragédia e farsa? Colonização, navios negreiros, casas-grandes, senzalas, miscigenação, extrativismo. Madeira e ouro que voltavam como móveis e joias para qual nativo Tupi, cachorro ou índio?

E a quem seguimos servindo? Uai, a quem manda. Os meritosos que chegaram à hegemonia. No passado, os bacalhaus, fish & chips e hamburgers. Hoje em dia, eles somados a uma teratologia gastronômica global.

Em raros períodos fomos pátria amada, livre, salve, salve. Nem reconhecidos, econômica e culturalmente, com braço forte. Mãe gentil, sim, sempre. Para quem pode e manda, pernas se abrem do Acre à Paraíba.

Sobrava-nos, então, a promissão. Ao ponto do folclore. A vantagem que o futuro traz é a de ser desconhecido. “Vai que um dia dá”.  

Na letra de nosso hino, única verdade: “gigante pela própria natureza”. Pena que, a exemplo dos espetos de picanha servidos em rodízio, o gigante tem sido lascado, fatiado. O final virá com o arroto estridente do acordo secular de elites virar vômito.

Do “povo heroico”, espero pouco. Valeria o esforço? Sempre o percebi cabisbaixo, seguindo destino que não sabe de onde vem nem o que o determina. Diverte-se com a TV e o celular ao aproximar-se do 1% que manda e para quem trabalha.

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Vivemos alambique de 8,5 milhões de quilômetros quadrados a destilar altos teores de negros, mulatos, brancos, pardos, cafuzos, em confusas misturas de raças, pingando a caça de um Deus que nos dê conforto.

Ateu, agnóstico, temente covarde, pensem lá o que quiserem, lamento a carga que impomos a Ele. Percebo lágrimas correndo de seus olhos com os tantos pedidos que Lhe chegam. Ao contrário do que aqui escrevem ou discursam e aceitam seus prepostos e fiéis, Ele sabe não poder atender a todos. Então, chora copiosamente quando o agradecem. “Por que, se continuam vítimas da miséria, refugiados, populações massacradas, homens, mulheres, crianças, o Bob de Heliópolis, largados em desastres naturais, assassinados pela empáfia autoritária, humilhados na prepotência da meritocracia, ora, por quê”?

Simples: esperam o dia que virá e a vida vai mudar. Como certos bobos, que escrevem para o riso do mérito rentista. Para amainar o sentimento de culpa ao ouvir: “Obrigado, Senhor”. Responde: “Não por isso, só lhes dei esperança”.

Sua carga, no entanto, devemos reconhecer, é bem maior. Também fariseus, reis, conquistadores, políticos, magnatas, advogados de corruptos, juízes beiçudos, mercadores de sentenças, e outros milhões de bem aquinhoados, frequentam os mais variados templos e a Ele pedem, pedem, e mais pedem.

Depois que recebem, agradecem.

Chavão ou não, historicamente provado ou folclore, “Brasil, país do futuro”, ensaio de Stephan Zweig, em 1941, ou “Brasileiro, profissão esperança”, peça teatral do paraibano Paulo Pontes (1940-1976), expressam nossas sina e tragédia.

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Luís Nassif tem publicado neste GGN um xadrez diário para explicar um dos períodos mais infelizes da história do Brasil. Narra o cotidiano que corre em veias brasileiras. Um dia, será livro de História.

Limitado, pego mais leve e menos profundo. Quem está infelicitando o País é um protótipo em cera, replicado por séculos. Começou a ser moldado no ano de 1500 e tomou forma final em 2016: Michel Temer, síntese de uma elite cínica, perdulária, cruel, ignorante, enfeitada, trouxa e frouxa diante dos mais fortes.

O que acontece hoje está menos para xadrez do que para dominó. Entre 2003 e 2013, pensávamos ter moldado um novo boneco. Todos, ricos e pobres, de esquerda ou direita, desenvolvimentistas e neoliberais, sonharam, ou pelo menos desconfiaram – muitos até temeram – que chegara um novo tempo, reconhecido por quem esperávamos um dia nos aplaudindo de pé, a comunidade mundial. Quando voltamos a cães vadios, piramos. Qualquer merda serviria à salvação. Deu no que deu: “mas, de novo”?

Raso meu dominó? Xadrez é mais complexo, reconheço.

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8 comentários

  1. Parabéns, excelente o texto

    Parabéns! Traz uma visão certeira, logicamente um pouco pessimista, da nossa existência enquanto brasileiro.

    • Tá difícil, Arnaldo

      segurar o pessimismo. E olha que a crítica que mais recebo é a de ser otimista, ver tudo com óculos cor-de-rosa. Mas mediocridade irrita mais que tapa na cara. Abraços. Rui

  2. Tudo o que podia ser…

    Ruizão – permita-me, ja que hoje você foi ao âmago – somos tudo isso e podemos ser tudo o que sonharmos também. Ou quase. Ja disse Bandeira “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Ele e todos os visionarios sabiam que éramos isso. Iamos até a metade do caminho e desistiamos. Temos medo? Não queremos, de fato, mudanças? Queremos ser o eterno Pais do Futuro ? De todo o pessimismo que reina neste momento em todos os militantes da esquerda, em toda pessoa com um minimo de bom senso historico e politico, sobra que o enredo não se encerrara em um governo de pantomima, mas que ainda temos, como adolescentes que somos, uma vida inteira para sermos o que ainda não conseguimos ser.

    • No fundo, nós de esquerda,

      nunca perderemos a esperança. Na oposição, ela parece mesmo que se reforça. Talvez, a minha recolta, Maria Luisa, seja mais pela forma de como foi feito do que do ocorrido em si. Estou me achando um babaca. Uma coisa foi perder pela força militar, da violência, das ameaças de tortura e morte. Outra é perder para o pior que existe na sociedade brasileira, representada por Temer, Mendes, Família Marinho, e mais alguns. Somos muito ruins de bola. Quem sabe a juventude seja melhor.

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