O enfrentamento do fascismo cultural, por Ion de Andrade

A extrema direita para combater as iniciativas democratizantes, humanizadoras e solidárias cunhou um termo fácil e um inimigo fantástico: o marxismo cultural

O enfrentamento do fascismo cultural fora de nós e… dentro de nós
Por Ion de Andrade

A extrema direita para combater as iniciativas democratizantes, humanizadoras e solidárias cunhou um termo fácil e um inimigo fantástico: o marxismo cultural. Essa luta contra o marxismo cultural da extrema direita se dá, por exemplo, agora, quando reage ao Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, o que inclui no escopo do dito “marxismo cultural” misteriosamente o próprio cristianismo oficial.

Vale observar, aliás, que apesar do muito tempo que a extrema direita perde atrás do fantasma do marxismo cultural, que o marxismo nunca teve grande penetração no Brasil, nem sequer nas universidades, nos sindicatos ou nos partidos progressistas onde continua sendo efetivamente compreendido por muito poucos. Seria surpreendente imaginar que uma filosofia tão fragilmente implantada no país pudesse possuir uma tão vasta e sofisticada área de influência…

De fato, a limitada, mas inegável, evolução humanizadora e democratizante vivida pela sociedade brasileira ao longo do século XX se deveu provavelmente muito mais às lutas populares inspiradas por um sentido cristão de dignidade que mostrou-se  irrenunciável, um valor muito mais capaz de produzir os consensos necessários a essa evolução, do que as concepções inspiradas do socialismo científico que sempre foram minoritárias, mesmo no campo progressista…

Acrescente-se que mesmo assim, no seio do nosso povo tão desamparado e desalentado pelas condições de vida miseráveis que sempre teve, esse fenômeno político, inspirado desse conceito difuso de dignidade cristã, foi fraco em magnitude, se comparado à magnitude da miséria ou a dos sofrimentos.  Foi sempre coisa de minorias e sua vitória se fez através de uma espécie de erosão secular do autoritarismo, fenômeno que foi capaz de fazer a diferença numa sociedade que evoluiu em cem anos do “Menino Morto” de Portinari para o Sistema Único de Saúde sem ter conhecido nenhuma revolução clássica…

A extrema direita, em oposição a tudo isso, que denomina de marxismo cultural, representando uma espécie de neopaganismo assentado na teologia da prosperidade, sob a moita de uma religiosidade dinheirista, demonstra que o seu combate ao dito marxismo cultural é na verdade um combate essencialmente ao que o cristianismo produziu como evolução no Brasil em decorrência de um sentido de dignidade por parte do povo que o pôs em movimento, muitas vezes a partir do abandono em que se achava e sem ajuda de ninguém. Se moveram amparados, tantas e tantas vezes, apenas nessa noção de ser gente como nos mostram emblematicamente Canudos ou tantos outros episódios da história das lutas do nosso povo. O próprio PT, aliás, fundado nos anos 1980 teve mais dessa tradição cristã progressista do que de marxismo.

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A Igreja que cuide da defesa da biografia da Irmã Dulce, com seu amor pelos pobres e desvalidos, de não vir a ser atacada pela intelligentsia bolsonarista que tentará encontrar por certo a marca de algum leninismo, confirmado por sua canonização justamente pelo Papa vermelho… eis o fascismo cultural na sua dimensão política, permeado de auto verdades que não carecem mais da velha exigência da comprovação para o trivial ato condenatório. A mentira e a falácia como base para a intolerância e para o retrocesso do povo à miséria material e intelectual de suas origens.

Por outro lado, no campo democrático, a defesa da diversidade e dos direitos nos cegou diante de posições autoritárias e nefastas para o convívio social e para a democracia.

Aceitamos que pessoas de confissão neopentecostal se arvorem, na nossa cara, a classificar o que é e o que não é “de Deus”, com o propósito de demonizar outras religiões, principalmente as de matriz africana.

Aceita-se que a polícia só reviste pobres e não brancos; que as pessoas sejam destratadas nos serviços públicos, incluindo hospitais, que populações inteiras não sejam consultadas sobre matérias vitais para elas, incluindo despejos e remoções, que vejamos crianças pedindo esmolas e fora das escolas sem que o Poder Público tome qualquer iniciativa, que as populações de rua não tenham onde evacuar ou onde obter água potável e higiene pessoal, que os nordestinos sejam tratados com discriminação no Sudeste, que as empregadas continuem sendo obrigadas a subir pelo elevador de carga e a comer, mesmo em muitos lares de esquerda, na cozinha, dentre outras mazelas que compõem o fascismo cultural entranhado no Estado brasileiro como doença maligna desde sempre e… em nós. É a dimensão éticomoral desse fascismo cultural.

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Ações como a dos estudantes do colégio Pedro II que expulsaram deputados da extrema direita da escola em tema relacionado ao homicídio de Marielle Franco, mostram que na capilaridade podemos e devemos disparar uma luta geral e em todos os cenários (inclusive o da nossa vida interior) contra esse fascismo cultural que nos corrói e não nos dá estatura política, ética ou moral para seguir adiante.

É preciso que entendamos de uma vez que a volta da democracia plena ao Brasil não poderá ser a restauração daquela sociedade hipócrita onde só quem se deu bem realmente foi a classe média, que passou a poder viajar todo ano, a poupar e a investir, enquanto o povo via seu poder de compra crescer lentamente num país, porém, que continuou a matar negros, a tratar empregadas domésticas como cidadãs de segunda classe, a prender inocentes sem julgar em prisões dantescas, a abandonar as periferias ao Deus dará e onde finalmente um golpe de Estado derrubou (mais uma vez) um governo democraticamente eleito.

Nossa indignação transformadora agora, se quisermos ter alguma chance de nos tornar a força eticamente superior que devemos ser se quisermos vencer, deverá ser capaz de ao mesmo tempo que estaremos dando um basta ao fascismo que vemos com nossos olhos, como fizeram os garotos e garotas do Dom Pedro II,  voltar também o bisel do escultor para altivamente remover o fascismo que está dentro de nós mesmos e que nos permitiu e ainda nos permite tolerar e aceitar e talvez nos acumpliciar do intolerável.

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A luta cultural é parte da luta política. Não percamos tempo. Vamos a ela!

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