O recado das urnas e o erro dos analistas políticos, por William Nozaki

 
O recado das urnas e o erro dos analistas políticos
 
por William Nozaki
 
A sociedade brasileira está fraturada, (i) mas não no sentido clássico de “direita x “esquerda”; (ii) nem com o nível de polarização radical que se sugere; (iii) tampouco isso pode ser considerado a crise do lulismo. Vejamos cada um desses pontos.
 
(i) O golpe fracassou em construir uma agenda para a sociedade e a ampla maioria dos candidatos à presidência não tem um projeto de país. 
 
Entretanto, a população brasileira tem um projeto de nação, que envolve a defesa da igualdade de oportunidades, o combate aos privilégios e um Estado que garanta educação, saúde, assistência e segurança. Trata-se inegavelmente da reivindicação majoritária por um programa liberal clássico, smithiano. Onde alguns analistas políticos ouvem Roosevelt, a maioria da população talvez esteja dizendo Marshall.

 
Na contramão desse processo restam aqueles que convictamente defendem um projeto conservador no campo político-econômico e na esfera da moral e dos costumes. Fazem barulho, mas são minoria.
 
Nesse momento, talvez o dístico liberais e conservadores nos seja mais útil do que o par esquerda e direita para compreender para onde está se deslocando a luta de classes nesse processo eleitoral.
 
(ii) Se organizarmos a leitura das pesquisas eleitorais pelos termos acima sugeridos, o programa demandado pela sociedade, perceberemos que a amplíssima maioria dos eleitores deseja um projeto de sociedade com mais liberdades e igualdades e menos privilégios e vantagens indevidas. Quando Guilherme Boulos (PSOL) é interrogado sobre o que é o soilcialismo, quando Manuela D’Ávila (PCdoB) é questionada sobre o que é o comunismo, quando Ciro Gomes (PDT) é perguntado sobre o que é seu desenvolvimentismo e quando Lula é questionado sobre o seu “trabalhismo” todas as respostas passam por um mesmo ponto: a igualdade de oportunidades. Uma agenda, a propósito, que também tem a adesão de uma parcela dos eventuais eleitores de Marina Silva (Rede) e de Joaquim Barbosa (PSB), por isso esses candidatos tem tido melhor desempenho nas pesquisas.
 
A sociedade não-organizada enxerga mais as proximidades entre essas figuras do que as diferenças, na direção oposta do que desejam os partidos e militantes organizados.
 
Nesse sentido, a polarização social não pode ser lida como um mecânico “fifty-fifty”, há uma hegemonia da defesa da igualdade de oportunidades contra uma minoria que defende a naturalização da desigualdade e o silenciamento das diferenças. Por isso o processo eleitoral deve ser tratado com muita responsabilidade pelas forças progressistas. 
 
(iii) Esse cenário, em última instância, é resultado das transformações sociais provocadas pelos próprios governos do PT. A população não aceita perder certos direitos e políticas públicas que asseguraram algum nível de meritocracia e que combateram algum nível de privilégios. A população não aceita mais o bloqueio de certos direitos civis e liberdades individuais. E por ter tido sua subjetividade construída nessa cultura política é que agora essas pessoas não se manifestam nas ruas, mas nas urnas. 
 
Foi assim que o lulismo ensinou e nesse sentido o lulismo venceu, ele é hegemônico na sociedade brasileira. Resta saber se as lideranças partidárias do campo progressista terão paciência, frieza e discernimento para não perderem esse ativo eleitoral incomparável.
 
Não é democrático lutar contra o desejo da maioria. Fingir não enxergar o problema, não vai fazer o problema desaparecer: ou as forças progressistas passam a destacar mais suas convergências do que suas divergências ou o que sobra da democracia brasileira terminará de ruir.
 

9 comentários

  1. essa tentativa de emplacar o

    essa tentativa de emplacar o ciro é ridícula e extremamemente prejudicial, é um dano muito maior do que supõem os sabichões no PT.. Manuela não é nada, terminou de enterrar o PC do B e o Boulos é um desperdício de liderança popular nas mãos de um partido que não é sério.. enfim..

    .. no final, com todo o poder gigantesco, produzido como reação ao golpe, tudo o que terão será um traque..

    .. o papel das lideranças dentro do PT tem sido o de transformar uma bomba semiótica num traque..

    .. é isso que eles vão colher nas urnas..

    .. o mato tá nas alturas, mas falta gente séria prá capinar..

      • Obsessão de Quem Mesmo?

        Vai ver porque Ciro é obcecado por Lula, que dá as cartas na campanha, desistir de ser candidato já, para que Ciro possa se auto-derrotar pela terceira vez, enquanto o PT e Lula, só para lhe agradar, junto e acompanhado de Wanderley e PHA, cometam o haraquiri político alertado por Zé Dirceu.

        • Bonnerização

          O texto é sobre o Ciro? Não seja abilolado! O texto fala de todas as forças progressistas e vocês petistas xiitas vem com Ciro. Assim como o 247 e DCM que dedicaram ao Ciro ataques cerrados nas últimas semanas, vocês estão obcecados com Ciro. Acho muita obssessão com um “ ninguém” com meros 5%. Vocês estão com síndrome de William Bonner. E por último, nas últimas semanas o Ciro só fala do Lula quando perguntado, e tem sido bastante elegante e cuidadoso, mas vocês só pensam em Ciro, Ciro e Ciro. Lula de fato dá as cartas, mas está desperdiçando a mão e todo o débil poker democrático que nos resta.

    • Convergência
      William fala de convergência programática do campo progressista, justamente aglutinar forças e manter o acumulado lulista. Jamais falou em emplacar Ciro.

  2. “não é democrático lutar contra o desejo da maioria”

    Esta é uma das várias amostras de análise a partir de grupo fechado em si mesmo. Internamente, e provavelmente o maior intelectual do PT, lança “O lulismo em Crise”, André Singer (não é um aproveitador da onda em baixar o pau, pois, André vem de muito tempo escrevendo sobre isto, dando entrevistas, sem deixar de ver méritos, mas… ). Maiorias pode ser forjadas como numa Alemanha de entre guerras. Encantadas. Maioria. Podem servir também a currais eleitorais que precisam de ajuda, sim.

  3. A fratura existe entre os
    A fratura existe entre os eternos ladrões de todos os partidos e a população que trabalha pra manter esse pais funcionando.

  4. Que diferença faz mudar o

    Que diferença faz mudar o nome da dicotomia esquerda-liberal-socialista-semteto x direita-conservadora-nobiliárquica-proprietária?

    O Lulismo não fez nada mais do que o Karl Marx já tinha explicado sobre a redução da desigualdade. O Marx avançou explicando melhor a dicotomia esquerda-direita, e tomamos posse dos termos da revolução francesa, fazendo uso melhor dos termos e sabendo a lógica da coisa.

    Foi uma década de ouro essa do Lulismo, sim. Quem critica na esquerda é porque queria melhor ainda. Seu mérito foi ensinar na prática que dá para fazer algumas coisas, em um país em que estão instalados com orgulhos mafiosos quatrocentões do PMDB a DEM, há 518 anos, unidos na defesa das suas terras griladas e empresas amarradas nos esquemas do poder público desde o tempo da colônia e dos amigos dos reis.

    E no final dessa ótima década saiu todo mundo preso pela velha guarda jurídica dos quatrocentões, apesar dos méritos. O Marx morreu pobre, mas solto, e nesse ponto fez mais que Lula e Dirceu. O que nem Marx nem Lula sabem é como fazer isso sem ser preso, ou sem apresentar resultado prático, nem terminar perseguido com a velharia no poder. Essa deve ser a próxima descoberta da esquerda-liberal-progressista-igualitária-LulaláBoulosCiroManuela. Vamos deixar de picuinha com o irmão gêmeo que resolveu pintar o cabelo e nem por isso virou outra família.

  5. Evidências?

    O problema desse texto é se basear em uma premissa para a qual não há nenhuma evidência: que a doutrina “lulista” é a ideologia majoritária na população brasileira. Primeiro que é difícil dizer o que seria tal doutrina: Lula 1? Lula 2? Dilma 1? Dilma 2? O grande público aprova a agenda de costumes do PT, que avançou muito pouco no seu governo devido à resistência do Legislativo? Será que a liderança do Lula nas pesquisas é uma aprovação integral do lulismo ou é uma consequência de um recall decorrente de políticas específicas como o Bolsa Família, os investimentos no sertão nordestino e até mesmo o real valorizado em 2010?

    Eu acho que o eleitor brasileiro é muito mais complexo do que isso, e esse texto, ao criticar com alguma razão determinadas análises políticas, acaba cometendo o mesmo erro – se não for pior …

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome