Porque a Folha não encara uma discussão honesta sobre o Golpe, por Luis Felipe Miguel

Por Luis Felipe Miguel

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Não tenho o hábito de ler Otávio Frias Filho (o patrão da Folha de S. Paulo). Muitos anos atrás, quando eu escrevia crítica de livros para um jornal de Brasília, chegou às minhas mãos um volume com suas peças teatrais, mas eu não dei conta de lê-las.

Hoje, ele dedica um texto a criticar os cursos sobre o golpe de 2016, com as ofensas de costume à universidade e, em particular, às ciências humanas. O ponto, claro, é que não houve golpe. Primeiro ele diz que as “pedaladas fiscais” são, sim, motivo para o impeachment, mas logo reconhece que não passaram de “pretexto”. Em seguida, afirma que foi seguido todo o rito legal “sob supervisão de um Supremo independente”. Passa à ideia de que, sendo um julgamento “político”, um impeachment não precisa dar atenção ao fundamento jurídico. Depois, a questão é que um governo que não consegue o apoio de um terço do Congresso não merece governar. Enfim, estabelece a lei histórica de que quando a economia fica em recessão por dois anos seguidos o governo cai, logo o impeachment era tão inevitável como a lua minguante depois da lua cheia.

O deslizamento constante entre formalismo e pragmatismo permite que Frias Filho evite todas as questões espinhosas. Do começo ao fim do texto, não há o mínimo esforço para entender o que é um golpe. Também se mantém um foco exclusivo no processo dentro do Congresso, em 2016, vedando a conexão entre a derrubada de Dilma e o realinhamento das forças políticas que permitiu a implantação de um projeto que, submetido às regras até então vigentes, sempre fora derrotado – o que é essencial para a compreensão do golpe que alçou Temer ao poder.

Leia também:  É falso que a Ford deixou o Brasil por causa de processos trabalhistas

Na página seguinte, aparece um artigo de Steve Pinker, o psicólogo cognitivo que, de uns tempos para cá, assumiu o papel de Dr. Pangloss da sociedade liberal, em co-autoria com um certo Robert Muggah. O objetivo deles é negar que a democracia liberal esteja em crise. Usando o índice da Economist para definir que países são democráticos, demonstram que o número dos países que adotam as regras da liberal-democráticas não está em queda e que, na maioria dos países, a maioria das pessoas apoia a democracia.

É uma bela maneira de fugir do debate. O que se aponta, quando se fala de “pós-democracia” e de “desdemocratização”, é a crescente incapacidade dos regimes democráticos liberais de responderem aos interesses da maioria da população. Suas políticas atendem, de maneira cada vez mais escancarada, ao 1%, aos mercados financeiros – e as regras democráticas tornam-se praticamente decorativas. Para Pinker e Muggah, nada disso está no horizonte. Sua análise das democracias liberais nem sonha em conectar as regras formais com noções como soberania popular ou igualdade política efetiva. Tamanha cegueira para tudo que esteja fora da institucionalidade estrita deveria valer, para eles, um título de cientistas políticos honorários

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9 comentários

  1. A desonestidade básica de

    A desonestidade básica de construir uma ideia usando pedaços falsos e alguns verdadeiros de vários conceitos e fatos, misturando-os para uma conclusão falsificada.  Serve bem aos que já estão carregados de preconceitos, fanatismo e ideologias liberais, além do apoio ao horror que estamos vivendo.

  2. Estratégias

    A invasão da Rússia foi o começo do fim da segunda guerra mundial. A derrubada de Dilma foi uma estratégia que se mostrará equivocada quando se verifica que o governo que assumiu o poder vai confirmar algo impensável se a Petista continuasse democraticamente governando o país. O cenário seria outro e hoje Lula não seria cacifado para eleição de 2018.

  3. O Curso

    Otavinho:

    “O militante pode gritar “golpe!” com a legitimidade de quem está engajado na luta política, mas o historiador obedece a outro tempo, outros critérios. De seu ponto de vista, o eixo da política se desloca para a direita, num movimento geológico profundo, que ultrapassa o âmbito local e se apresenta como contraglobalização em escala mundial. Esse é o verdadeiro “golpe”.

    “A liberdade de cátedra é ampla o bastante para autorizar muito disparate, sobretudo nas ciências humanas; o caso dá oportunidade aos alunos de exercitar seu senso crítico ao discernir o que é pesquisa, o que é debate e o que é mera propaganda.”

    “Em abril de 1950, Getúlio Vargas foi lançado candidato a presidente. No mesmo mês, o Congresso aprovou a lei 1.079, que regula o impeachment. Seu propósito ostensivo era tornar destituíveis governantes irresponsáveis, como Adhemar de Barros em São Paulo. Mas basta conhecer o teor da lei para concluir que provém do repúdio à ditadura do Estado Novo e do receio de que ela pudesse se repetir.”

    “Quando sobreveio o impeachment de Fernando Collor, em 1992, o STF decidiu que a lei 1.079 era constitucional e, portanto, válida. Essa decisão foi confirmada há dois anos, quando começou o impeachment de Dilma Rousseff com a autorização dada pela Câmara dos Deputados(17/4/16).”

    “O impeachment é um remédio político, mais que jurídico, que os criadores da Constituição americana foram buscar, como quase sempre fizeram, na Roma antiga e nos costumes britânicos.”

     

     

  4. O Curso 2

    Otavinho:

    “O impeachment é um remédio político, mais que jurídico, que os criadores da Constituição americana foram buscar, como quase sempre fizeram, na Roma antiga e nos costumes britânicos. Por isso quem julga é o Senado, não a corte suprema. Conforme a tirada de Benjamin Franklin, que acontecimentos posteriores tornariam funesta, o impeachment é uma forma de se livrar de um mandatário que se revela detestável (“obnoxious”) sem ter de matá-lo.

    Hélio Schwartsman salientou neste jornal, na época do afastamento da presidente, que há algo de tautológico no dispositivo, como se sofresse impedimento quem não conseguisse evitá-lo.

    O governante incapaz de conservar o apoio de ao menos um terço do Parlamento não merece governar e provavelmente já não governa mais. O impeachment seria a consumação legal desse fato.”

     

     

  5. “Pedalada” foi um termo

    “Pedalada” foi um termo inventado e propagado para fazer parecer que haviam motivos para retirar uma presidente recentemente eleita do cargo.

  6. 1%
    O espantoso é alguém ainda se espantar com a Folha. Eu até entendo um desejo secreto de que a Folha seja o que foi nos anos 80. Mas, cá entre nós, desgraçadamente ela tem o mérito de captar o Zeitgeist e surfá-lo a seu favor.

  7. Central do Golpe!

    Qualquer ideia de golpe cria a ideia de redemocratização!

    Neste caso seria necessário uma nova constituição.

    Nova constituição significaria perder o que os golpistas conquistaram através do uso de políticos não comprometidos com o povo!

    Então todas as instituições, entidades, empresários que fazem de conta que nada de excepcional aconteceu neste país, pode saber…

    Não é normal!

    É por que seguem a central do golpe!

    Pode ser um site, um blogue não aberto ao publico, onde quem acessa, repassa – uma hora agente acha..

    Se você quer saber por que todos eles reagem da mesma forma, em uníssono, aí você encontrará a central do golpe!

    A central do golpe é de onde emanam as decisões, por exemplo, de levar o caso do triplex do Guarujá para Curitiba!

    Esse caso ficou rodando na justiça de São Paulo, um puxa e estica e acabou caindo nas mãos do Moro…

    Todos envolvidos que ficaram na justiça paulista foram inocentados, menos o ilustre comprador de um apartamento!

    A ordem saiu da central do golpe!

    E é quem pensa o golpe desde o mensalão!

    É onde são montadas todas as estratégias!

    A Central do Golpe pode muito…

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