Prisão não significa o fim da liderança de Lula, por Luis Felipe Miguel

Foto Adonis Guerra

Prisão não significa o fim da liderança de Lula

por Luis Felipe Miguel

O homem que foi preso anteontem é o maior líder popular da história do Brasil. As duas informações, claro, estão ligadas: o homem foi preso por ser o maior líder popular da história do Brasil. E por ter, no governo, com todos os limites e ambiguidades que lhe podem ser imputados, demonstrado, de forma inédita, que o Estado pode ser mobilizado para responder às necessidades prementes dos mais pobres.

É importante ter claro que, ao contrário do que a imprensa se esforça em dizer, a prisão não significa o fim da liderança de Lula. A arbitrariedade e a injustiça de seu encarceramento são patentes. Lula preso não é a derrocada do líder político, mas o emblema do arbítrio.

De todo modo, o encarceramento e o veto judicial à presença nas eleições daquele que foi seu porta-voz principal durante décadas colocam com urgência, para a esquerda brasileira, a questão do seu futuro. Que passa, como outro dia bem lembrou Frederico de Almeida, por duas discussões simultâneas: a superação de Lula e os termos da manutenção de seu legado. Afinal, não se pode jogar fora uma base social tão importante, mas também não se pode permanecer na dependência de uma única pessoa e de um projeto político cujas condições de viabilidade estão cada vez mais estreitas. E essa discussão precisa ocorrer sem que esmoreça a luta pela libertação do ex-presidente, pela restituição de seus direitos políticos e pelo fim da perseguição contra ele. Lula é tanto a vítima de uma injustiça, que reclama por nossa solidariedade ativa, quanto o símbolo da exceção que avança no país, e é nessa dupla condição que a defesa de sua liberdade é prioritária.

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A meu ver, há dois elementos em Lula e no lulismo que a esquerda brasileira precisa reter – mas cada um deles inclui também sua própria armadilha. Um é a capacidade de comunicação com as massas populares. O outro é o sentido de urgência no enfrentamento das carências dos mais pobres.

A capacidade de comunicação de Lula tem a ver com sua trajetória, invulgar mesmo para lideranças da esquerda, e com uma competência oratória, uma sensibilidade para compreender as audiências e um talento para gerar empatia que parecem inatos e não estão dando sopa por aí. Mas nasce também de uma recusa consciente a fazer política para seitas. Lula se comunica com a massa porque quer fazer política com a massa, quer ampliar o alcance do discurso, quer romper o círculo da própria esquerda. Sem essa virtude, ele seria talvez um nome com importância na história do sindicalismo brasileiro, mas não o fenômeno político que é.

O problema é que, por vezes, a busca por uma comunicação ampliada imediata leva a evitar enfrentamentos com o senso comum e a ideologia dominante – e isso dificulta avanços além de certo limite. Julgo que, nos melhores momentos de sua carreira política, Lula soube evitar essa armadilha. Sem jamais recair nos chavões da esquerda, fez do diálogo com a massa um momento de educação política real. Mas não quando reduziu seu programa ao ideal liberal da “igualdade de oportunidades” e passou a minimizar o conflito social adotando a persona “paz e amor”.

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O sentido de urgência também nasce da vinculação direta com as classes populares, cujas carências não permitem esperar os nossos sonhos. Reconecta a esquerda com o melhor entendimento da política como prática baseada na verdade efetiva das coisas e instrumento para transformação do mundo. E permite a obtenção de uma base social alargada.

Por outro lado, é muito comum que o realismo resvale no possibilismo – o esquecimento de que a vontade de mudar o mundo também é parte da realidade do mundo, a aceitação dos limites à transformação do mundo como inamovíveis, a secundarização da parte da luta política que consiste em alterar as condições da própria luta. Com isso, o enfrentamento das necessidades urgentes acaba por se tornar o horizonte final do projeto político e a transformação social radical é deixada de lado.

Preservar as virtudes do lulismo escapando de suas armadilhas não é um projeto fácil, mas é necessário. A meu ver, a esquerda pós-lulista deve reter um lulismo interpretado à esquerda. Não é um programa popular: alguns rejeitam o prefixo “pós”, julgando que o lulismo deve ser preservado in totum, enquanto outros têm alergia ao lulismo e acham que ele deve ser eliminado até não deixar rastros. Mas para quem quer uma prática política que seja radical sem ser onírica e que incida na realidade sem deixar de recusá-la, esse me parece ser o caminho possível.

 

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1 comentário

  1. Em todas análises politicas

    Em todas análises politicas sobre as eleições é traçado a perspectiva de que o Lula não está preso, está morto. Ainda não se mediu sua capacidade de transferencia de votos, mas uma campanha bem feita leva o candidato de Lula para o segundo turno com certeza. Sua prisão não o mata, o mitifica e não tem quem ganha eleição de um mito.

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