Por uma esquerda mais ampla e moderna. O desafio de sair da bolha e voltar a governar

Em entrevista à IHU On-Line, Tatiana Roque comenta a atuação das esquerdas na política brasileira

Tatiana Roque | Foto: Mídia Ninja

do Instituto Humanitas Unisinos – IHU On-Line

Por uma esquerda mais ampla e moderna. O desafio de sair da bolha e voltar a governar. Entrevista especial com Tatiana Roque

por Ricardo Machado 

A “união das esquerdas” precisa romper a barreira do discurso, mas para ir além das palavras de ordem “é preciso que as diferentes forças de esquerda se abram mais para a construção de agendas comuns”, diz Tatiana Roque à IHU On-Line, ao comentar a atuação das esquerdas na política brasileira. Na avaliação dela, a atual conjuntura de enfrentamento às propostas da extrema direita demanda uma “esquerda mais ampla e moderna”, mas o que se vê é “um desencontro imenso sobre os caminhos a seguir para renovar a esquerda”, constata. Enquanto isso, lamenta, “a direita está conquistando corações e mentes com um discurso antissistema, anti-establishment político. Claro que não é verdade que Bolsonaro seja um outsider, mas conseguiu se vender como tal e conquistou muita gente por isso”.

No processo de renovação pelo qual a esquerda precisa passar, defende, “precisamos de projetos mais antenados com os tempos atuais; tenho dito isso frequentemente, sobretudo em relação à nova configuração do trabalho”. Com a renovação de pautas, acredita, “surgirão novas lideranças”. E acrescenta: “Precisamos que sejam lideranças orgânicas: novos trabalhadores precarizados e informais, mulheres chefes de família, evangélicos progressistas, negros e negras que sofrem com a ação policial nas favelas; tudo isso em conjunto com os novos estudantes das universidades e institutos federais, além de pessoas que trabalham na cultura e com a agenda ecológica. Essas são as forças que vejo como essenciais à reinvenção da esquerda”.

Tatiana Roque é graduada em Matemática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestra em Matemática Aplicada e doutora na área de História e Filosofia das Ciências pela mesma universidade. É professora do Instituto de Matemática da UFRJ e da Pós-graduação em Filosofia do IFCS/UFRJ, onde coordena um grupo de estudos sobre as reconfigurações do trabalho no mundo contemporâneo. Foi presidente do Sindicato Docente da UFRJ – ADUFRJ. Tatiana lançou recentemente seu canal no YouTube onde fala e entrevistas pessoas sobre temas ligados à educação, política, ciência e filosofia.

Confira a entrevista

IHU On-Line – Olhando para a esquerda do Brasil, que fraturas ficam evidentes?

Tatiana Roque – Fica evidente que ainda não conseguimos absorver as sucessivas derrotas desde o golpe de 2016. A fratura mais evidente, hoje, está posta entre a necessidade urgente de resistir aos retrocessos e o desafio de voltar a governar. Evidente que está em curso um ataque aos direitos sociais. Isso é gravíssimo, pois pode reverter conquistas importantes dos últimos anos, como é o caso da educação, especialmente com a expansão e democratização da rede federal. É preciso resistir contra tudo isso. Mas, na minha opinião, a esquerda não pode abandonar a perspectiva de vencer eleições para o Executivo. Isso demandará alianças mais amplas, para as quais são necessárias conversas que ainda não estou vendo acontecerem. Fala-se muito de “união das esquerdas”, o que vemos em curso nas ações de resistência. Contudo, para ir além da palavra de ordem, é preciso que as diferentes forças de esquerda se abram mais para a construção de agendas comuns, o que seria essencial para se ter uma ação mais propositiva.

A esquerda não pode abandonar a perspectiva de vencer eleições para o Executivo – Tatiana Roque

IHU On-Line – Em entrevista ao El País, a senhora comenta sobre a necessidade de superar a cultura da lacração. No que consiste essa cultura?

Tatiana Roque – Lacração é um termo que vem sendo usado para designar uma atitude nas redes sociais, em que a pessoa se posiciona de modo enfático, para marcar posição. Essa atitude gera muitos likes, bem mais do que posições mais sóbrias e refletidas. Depois de minha entrevista, houve um mal-entendido, como se eu estivesse criticando os movimentos ditos “identitários”. Não estava pensando nesses movimentos de modo algum. Acho que a esquerda institucional, incluindo lideranças partidárias, vem atuando de forma identitária, precisando se demarcar o tempo todo da extrema direita, em cada posicionamento. Ora, me parece óbvio que somos contrários às posições da extrema direita. Além disso, como nas redes sociais falamos para a bolha, não vejo sentido em posicionamentos tão demarcatórios o tempo todo. Seria mais útil, no meu entender, produzir estratégias para sair da bolha, divulgando propostas concretas, além de dialogar entre diferentes campos dentro da esquerda. Isso não será obtido com marcações de posição. E sim com mais diálogo e propostas.

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IHU On-Line – Em quais esquinas a esquerda que pede Lula Livre se encontra com a esquerda que pede justiça ao assassinato de Marielle Franco? Em quais esquinas se distanciam?

Tatiana Roque – Acho que são duas pautas essenciais, justas e urgentes. Porém bastante distintas. A prisão de Lula foi parte do golpe, que desde 2016 atua com nítida intenção de tirar o PT do poder. O assassinato de Marielle decorre de um problema mais antigo e crônico no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Diz respeito ao envolvimento espúrio entre milícias e poder político, que se tornou quase uma definição — trágica e infeliz — da cidade. Marielle Franco, juntamente com Marcelo Freixo e o PSOL do RJ, sempre tiveram uma atuação corajosa e incisiva de combate a essa situação. No Rio, nem sempre tiveram apoio do PT para isso. Logo, é compreensível que quem está na luta por justiça no caso Marielle se incomode com a identificação dessa pauta ao Lula Livre. Isso não quer dizer que não achem justa também a luta pela liberdade de Lula. Em geral, acho que a esquerda tem a ganhar em atuar mais a partir de pautas específicas. Pode ser, inclusive, uma ótima estratégia para sair da bolha.

É compreensível que quem está na luta por justiça no caso Marielle se incomode com a identificação dessa pauta ao Lula Livre – Tatiana Roque

IHU On-Line – De que modo tais manifestações também demonstram um recorte étnico, de gênero, de classe e de idade?

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Tatiana Roque – As manifestações logo após a morte de Marielle tiveram uma participação impressionante de jovens de favelas e periferias, algo mais raro de se ver nas manifestações tradicionais da esquerda. Mas isso foi logo no início, com a comoção generalizada provocada pelo assassinato brutal de uma liderança tão brilhante e promissora.

IHU On-Line – É possível, ou mesmo necessário, reinventar a esquerda brasileira? Em que sentido?

Tatiana Roque – Acho urgente. Precisamos de uma esquerda mais ampla e moderna para fazer face aos tempos atuais de ascensão da extrema direita. Mas há um desencontro imenso sobre os caminhos a seguir para renovar a esquerda. A direita está conquistando corações e mentes com um discurso antissistema, anti-establishment político. Claro que não é verdade que Bolsonaro seja um outsider, mas conseguiu se vender como tal e conquistou muita gente por isso.

Parte da esquerda acha, então, que deve ir pelo mesmo caminho, que seria o momento de radicalizar. Acho essa análise de conjuntura equivocada. É completamente diferente ter uma proposta anti-establishment de direita e uma de esquerda. Por mais “anti” que queira parecer, a direita é, por definição, garantidora da ordem. No caso atual, defende valores conservadores e se alia à ordem econômica ultraliberal. A esquerda, também por definição, tem propostas que subvertem essa ordem. Defende valores mais libertários — feminismo, direitos LGBTIs, pautas antirracistas — e propostas econômicas transformadoras, na direção da diminuição das desigualdades e da concentração de renda. Essas pautas representam, por si só, uma ameaça à ordem vigente. Como achar que a mesma disposição para radicalizar pela direita pode ser aproveitada pela esquerda? Acho impossível. Isso só vai agravar o problema. A esquerda deve mostrar que tem propostas factíveis, que são melhores porque podem construir uma sociedade mais solidária e igualitária. Isso se tornará visível na prática, conquistando governos locais e repercutindo suas políticas. Foi a parte do que deu certo nos governos conquistados pelo PT entre sua fundação e a chegada ao governo federal.

Junho foi, antes de tudo, um movimento por mais democracia e mais direitos sociais, especialmente melhores serviços públicos – Tatiana Roque

IHU On-Line – Como Junho de 2013 continua ainda, pelo menos para parte da esquerda, incompreensível?

Tatiana Roque – Junho foi, antes de tudo, um movimento por mais democracia e mais direitos sociais, especialmente melhores serviços públicos. Não era contra o PT inicialmente.

Depois de uma fase em que se abriu para as reivindicações de junho, formou-se um consenso no PT que diz: as condições econômicas estavam boas, o salário mínimo estava valorizado, o desemprego baixo, logo aquelas pessoas não tinham motivo para sair às ruas; se saíram é porque foram instrumentalizadas.

Discordo totalmente do princípio de que as pessoas saem às ruas quando estão em condições ruins. Acho exatamente o oposto: quando têm mais acesso a direitos e estão em melhor situação econômica, as pessoas querem mais — e podem querer mais, pois ficam empoderadas. Em junho de 2013, as pessoas estavam em boa situação por causa das políticas dos sucessivos governos do PT. Só que queriam mais. O mais trágico foi o PT não reconhecer o produto de suas próprias políticas, passando a fazer caricatura dos manifestantes.

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Claro que junho de 2013 foi diferente em cada cidade. Falo muito a partir de onde vivi todos os protestos, no Rio de Janeiro. As pautas aqui eram claramente de esquerda, tenho um texto com a Mariana Patrício falando disso em detalhes.

A direita foi hábil em capturar uma estética antissistema. Isso era difícil mesmo para a esquerda, porque a esquerda estava no governo – Tatiana Roque

IHU On-Line – O desencontro da esquerda parece ser também um desencontro entre tempos. Uma mais ligada à figura do líder, outra mais flexível privilegiando certas pautas. Em que ponto a convergência é potente politicamente para o Brasil?

Tatiana Roque – Precisamos de projetos mais antenados com os tempos atuais; tenho dito isso frequentemente, sobretudo em relação à nova configuração do trabalho. A partir daí, surgirão novas lideranças. Precisamos que sejam lideranças orgânicas: novos trabalhadores precarizados e informais, mulheres chefes de família, evangélicos progressistas, negros e negras que sofrem com a ação policial nas favelas; tudo isso em conjunto com os novos estudantes das universidades e institutos federais, além de pessoas que trabalham na cultura e com a agenda ecológica. Essas são as forças que vejo como essenciais à reinvenção da esquerda.

IHU On-Line – Uma questão importante é a que remete às pessoas empobrecidas que ficam fora de ambos os espectros da esquerda e que formam o imenso caldo cultural que legitima governos autoritários e conservadores (o Rio é rico de exemplos: Crivella, Witzel etc.). Como sensibilizar esses corações e mentes?

Tatiana Roque – É exatamente o que disse na resposta anterior. É um desafio para a esquerda o fato de a direita estar ganhando com o apoio de faixas da população que devem estar na base da esquerda. No caso, a faixa de pessoas que têm renda familiar entre 2 e 5 salários mínimos e que hoje votam na direita. Como trazer essas pessoas? Acho que esse é um desafio urgente.

IHU On-Line – Em que sentido a direita foi mais hábil em compreender as estéticas produzidas por Junho de 2013?

Tatiana Roque – A direita foi hábil em capturar uma estética antissistema. Isso era difícil mesmo para a esquerda, porque a esquerda estava no governo, mas havia um caminho de aprofundamento da democracia e de melhorias nos serviços públicos de transporte, educação e saúde. Se tivesse ido por aí, a esquerda poderia ter respondido e mantido o apoio de parte daquela população indignada. O desafio continua sendo esse, aliás.

Edição: Patricia Fachin

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2 comentários

  1. Visão da esquerda carioca, assim como o PT tem grupos que representam as esquerdas regionalmente e que marcam seu discurso sem visão sistêmica, ainda que a entrevistada cite, a meu ver de maneira confusa, temas gerais e grupos sociais para representar a generalização que pretende ver na proposta unificadora do campo progressista.
    Sobre 2013: A visão romantizada e desconectada com o que houve depois e até agora – onde está aquela “população” até hoje desconhecida sociologicamente? (não conheço estudos que descrevam quem e por que participaram daquelas manifestações de 2013 – se houver, tornem público neste GGN, por favor, que é o único meio de comunicação que julgo confiável na dita “mídia progressista” – de modo que se possa falar com segurança o que representavam; o que há são apenas impressões geosocioeconomica e politicamente marcadas, mas ainda que se reconheça isso, como faz a entrevistada, 2013 é o ano que não terminou do Golpe de 2016 porque todo mundo toma a parte que conhece, simpatiza ou antipatiza pelo todo que desconhece e generaliza para puxar a sardinha para o seu espeto; cabe aos defensores dos incendiários de 2013 (sou de SP e não gostei do que vi aqui) sustentar sua posição com mais dados históricos e factuais, como, por exemplo, explicar o desaparecimento daqueles manifestantes depois do Golpe-2016 e a cooptação feita dos feitos dos “bem intencionados” de esquerda pela extrema-direita que explodiu e se tornou corrente política que com gente eleita depois daquele período (por que MBL e assemelhados viraram força política e os “indignados” não?; mas enquanto pessoas perspicazes não se debruçarem sobre os fatos, e não sobre as quimeras, daqueles meses, a especulação se tornará historicamente irrelevante, e como é comum no Brasil, mais uma disputa revisionista no futuro para alimentar disputas inférteis de rede social a dar muito pano para lacração de todos os lados.
    É um fato que precisa ser reconhecido: o que insuflou as manifestações de 2013 não foi o povo que teve acesso a direitos e queria mais, isso é lorota – não havia povo na rua, havia uma certa classe média, e o povo votou em 2014 em Dilma Rousseff; quem foi à rua, majoritariamente, foi gente alinhada ao grande rio heterogêneo da Esquerda e influenciada por movimentos de juventude como o Occupy Wall Street e as primaveras coloridas e que era adversária do PT nesse campo ideológico. Simples assim. E por que não se dá nome aos bois? Por que as divergências nas esquerdas nunca foram assumidas e tratadas politicamente de forma adulta e produtiva, e continuam não sendo, o Golpe seguirá seu descaminho até que um acidente de percurso o interrompa. Esse mal estar está patente na resposta sobre a compatibilidade entre a defesa da justiça no caso de Marielle Franco e o Lula Livre. Tem gente nas esquerdas que odeia mais o PT do que a extrema-direita (já vi cartazes de um grupo autointitulado “esquerda radical qualquer coisa” vociferando sobre a prisão de Lula mais que os negociantes da Lesa-Pátria) – herdeiros de Heloísa Helena, que comemorou com caciques da velha política sua oposição ao partido que era tão ruim pra ela que até hoje não superou politicamente a mágoa de ter sido expulsa – a justiça do ato cabe a quem é do partido; como observadora externa eleitora dele, me pareceu incoerente essa relação doentia de amor e ódio de quem queria ficar no partido a todo custo contra o que ele estava se tornando, e depois de sair dele não construiu carreira política em nenhum outro lugar, e que existe na esquerda não-petista em relação ao que o partido representa. O bode na sala na entrevista da pesquisadora é esse: o mal estar de reconhecer as divergências com o PT (elas são assumidas mas sempre de maneira enviesada e politicamente pobre) e a incapacidade de admitir, e separar, as divergências das convergências, como o reconhecimento dos legados bom e ruim do partido não apenas no governo como na mobilização social, e o quê e como os diferencia do PT como proposta de país. As esquerdas não crescerão sem superar o “trauma do irmão mais velho”, mas pelo jeito os defeitos do PT vão se agravar por falta de oposição de esquerda qualificada, e pouco espaço para a esquerda qualificada dentro do partido. Espero estar errada nisso, mas não confio em nenhum político, seja pessoa ou partido, que não tenha ainda entendido a gravidade da questão ecológica para o futuro da humanidade – e obviamente, da política, que insiste em agir como um planeta autônomo com vida própria independente do resto…

    Sobre os temas e grupos sociais que podem criar uma nova esquerda: a questão ambiental, que em qualquer país civilizado do mundo já levanta multidões e alcança algum reconhecimento social, não é uma “agenda”, é o centro a partir do qual o novo mundo deve ser gestado, ou será abortado. Inclusive para a questão do trabalho: uma população estimada de 8,6 bilhões de habitantes em 2030 não poderá morar nas megalópoles. A questão do futuro das cidades e da descentralização das metrópoles em cidades médias está em total acordo com as propostas – sim, elas já existem – e modelos de sustentabilidade para dar conta da emergência da mudança climática, que se não for resolvida agravará todas as outras questões – sim, a centralidade do novo mundo não é do trabalho humano mas da “previdência da Natureza” que não pode mais trabalhar para sustentar um mundo superpovoado, desigual, consumista e perdulário. Ou seja, é uma questão de visão sistêmica, o que é necessário para viver, e se as pessoas continuarem partindo do princípio, falso, de que basta pensar em estratégias de desenvolvimento capitalista sem entender o mundo natural de que ele depende e deve respeitar, a equação será a que vemos agora, que não são problemas solucionáveis com melhor gerenciamento dentro do sistema capitalista, porque todas as crises, naturais (mudança climática, extinção massiva de espécies, desertificação, acidificação de oceanos, mudança do ciclo
    das águas, perda de biodiversidade animal e vegetal) e humanas (fome, desigualdade social, violência, guerras, diásporas inéditas, terrorismo de grupos privados e do Estado, números epidêmicos de câncer, suicídio, doenças da pobreza e uso de drogas destrutivas) são parte do capitalismo e não um efeito adverso, são O SEU MERCADO E MODO DE GERENCIAMENTO E CONTROLE, E ESTÃO ENTRELAÇADAS.
    Sobre radicalizar: não entendi o que foi dito na comparação entre radicalização de esquerda e direita. Se considera a abolição do capitalismo um radicalismo improdutivo como o “radicalismo conservador”, ou seja, fundamentalismo retrógrado da extrema-direita e prevê o reformismo como solução, discordo completamente.
    Já falei em outro comentário sobre a necessidade de estabilizar o doente (com a volta de esquerdas progressistas e democráticas ao poder de fato, não apenas ganhar eleições para conciliar com o Capital abutre) para fazer a transição, mas a estabilização é o meio e não o fim, a meta é a erradicação do capitalismo como forma única de vida e produção neste planeta, e a criação de socialismos adaptados a cada cultura e escolha dos grupos sociais. A pior ditadura que existe é a do capitalismo como forma de governo das vidas e mortes de todos no mundo; ao contrário do discurso de livre mercado, não há liberdade para trocar o mercado nem o modelo de sociedade. Se isso é radicalismo, é disso que precisamos, e usar a falácia do discurso espelhado para contrapor, por falta de argumentos, propostas que não sejam de reformismo, é fazer o jogo da direita que estabelece o ponto a partir do qual a conversa deve girar. Que tal partir dos números do mundo, do Piketty sobre a desigualdade e concentração de renda e riqueza, aos números de mortos em guerras ou violência urbana, do encarceramento em massa em países como Brasil e USA (as prisões vieram substituir o tronco escravocrata nesses países ainda apegados ao seu passado vergonhoso), de tortura contra civis em qualquer periferia ou de qualquer um que desafie o Império?

    Por fim, o verdadeiro problema das esquerdas não é falta de união mas de visão e ousadia, ou mesmo de entender, historicamente, o que ser “de esquerda” significa – talvez se definam como “esquerda” apenas, de maneira espelhada, como oposição de direita, e como esta tem se tornado cada vez mais medíocre, estas “esquerdas” estão apenas, espelhadamente, mantendo o passo na contradança do precipício. Não é que o povo escolheu a direita, moderada ou extrema, mas que as esquerdas deixaram de ser alternativa, se encolheram, perderam a capacidade de oferecer um mundo novo porque não acreditam que ele seja necessário, como se o maior problema do mundo não fosse o capitalismo mas apenas seu gerenciamento, mais ou menos “socialdemocrata”… E aí, quem vai querer sacrificar o pouco tempo que resta de vida ou de dia para entrar numa luta política cujos códigos e rituais são tão desconvidativos? O que as esquerdas já organizadas e sedentas de poder têm a oferecer para atrair os marginalizados para o jogo político?

    Seguem abaixo dois vídeos que podem explicar para interessados que tipo de mundo novo está sendo pensado por quem tem interesse real em resolver os problemas apresentados pela realidade. No Brasil, até agora, não vejo ninguém com propostas confiáveis para este desafio – o PT, me parece, ainda não entendeu a radicalidade exigida pela emergência da mudança climática e ecológica mais ampla, e como sempre, ficam caudatários do que vem de fora por não ouvirem seu próprio povo:
    – fundadora do Extinction Rebellion fala do engajamento político de pessoas que se desencantaram com esquerda e direita e vêem no movimento ambiental um discurso capaz de mobilizar as pessoas por sua ligação direta com a sobrevivência: uma vez entendido que se trata de defender a sobrevivência maior, do planeta e espécies apolíticas e apartidárias, uma coalização ética e responsável pode atrair pessoas avessas ao modelo político conhecido, falido. O XR propõe conselhos participativos populares, é pacifista, pragmático no melhor sentido de traçar estratégias de mobilização de base social e dos meios de comunicação para pressionar de fora para dentro o sistema político.

    Do seu canal no Tubo [tradução livre entre colchetes]
    “The 10 Working Principles of Extinction Rebellion [Os dez princípios de trabalho do Extinction Rebellion (Rebelião contra a Extinção)]
    https://Rebellion.Earth/who-we-are/#p
    1. We have a shared vision of change [Nós temos uma visão compartilhada de mudança]
    2. We set our mission on what is necessary [Nós estabelecemos nossa missão no que é necessário]
    3. We need a re-generative culture [Nós precisamos de cultura re-generativa]
    4. We hopefully challenge ourselves, and this toxic system [Nós aspiramos a desafiar nós mesmos e este sistema tóxico]
    5. We value reflection and learning [Nós valorizamos reflexão e aprendizagem]
    6. We welcome everyone, and every part of everyone into Extinction Rebellion [Nós acolhemos todos, e cada parte de todo mundo no Extinction Rebellion (Rebelião contra a Extinção)]
    7. We actively mitigate for power [Nós ativamente aplacamos o poder]
    8. We avoid blaming and shaming [Nós evitamos “culpar e envergonhar”]
    9. We are a non-violent movement [Nós somos um movimento não-violento]
    10. We are based on autonomy and de-centralization” [Nossa base é a autonomia e a des-centralização]”

    “Welcome to the Rebellion!” – Extinction Rebellion
    https://www.youtube.com/watch?v=52o3hC0E1R8

    – o professor e pesquisador Mike Berners-Lee apresenta modelos de produção, geração de energia e alimentação para dar conta da emergência climática, e fala, ainda que de maneira pouco sensível a meu ver, da reorganização do mundo do trabalho e da vida social dado que, nos melhores modelos do tipo, a alimentação de base vegetal exigirá trabalho massivo no campo, preferencialmente de pequenos grupos para atender demandas locais já que o transporte em longas distâncias é fator de poluição e aquecimento global, e que pode absorver de maneira intensiva a mão de obra ociosa nas cidades desindustrializadas, com reequilíbrio demográfico e social decorrente desse bem vindo êxodo urbano, rs. É o pensamento em cadeia: para dar conta da manutenção da temperatura abaixo dos 2 graus Celsius, todos os processos produtivos e sociais envolvidos devem ser reorganizados, daí criando-se uma nova estrutura que impactará a forma capitalista de gerenciar o mundo. E aqui no Brasil, entrará na pauta reforma agrária com distribuição de terra ao povo de maneira democrática e quebra da estrutura latifundiária, a agroecologia como alternativa aos modelos abusivos de agronegócios, a reestruturação das cidades pela redistribuição demográfica, a transferência da tecnologia dos setores industrializados altamente dependentes de carbono, como automobilístico e de petróleo e gás para as áreas de transporte sobre trilhos e marítimo, veículos híbridos (dizem que a China está na frente de todos os outros, e certamente o Brasil, que ficou dependente apenas como fornecedor de mão de obra para as transnacionais, perderá mais uma chance de se desenvolver em novo ramo industrial que será vital para o futuro; mas não diga isso aos sindicalistas do setor, que deviam estar brigando por isso, melhores empregos sustentáveis e dignos, mas defendem um mundo (capitalista dependente de combustível fóssil) que quer se livrar deles…com robôs), ciência agronômica para aumento sustentável da produção no campo, recuperação e uso das áreas degradadas do planeta com gestão ambiental de alto nível (reflorestamento, manejo da exploração de certos biomas e recursos naturais como os minerais), isso para não falar de outras áreas como a educação sócio-ambiental, tão necessária como viabilizadora desse novo mundo. Enfim, só de pensar abre-se um mundo de possibilidades e espaços para gente criativa e inventiva que está ociosa e na miséria nessa terra de maus donos, mas o Brasil, as esquerdas também, aprendeu(ram) a pensar com o espelho invertido da direita…

    “There Is No Planet B” – Mike Berners Lee
    https://www.youtube.com/watch?v=bLa3CnM7sSg

    – Dra. Vandana Shiva, uma ativista sensacional, inteligente, preparada, corajosa, com uma visão de mundo grandiosa e como todo anticapitalista, generosa e criativa, que coloca em prática suas ideias (característica tão em falta entre os progressistas, eu que o diga).

    Keynote – Dr. Vandana Shiva, Soil Not Oil International Conference 2017
    https://www.youtube.com/watch?v=rkSa-3HGAVg

    Espero que as pessoas entendam o que está em jogo, que já há muita gente boa – em todos os sentidos – trabalhando para trazer este novo mundo à luz num parto normal humanizado, rs. Mas se não der, será de fórceps mesmo, porque ou este mundo nasce ou morreremos todos, além de matarmos, de maneira (se)grega(da)mente ainda mais trágica, a Mãe Natureza que nos permite viver e arrotar grandeza num planeta lindo criado para nós como uma escola num magnífico jardim, e que estamos transformando num aterro sanitário que soterrará A TODOS. Justiça e Igualdade, palavras que os humanos cospem mas que a Mãe Natureza leva muito a sério…
    Boa sorte, esquerdas, que eu vou esperar o trem da consciência ecológica chegar por aqui. Enquanto isso, vou torcendo pelos companheiros da gringolândia e para que sua inspiração chegue ao Brasil que faz o melhor Carnaval do mundo mas é incapaz de ser criativo e ousado fora dos dias da folia. Só lhes resta o golden shower…

    Sampa/SP, 31/05/2019 – 20:54

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