A “questão ideológica” de Bolsonaro, por Sergio da Motta e Albuquerque

Por Sergio da Motta e Albuquerque

No dia 22 de novembro de 2018, o presidente eleito Jair Bolsonaro publicou uma mensagem no Twitter, onde apareceu mais uma referência um governo “não-ideológico”. E ao “fim das indicações políticas”. Mais duas promessas impossíveis do ex-capitão. Que ainda anunciou desconhecimento do que significa ideologia. Em português sofrível. A BBC Brasil (22/11) publicou matéria sobre o assunto. Concentrada no erro grosseiro de concordância verbal na mensagem do presidente eleito, e na apresentação de alguns conceitos complexos de ideologia.

A intenção da reportagem foi investigar (com certa ironia), a dúbia possibilidade de uma administração não-ideológica. As definições de ideologia foram apresentadas de forma um tanto obscura. Não há um conceito operacional do termo, mas uma série confusa de explicações e pontos de vista desordenados.

Por ideologia, em uma esfera bem abstrata e de forma provisória, podemos entender qualquer narrativa ou discurso pragmático de salvação, melhoria ou progresso de grupos ou sociedades. Este é apenas um entre muitos conceitos para o termo ‘ideologia’. Não é fácil explicar ou entender o que vem a ser ideologia. Há muitas definições – quase todas elas razoavelmente corretas ou complementares umas às outras – sobre o assunto. Para explicarmos melhor o que vem a ser ideologia, vamos estreitar um pouco o nível de abstração do termo. Aqui trataremos apenas da definição de ideologia política – a mais apropriada para comentarmos a nova a missão do ex-capitão, agora presidente do Brasil: governar sem ideologia. Será isso possível, como interrogou a BBC? O que vem a ser ideologia política, afinal?

John Levi Martin, da Universidade de Chicago (2015), na última linha escrita de seu artigo explicou que as ideologias políticas são “os recursos que os atores sociais têm para guiar sua ação política”. Foi a melhor e mais concisa definição que encontrei. Todos os atos de governo estão contaminados por ideologia, de acordo com a explicação do autor ianque. São feitos dela. Governar é tentar pôr em ação uma ideologia. O grande erro do ex-capitão foi esquecer que o liberalismo (e seu filho delinquente, o neoliberalismo) – assim como todas as proposições políticas que existem – são ideologias. São discursos e métodos de atuação que existem com a função de viabilizarem determinados resultados políticos.

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Prometer governar sem ideologia é mais uma ideologia. O presidente da República, por sua função, está comprometido com determinados os valores e crenças de seu partido ou coligação, e elas orientam suas tentativas de concretizar as promessas feitas em campanhas eleitorais. Todo presidente de qualquer país, de qualquer república, parlamentarista ou presidencialista, de direita, centro ou esquerda, é um político. Afirmar isso é uma redundância necessária. Pois o presidente encarna e defende no dia a dia em todo seu mandato a ideologia de seu governo – através dos meios que dispõe (ou pensa dispor), para tentar concretizar aquilo que prometeu.

A visão do presidente de “ideologia” limita-se ao que ele pensa entender do pensamento social e político da esquerda – toda ela adjetivada por ele como “comunista”, ou “socialista”. Por ideologia ele entende qualquer discurso ou ação da esquerda. Por isso a obsessão com o “comunismo”, por parte dele, e de seus eleitores. “Ideologia”, entre eles, é identificada com o programa político da esquerda. Melhor dizendo, com a ação dos partidos da esquerda. Este tipo de compreensão não é apenas equivocado. É uma tentativa canhestra e obtusa de desqualificar toda a ação e os resultados concretos alcançados por outro governo.

O novo presidente do Brasil tentou comunicar, na realidade, o que todos já sabem: ele vai governar sem a esquerda. Falhou no português e no conteúdo da mensagem. Foram dois enganos comuns cometidos por muitos. Mesmo assim, primários. Um deles tem solução:  má gramática pode ser corrigida. O outro, nunca. Um governo sem ideologia é uma impossibilidade lógica determinada pela realidade concreta.

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O mais preocupante não são as bobagens e irrelevâncias que Bolsonaro propõe. O problema maior é que elas revelam seu distanciamento – e de seus ministros – das exigências da vida política real e da necessidade urgente de recuperação da economia neste país.

 

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