O papel do jornalismo na polêmica da xenofobia ideológica

Por Carlos Castilho

Do Observatório da Imprensa

Um debate sobre o ódio ideológico nas redes sociais recentemente realizado numa dependência da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul foi interrompido por um grupo de manifestantes porque o evento, do qual participavam vários jornalistas, foi promovido pela deputada estadual Manuela D’Ávila, do PC do B.

A suspensão do debate marcou o grande paradoxo da situação que estamos vivendo: o radicalismo e a xenofobia impediram a discussão sobre as causas e consequências da radicalização ideológica que tomou conta das redes sociais na internet e ameaça contaminar toda a sociedade.

As redes sociais são hoje a principal arena da batalha ideológica no Brasil, mas o problema não está na internet, ao contrário do que deixam transparecer muitos órgãos da imprensa e diversos formadores de opinião. A internet é apenas a plataforma na qual se expressam as tendências políticas e a xenofobia ideológica. O problema está nas pessoas, e não na plataforma por onde circulam as mensagens.

Jornais, revistas e telejornais jogam a responsabilidade sobre a internet tentando não assumir um papel proativo na questão que envolve toda a sociedade, pois as consequências de uma radicalização política serão sentidas por todos. As páginas noticiosas online adotam a tradicional atitude de “olhar para o outro lado”, tentando não se meter numa polêmica que envolve os seus usuários.

O problema é grave porque envolve questões conjunturais e estruturais. A margem de tolerância ideológica que caracterizou a politica nacional e a cobertura da imprensa entre 2002 e 2013 ( períodos Lula e primeiro governo Dilma) acabou em 2014 por conta da possibilidade de o Partido dos Trabalhadores ganhar a eleição presidencial de 2018, na mais longa dinastia partidária desde a redemocratização do país.

A conjuntura política criada pelo temor de um continuísmo do PT sacudiu a estrutura ideológica do país onde as diferenças sociais e políticas continuam tão profundas quanto a desigualdade econômica. O ambiente de tolerância evaporou-se quando o segmento conservador da sociedade brasileira se deu conta que o populismo reformista de Lula poderia entranhar-se na estrutura governamental do país.

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A partir daí criaram-se as condições para que o discurso do ódio e da xenofobia ganhasse corpo tanto num lado como no outro do espectro político-ideológico. A imprensa acabou refém desta polarização. Ora participa dela apoiando um lado, ora lamenta, mas não examina as causas e consequências. Os poucos jornais e jornalistas que decidem tocar no problema acabam pagando o preço da radicalização. Começamos a reviver parcialmente o clima prévio e posterior ao golpe de 1964.

O ódio nas redes sociais é protagonizado por segmentos sociais que integram a mesma audiência de veículos como a televisão e o público leitor da imprensa escrita. A xenofobia aparece nas redes sociais porque o ambiente virtual facilita a manifestação do discurso do ódio ideológico. Mas a causa do fenômeno não está na internet, que é apenas um facilitador. Levado ao pé da letra, o problema poderia reviver a metáfora da eliminação do mensageiro para acabar com as más notícias.

As consequências também não serão restritas ao terreno cibernético. Todos nós acabaremos pagando a conta da radicalização, por meio de um eventual novo retrocesso na busca de uma justiça social no país. A imprensa e os jornalistas precisam tomar consciência de que o avanço da radicalização leva ao agravamento do impasse ideológico que, por sua vez, tende a gerar situações extremas, em que o jornalismo quase sempre é uma das primeiras vitimas. Não importa qual q plataforma em que ele é exercido, online ou offline.

Já foi assim em 1964, no Brasil. Acabou se repetindo na versão oposta, na Venezuela. A sobrevivência do que chamamos de jornalismo depende de que os profissionais assumam hoje o seu papel de patrulheiro (watchdog) da preservação de tolerância como condição essencial para a sobrevivência da profissão.

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O episódio do debate em Porto Alegre mostrou que uma eventual tomada de posição de jornais e de jornalistas pode acabar sendo associada a um dos lados envolvidos na polarização ideológica. Este é o risco histórico de uma profissão que, aqui e no resto do mundo, sempre teve que enfrentar opções pouco confortáveis.

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8 comentários

  1. “A imprensa acabou refém

    “A imprensa acabou refém desta polarização.”

    Que ela, a imprensa e sua falta de neutralidade, contribui todos os dias para que essa polarização se acentue. Esconder ou proteger os maiores criminosos – que boa parte “daquela classe” e até intelectuais não percebem – ao tempo em que ataca os escolhidos para pagarem o pato, é causa maior dos tempos que estamos vivendo. São desinformados. Ignoram como se dão as coisas. E, àqueles encarregados de ensinar, muitos deles também não percebem. O acirramento se dá entre os que percebem e os que não percebem. Eu também não percebia nada. E hoje percebo um pouco. E não posso desfazer o que disse e ajudei a construir. Em comum temos a ansia por justiça e o fim da impunidade. Ou seja, dependemos da justiça. E quanto a isso tambem há consenso. Só não existe quanto a forma. Uns querem que as regras valham para todos, doa a quem doer. Outros, querem que a justiça se comporte tal qual a grande mídia que até condecora os seus para que a punição recaia sobre àqueles que ela, a grande mídia, com grande destaque já deu. Nem precisam ter o trabalho de coletar provas. Basta dar o veredicto para seus adversários. E para seus protegidos, anulação de processos ou prescrições. Além da desinformação temos o rancor. Hoje disseminados com um livro de capa preta – outra quase unânimidade – na outra mão. O sucesso do negócio depende dessa raiva toda.

     

     

  2. Se fala tanto dessa

    Se fala tanto dessa interrupção no evento da Manuela, mas por aqui não se fala no evento na faculdade de Direito da USP interrompido pelos professores (sindicalistas) só porque falaram que o Alckmin ia estar por lá…

  3. Alguns tópicos que merecem de

    Alguns tópicos que merecem de minha parte destaque:

    O problema está nas pessoas, e não na plataforma por onde circulam as mensagens.

    Óbvio que “o problema” estará sempre nas pessoas. Entretanto, que no se refere a mídia internet as condições e singularidades desta tem um peso expressivo para a forma das manifestações de seus frequentadores. 

    Assisti há dias um reportagem na TV(não lembro do canal nem do nome do programa) na qual se buscava localizar e entrevistar autores de mensagens raivosas e ofensivas nas redes sociais. Lembro bem de dois(ambos do interior de São Paulo): nada a ver, mas nada a ver mesmo, com o estereótipo traçado pelo imaginário das pessoas: uma senhora já com seus quarenta anos, de aparência totalmente inofensiva, voz serena e que ao final se declara arrependida pelo que fez. O outro, um cidadão com as mesmíssimas características e a mesmas palavras  nos reposicionamentos. 

    Também é claro que a partir daí se possa concluir alguma coisa. Faz-se necessário uma amostragem maior. Não obstante, quem não conhece, tem a seu redor(até parentes) que diante de um teclado passa de Jekyll para Hide?

    A margem de tolerância ideológica que caracterizou a politica nacional e a cobertura da imprensa entre 2002 e 2013 ( períodos Lula e primeiro governo Dilma) acabou em 2014 por conta da possibilidade de o Partido dos Trabalhadores ganhar a eleição presidencial de 2018, na mais longa dinastia partidária desde a redemocratização do país.

    Não foi bem assim, a meu ver. Nunca existiu margem de tolerância por parte da mídia tradicional e de seus asseclas desde que o PT assumiu o Poder em 2003. Em menor ou maior escala, ela – imprensa – sempre vou muito além do seu papel de inquisidora do Poder. Chegou ao ponto de perder a já pequena equidistância na disputa partidária e, claramente, se perfilou ao lado de uma tendência. Só não conseguiu desestabilizar os três governos(Lula-Lula-Dilma) face ao amplo e expressivo apoio popular dos mesmos. A catarse que emerge após 2013 muito foi incentivada, sejamos justos, pelo acúmulo de erros e equívocos do governo que forneceram o combustível que antes não havia. 

    Essa alegativa de temor da frente oposicionista pela possibilidade de Lula retornar a meu ver é forçada. Há um nítido cansaço por parte da população não com o modelo em si implementado a partir de 2003, mas com seu ensimesmamento, sua autossuficiência, o que faz com que seus erros se tornem mais visíveis nas dimensões políticas e econômicas. 

    Já foi assim em 1964

    Não, não foi assim em 1964. Traçar paralelos históricos só para preencher vazios de argumentação, não é lá muito honesto. Temos duas conjunturas totalmente diferente. Isso em TODOS os sentidos. 

     

     

     

    • Assino em baixo, JB Costa, o

      Assino em baixo, JB Costa, o texto está cheio de “jabutis”.

       

      Um que não dá para disfarçar é: “A conjuntura política criada pelo temor de um continuísmo do PT sacudiu a estrutura ideológica do país onde as diferenças sociais e políticas continuam tão profundas quanto a desigualdade econômica.”

      O temor dos conservadores não é pelo continuísmo do PT, é pelo continuísmo de políticas sociais efetivas, sejam elas promovidas pelo partido que for. E basta uma consulta breve a qualquer indicador social para constatar que efetivamente tanto as diferenças sociais e políticas quanto as desigualdades econômicas foram diminuídas pelo PT, como teriam sido por qualquer outro partido atento e voltado para o social.

       

      Outro “jabuti”, que se segue a esse primeiro, também gritante na minha opinião, é o que diz que o “ambiente de tolerância evaporou-se quando o segmento conservador da sociedade brasileira se deu conta que o populismo reformista de Lula poderia entranhar-se na estrutura governamental do país.”

      Nunca houve essa evaporação porque o segmento conservador simplesmente nunca tolerou Lula. E rejeitou-o desde o começo menos pela sua extrema habilidade de comunicação com as massas do que pelas medidas que efetivamente tomou para a diminuição das desigualdades políticas e econômicas.

       

      Por fim, no parágrafo que se inicia com “O episódio do debate em Porto Alegre mostrou que uma eventual tomada de posição de jornais e de jornalistas pode acabar sendo associada a um dos lados envolvidos na polarização ideológica.”…

      Jornais e jornalistas já assumiram posições absolutamente associadas, totalmente afins com a radicalização ideológica. Ou até mais que isso, jornais e jornalistas são os responsáveis pela disseminação do radicalismo xenófobo-ideológico que se viu expresso na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.

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