O outro Eduardo, por Maria Cristina Fernandes

Do Valor

O outro Eduardo

Por Maria Cristina Fernandes

Dilma Rousseff era ministra da Casa Civil quando o prefeito do Rio, Eduardo Paes, a levou para as obras dos piscinões na Praça da Bandeira, entroncamento na zona norte da cidade. Num esforço para comovê­-la, mostrou o desastre que seria se chovesse durante Copa e Olimpíada e as obras não estivessem prontas. O papo carioca arrancou da futura presidente R$ 350 milhões para a obra. “Acontece que no mês de julho não chove nunca”, arrematou o prefeito.

Eram oito horas da manhã e Paes pontificava como a estrela de um café com empresários em São Paulo. A história despertou a plateia, que desatou a rir. Num país debaixo de um arrocho sem fim, eis que aparecia ali uma liderança capaz de contar em público como levar a principal mandatária da República na lábia para tocar obras e entregá-­las no prazo. E o faz, até agora, ileso, a despeito de ser filiado ao PMDB do Rio, que tem três de suas principais lideranças (Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão e Eduardo Cunha) na fila dos vaticínios da Lava-­Jato.

Depois de 65 anos, o Rio voltou a ser a capital. É a sede da estatal que afundou o PT e da única vitrine do país em 2016. É a cidade que antecipou os rumos do PT. Quando o partido ainda não tinha medo de ser feliz, já negociava com os vendilhões do Rio. Foi a maior cidade em que o PT, pela primeira vez em sua história, desistiu de lançar candidato à prefeitura em 2012 e ficar na vice do PMDB. Por isso tudo, é de lá que o partido mais agressivo do pedaço pode tirar seu candidato à Presidência da República. 

Paes é um papel que ainda está barato no mercado eleitoral porque precisa fazer sucessor e uma boa Olimpíada antes de partir para unificar o partido. Vendeu­-se àquela plateia de possíveis compradores sem disfarçar seus atritos no mercado, a começar pela maior das empreiteiras.

Depois de passar um atestado de inidoneidade à Odebrecht, que só não faz no Brasil aeroportos como o de Miami porque o governo não presta, o anfitrião do encontro provocou o prefeito sobre o Galeão. “Eles [a Odebrecht] me dizem que vão entregar no prazo. É o que consta”, disse Paes, num tom muito menos entusiasmado do que o dirigido a concorrente quando, mais adiante comentou a Lava­-Jato. “A gente tem que mostrar que se fizer a coisa com transparência não dá escândalo. Não tem só Paulo Roberto [Costa] nesse meio. Vou fazer a defesa da capacidade de engenharia da Queiroz Galvão “, disse o prefeito sobre a construtora que teve dois ex­-dirigentes entre os cativos de Sergio Moro.

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Paes terá no seu portifólio um evento, ao contrário da Copa do Mundo, para chamar de seu. Arrisca­-se a concentrar o ônus, mas quem o ouve falar tende a acreditar que só haverá bônus. Para cada real de obra de Olimpíada apresenta cinco em melhorias da cidade.

Vangloria­-se de obras olímpicas com menos dinheiro público e mais privado que as de Londres, desde que neste último se incluam os empréstimos subsidiados do BNDES, de cujo gigantismo sua gestão foi uma das mais beneficiadas.

Faz a defesa de obras que, transplantadas para São Paulo, são debitadas na conta da impopularidade do prefeito Fernando Haddad, como a expansão das ciclovias e a derrubada da perimetral, o minhocão carioca.

Mas se Paes não se deixa confundir com petistas, também não se faz passar por tucano. Um empresário que teve o filho ferido a facadas na Lagoa Rodrigo de Freitas pergunta se é possível viver no Rio. Era a deixa para pegar carona no discurso da redução da maioridade, mas o prefeito não embarca na canoa de seu correligionário Eduardo Cunha.

Não está preocupado com a segurança da Olimpíada. Baixam Exército, Força Nacional e não acontece nada. Depois que vão embora é que, na expressão do prefeito, o pau come de novo. Por um lado, rejeita o gasto social como saída única e cita os acusados do último assassinato na Lagoa como filhos de famílias com Minha Casa Minha Vida e Bolsa Família. Por outro, vê cortina de fumaça no endurecimento penal. Quer resolver com mais polícia, desde que não precise dar arma para guarda municipal.

Aparece, finalmente, quem o indague sobre a candidatura à Presidência da República. Diz que, se negar, ninguém vai acreditar. O mais natural seria a candidatura ao governo do Rio, mas para isso teria que ter começado a arregimentar os prefeitos do Rio. Ao fim do governo, vai tomar o mesmo rumo dos governantes de sua geração que optam por uma entressafra em que possam fazer articulações, sem assédio, matriculando-­se em alguma universidade estrangeira.

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É bem possível que Paes seja sincero quando fala do governo do Rio como caminho natural do qual parece apartado contra sua vontade. O PMDB do Rio tem três sócios, o presidente da legenda no Estado, Jorge Picciani, o secretário estadual de governo, Paulo Melo, e o ex­governador Sérgio Cabral. Paes não é cria de nenhum deles, mas do ex­-prefeito e atual vereador Cesar Maia, de quem é hoje adversário. O partido cumpre o terceiro mandato no governo do Estado e não pretende largá-­lo. Se sobreviver à Lava-­Jato, Cabral é candidato a voltar ao Palácio da Guanabara.

Uma candidatura de Paes à Presidência, no entanto, não decorre apenas das disputas paroquiais de seu partido. No momento, serve ao discurso pemedebista de se apartar do PT, entoado até por lideranças que não estão fechadas com o nome do prefeito para 2018, como Eduardo Cunha.

É cedo para prever o divórcio do PT, mas são claros os sinais de aproximação com o PSDB. Tanto de Paes e Renan Calheiros com José Serra, quanto de Eduardo Cunha com Geraldo Alckmin, e de Michel Temer com todos eles. Não é por cochilar no impeachment que Aécio Neves se arrisca a perder o bonde da história mas pela dianteira que seus adversários tucanos tomaram em direção ao PMDB.

Para entrar no jogo, Paes ainda tem que fazer o sucessor, o chefe de sua Casa Civil, Pedro Paulo Teixeira. Levou para seu governo e para sua base na Câmara Municipal quase todos os partidos que o ameaçam, inclusive os aliados dos caciques pemedebistas que hoje já parecem pacificados em torno de seu escolhido.

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Quase tão difícil quanto unificar as alas do PMDB é controlar o temperamento arrebatado já conhecido na noite do Rio. No dia em que encontrou empresários foi indagado sobre a ameaça que vem pela esquerda, com a aproximação entre o PSOL de Marcelo Freixo e o PT. De mudança para o Rio, Tarso Genro pode acabar lhe prestando um favor em livrá­l-o do PT, mas Paes não perdeu o hábito: “É a aliança de dois derrotados”.

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24 comentários

    • Para a Globo,  periferia é

      Para a Globo,  periferia é traficante e, coxinhas sào “jovens da classe média”,  a diferença começa na linguagem, na verbalização, o helicoptero que estava rodando por ai com meia tonelada de cocaina não era de traficante e sim de um senador, nessas horas todo o cuidado com as palavras é pouco:

       

      .G1 divide o universo dos apanhados com drogas. Por que jovens de classe média flagrados com 300 quilos de maconha não são considerados traficantes?
       Uma imagem divulgada no Facebook pela página JornalismoB retrata como a mídia tradicional reforça, cotidianamente, preconceitos e estereótipos através de suas abordagens pouco honestas.

      Para o portal G1, site de notícias da Rede Globo, um grupo preso com 300 quilos de maconha no bairro da tijuca, Rio de Janeiro, no último dia 27, merece ser chamado de ‘jovens de classe média’. Uma semana antes, o mesmo portal identificou como ‘traficante’ um homem preso em um bairro periférico da cidade Fortaleza-CE com 10 quilos de maconha.

      Na lógica do referido veículo de comunicação, portar 300 quilos de maconha não configura tráfico de drogas – ao menos no título da notícia – desde que você seja branco, rico ou de classe média. Foi assim que o caso do helicóptero dos Perrella, de Minas Gerais, flagrado com 450 quilos de pasta base de cocaína sumiu do noticiário e nunca foi encarado com a seriedade necessária.

       

      Durante o incidente do Rio de Janeiro foram também apreendidos com os traficantes duas pistolas e quatro carregadores, mas a informação foi omitida da chamada da matéria e só é possível lê-la dentro do conteúdo. No caso de Fortaleza, por sua vez, o portal destacou que o traficante preso portava uma pistola 380.

      Ao se deparar com as distintas abordagens do G1, a historiadora Conceição Oliveira questionou, em seu blog, o senso de justiça e de moralidade seletivos dos ‘defensores dos bons costumes’. “[a expressão] bandido bom é bandido morto vale pra ‘jovens de classe média carioca com 300 kg de maconha ou a pena de morte é apenas para o bandido pobre e possivelmente negro que carrega 30 vezes menos a quantidade de maconha que os ‘jovens de classe média’?”

      Como disse a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em texto publicado no The New York Times, o Brasil ainda vive um processo de negação que é reforçado pelos grandes veículos de imprensa. E assim continuaremos enquanto minimizarmos os preconceitos e isentarmos de responsabilidade uma mídia que, até em pequenos detalhes, dissemina segregação.

      Os artigos citados estào linkados aqui

      http://www.netcina.com.br/2015/03/g1-ve-diferencas-entre-apanhados-com.html

       

  1. Se ele não tiver o mesmo

    Se ele não tiver o mesmo telhado de vidro do Aécio, provavelmente não tem,  e for verdade que é bom de fazer obras, pode ser uma boa opção ao País. Melhor que Alckmin não é tão dificil assim de ser. De repente até o PT pode apoiá-lo. Após dois governos Dilma ficará bem dificil para o PT apresentar candidato.

     

    • Você vive no Rio de Janeiro?

      Você vive no Rio de Janeiro? Não posso acreditar que você esteja dizendo uma sandice como a que acabou de dizer vivendo no Rio de Janeiro. O Paes é a maior maria-vai-com-as-outras do mundo. Na época do mensalão esteve à frente da tropa de choque anti-Lula e, anos depois, após perceber que não tinha como ir contra o Lula, acabou beijando sua mão. Apenas saiu do PSDB porque, realmente, como alguém comentou aqui, este partido simplesmente não existe no RJ. Quanto a tocar obras…espere as Olimpíadas. O Rio de Janeiro está abandonado pela PMDB há muitos anos, seja na área de segurança pública, seja na educação e na saúde. E mesmo com os enormes recursos recebidos da exploração de petróleo. Grande parte da culpa é de Paes e Sérgio Cabral, além de Cunha, Picciani e outras barangas mais. Isto não é um partido…é um….. (não posso dizer. Se o estado do RJ tivesse um mínimo de dignidade chutava esta corja daqui ontem.  

      • O que tem a ver aonde eu vivo

        O que tem a ver aonde eu vivo ?

        Qual a lógica do seu argumento ? A grande maioria da população do Rio o elegeu e ai ?

        Eu entendo um pouco de política, isso sim.

        Ele não é “maria vai com as outras” ele é um político e faz política, da mesma forma que FHC, Lula e os mais antigos, JK e Vargas também poderiam ser referidos desta forma que voce usou.

        Se voce não gosta dele apresente então opções.

  2. Esse é Carioca mesmo. O cara

    Esse é Carioca mesmo. O cara é isperto! Passado o Tudo pela Copa! vivemos agora o Tudo pelas Olimpíadas! A crer no que divulgam o Rio será a melhor cidade da galáxia. Para as obras que estão sendo realizadas na cidade criou o solgan “Legado da Prefeitura”. Porra! Que legado ? Afinal todos pagamos por tudo que está sendo feito. Quer dizer que se a cidade não é sede de um evento a cidade não tem obras de melhorias? Qual a função de uma prefeitura? Quando foi “inaugurado” (entre aspas porque na verdade não sabe se está pronto ou não) o piscinão da Praça da Bandeira indagaram sobre o reuso da quantidade de água ali depositada sua senhoria, em tom áspero, respondeu que “não era a hora de se falar em reuso porque sua preocupação era acabar com as centenárias enchentes que assolam o lugar mas que somente o gênio teve o plano perfeito”. O que mostra não só a isperteza mas a falta, como sempre, de planejamento mesmo.  Bom, o posar de bom mocinho encontra na imprensa do Rio (adivinha quantos jornais existem no Rio?) deve render frutos futuros para o de sempre. Ah! e não fume perto de sua senhoria. Não é porque ele não gosta de cigarro, não. É que pode voar um cinzeiro na sua direção.

  3. A mídia tenta o associar ao
    A mídia tenta o associar ao PSDB mas este partido não existe no Rio de Janeiro. Chance zero!
    Um governante acima dá média.

    O PT, partido Paulista, sempre sabotou o PT do Rio. Agora não tem o que fazer neste estado. Não tem qualquer perspectiva, nem distante de candidatos.

    Agora é Paes ou Paes.

    A piada sobre Dilma, era só piada. A obra citada era uma das mais necessárias.
    Sem a obra, não precisa chover muito para parar à cidade.

  4. Malandro é malandro, mané é

    Malandro é malandro, mané é mané.

    Esse esperto foi um dos politicos que mais detonou o PT na época do mensalão, e mesmo assim obteve o apoio do PT/Lula para sua candidatura à prefeitura do RJ.

    Depois não entendem porque todo mundo passa a mão na bunda do PT.

    O PT é um otário que se acha esperto.

  5. Como assim “É a sede da

    Como assim “É a sede da estatal que afundou o PT “?

     

    FOI O PT QUEM AFUNDOU A ESTATAL E NÃO O CONTRÁRIO!!!!

    O texto deve ter sido escrito por uma paulista, certamente com saudades dos anos FHC em que Brasília fora capturada por São Paulo e só saída dinheiro de lá para esse Estado….

  6. Texto confuso esse da

    Texto confuso esse da jornalista, é mais balão de ensaio que matéria jornalistica. De todo modo Paes se candidatando à presidência é bem pouco provável. Ele é figura local, não tem projeção nacional.

  7. Duas faces

    Eh, o PMDB esta, como diriamos, com a faca e o queijo nas mãos. Daqui até o fim do governo de Dilma contam pular do barco (isso sem o golpe do impeachment) petista para o tucano. Pode até ser que esses dois partidos se deem muito bem juntos e levem a eleição presidencial (Ai, Geraldo!), mas como se diz, em politica, neste momento o céu pode estar nublado, mas daqui a pouco, quem sabera?! 

    E vamos colocar as coisas em seu devido lugar: a imprensa e o judiciario estão destruindo o PT, que esta se tornado a peste, que todos querem se afastar. O PT vai ter que arrigementar muita gente e tomar atitudes mais firmes para lutar contra as insidias que estão corroendo o partido pouco a pouco. 

  8. Parei de ler quando veio o

    Parei de ler quando veio o “papo carioca”. Mais um jornalista de fora (seria SP?) tentando tirar casquinha e remoer a inveja freudiana que tem do Rio, mesmo o Rio sendo a merda que é atualmente. Análise, e não torcida contra, é o que faz o jornalismo de verdade.

     

    • Não é ideologia.
      paulistas

      Não é ideologia.

      paulistas querem porque querem impedir a ida do PMDB do Rio para o Governo federal.

      Porque…se não é de SP, deve ser safado.

  9. Paes, Mais um prefeito voltado para o Porto da cidade

    Mais uma vez a cidade “moderniza-se” tendo o Porto como área privilegiada. Pensar-se na cidade como um todo e se resolver os problemas desse balneário circundado por favelas, muito pouco. Contudo, algo chama pouco  a atenção e deve ser revelado. Trata-se da falta de uma estratégia de envolvimento da juventude da periferia nas Olimpíadas. Absolutamente nada foi feito para trazer esta criançada “maiorizada penalmente” para o mundo olímpico. E que oportunidade estamos perdendo… Para as crianças das escolas públicas, das vilas olímpicas da cidade, das favelas “pacificadas” (este termo me faz tremer, pois me faz lembrar de Caxias, o pacificador) o reflexo da Olimpíada é algo que ninguém vê. Poderíamos ter construído pequenas quadras e colocado estagiários de educação física em muitas ccomunidades abrindo a estas crianças o desejo de se tornar um “herói grego”, – e esta é só uma das muitas ideias que poderiam ter sido imaginadas- mas infelizmente ninguém da prefeitura desta “linda” cidade, nem o prefeito, pensou nisso. Imperdoável…

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