Os pitos e conselhos do Dr. Pessoa a nós ignorantes, por Gilberto Maringoni

NOSSO ARTICULISTA DOMINICAL não se cansa. Começa um assunto, não argumenta muito e, como num filme de super-heróis, corta a cena e passa a outro perigo iminente

Os pitos e conselhos do Dr. Pessoa a nós ignorantes

por Gilberto Maringoni

O professor Samuel Pessoa, da FGV-SP, é colunista dominical da Folha de S. Paulo. De seu torreão fortificado, costuma disparar a torto e a direito contra formulações que lhe pareçam heréticas, como o desenvolvimentismo, o papel do Estado na economia e tudo aquilo que se mova na contestação do ultraliberalismo da moda.

Em seu artigo deste domingo (23), ele faz fulgurante defesa de Eugênio Gudin, economista carioca e pai de todos os neoliberais brasileiros. Gudin é responsável pela criação do primeiro curso de Economia em nosso país (1938), integrou a delegação brasileira à Conferência de Bretton Woods (1944) e foi ministro da fazenda de Café Filho (1954-55), quando quase leva a economia nacional à breca, com sua furibunda dinâmica de cortes de gastos. Em seu currículo desponta o entusiasmado apoio ao golpe de 1964. Um ponto deve ser ressaltado: Gudin foi o introdutor dos trabalhos de lorde Keynes em nosso país.

QUASE PAREI A LEITURA DA COLUNA logo no início, no trecho em que Samuel Pessoa afirma ser o velho liberal “um homem cujo primeiro quartel de vida transcorreu no século 19”. Gudin nasceu em 1886 e morreu em 1986. De cem anos, passou 14 nos oitocentos. Ler um economista que não sabe diferenciar um quarto de um sétimo já me deixa com os quatro pés atrás.

Mais adiante, o professor afirma: “No texto “O caso das Nações Subdesenvolvidas”, de 1952, Gudin argumenta que seria difícil nos desenvolvermos. Não tínhamos petróleo e carvão, nossa topografia é desfavorável para transportes, e os nossos rios são de difícil navegação”. Faltou Pessoa contar que isso é teoria já contestada à época por keynesianos e desenvolvimentistas. A teoria das vantagens comparativas, de Ricardo, então com 130 anos de idade, já era matéria vencida no pós-Guerra. Se esta valesse como tábuas da lei, nenhum país da periferia poderia ter se industrializado e mudado sua inserção internacional e casos como os do Brasil (1930-80), Coreia do Sul (pós 1970) e China seriam inexplicáveis. Gudin mostrava-se anacrônico no auge de sua vida intelectual.

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SIGAMOS: “ALÉM DO MAIS, SOFRÍAMOS de atraso educacional e faltava-nos boas tecnologias para agricultura de clima tropical. Talvez Alexandre [colunista do Intercept, contestado por Pessoa] não saiba, mas Gudin acabou por incentivar a Embrapa”. Ué… Gudin escreveu aquilo em 1952; a Embrapa é de 1970. Nesse último ano, ele ainda não havia rompido com o projeto econômico da ditadura – o que faz em setembro de 1974, num discurso na Firjan em que denunciava o “estatismo” do regime – mas é pouco provável que defendesse a criação de mais um órgão estatal. Samuel não cita dados ou fontes, mas joga um verde para ver se cola.

À frente: “A historiografia sobre a economia brasileira no século 19 mostra que o elevado custo de transporte foi um dos fatores a explicar nosso atraso naquele século, relativamente à economia americana”. Qual transporte? Das regiões produtoras de café – sublinhe-se, de café! – para os portos, ou desses para os mercados consumidores? Se forem esses últimos, as frotas mercantes eram em sua maioria britânicas, nas quais tínhamos pouco poder de interferência. O “atraso naquele século” é formulação vaga. O principal entrave para o desenvolvimento era outro. Era a manutenção da chaga da escravidão. Além de seu caráter monstruoso, ela era obstáculo à criação de um mercado interno amplo e dinâmico. Mesmo se entrarmos na lógica pessoana, ela não explica um dado objetivo: após 1870, o Brasil tornou-se o principal produtor mundial de café, com capacidade de impor os preços internacionais do produto.

SEGUE O INTRÉPIDO PROFESSOR: “Para Gudin, não estávamos condenados ao subdesenvolvimento, mas sua superação seria difícil e requereria muito trabalho e poupança”. Não sei como são as aulas do professor da FGV, mas Gudin, como todo liberal, via o desenvolvimento como uma questão de poupança (investimento) e não de demanda (ampliação do mercado interno). Samuel compra o peixe e o passa adiante com a leveza de um hipopótamo, achando que ninguém vai notar. Fantástico!

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Vamos lá: “No texto “Programação e Planejamento Econômico”, de 1956, Gudin insiste na importância da educação. Já tratara do tema em sua palestra “Educação e Riqueza”, de dezembro de 1936.”. Conheço os textos. Gudin não vai além do senso comum conservador. Quem associava educação à produtividade, com políticas de investimento no setor, era justamente o maior opositor intelectual do velho economista, Roberto Simonsen, na célebre controvérsia sobre o desenvolvimento, travada no interior do governo Vargas, entre 1944-45. Nessa polêmica, aliás, Gudin coloca-se contra qualquer política industrializante, argumentando que o Estado não deveria investir dinheiro dos impostos em empreendimentos ineficientes. Deveríamos nos voltar para a agricultura, vocação histórica do país.

NOSSO ARTICULISTA DOMINICAL não se cansa. Começa um assunto, não argumenta muito e, como num filme de super-heróis, corta a cena e passa a outro perigo iminente: “Diferentemente da tradição estruturalista –que enxergava o subdesenvolvimento como ligado ao padrão de especialização produtiva da economia e a mecanismos de exploração conduzidos pelas economias centrais–, para Gudin, a superação do subdesenvolvimento dependia de boas escolas e boas instituições. O desenvolvimento industrial, e dos demais setores, seria consequência”. Tudo bem, doutor Samuel, há a especialização produtiva. Mas o centro da análise estruturalista cepalina da época – com a qual Gudin polemiza – está na relação centro-periferia e na visão do subdesenvolvimento como expressão do capitalismo maduro e não como uma etapa do desenvolvimento linear dos países. Para a existência do desenvolvimento no centro, é necessário existir subdesenvolvimento na periferia nas condições da atual divisão internacional do trabalho.

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Como todo aquele que deseja aparecer, o dr. Samuel Pessoa é dono de arrogância seminal e escreve no tom de quem dá conselhos ao gentio, que não percebeu ainda a força de sua luz. Samuel gosta disso.

O importante, contudo, é retirar o debate político e econômico de suas falsas e sacrossantas bases – não é coisa de hacker! – e fazê-lo trombar com a realidade de um país que enfrenta mais de três décadas de um intermitente ajuste fiscal que – reza a lenda – nos conduzirá ao pote de ouro no fim do arco-íris.

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