Quando a economia é guiada pela fé e não pelas evidências, por Laura Carvalho

Jornal GGN – Em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, a professora da FEA-USP Laura Carvalho analisa a repercussão de artigo de três dos princiapis economistas do FMI publicado na semana passada, no qual os autores afirmam que algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade e prejudiram a expansão econômica no longo prazo. 

Carvalho fala sobre o esforço fiscal brasileiro em 2015, que teve corte de gastos efetivos reais de 4% e de 40% nos investimentos públicos e aprofundou a crise econômica, mantendo a trajetória de aumento da dívida pública através da falta de arrecadação e das altas taxas de juros. Ela afirma que o governo interino de Michel Temer pretende diminuir ainda mais o espaço para investimentos e gastos sociais com uma regra que congela as despesas federais. Ela ressalta que até o economista David Becker, do Bank of America Merril Lynch, considerou as medidas “agressivas”.

Por último, ela afirma que os economistas do FMI sugerem que os formuladores da política econômica não devem se guiar pela fé, e sim pelas evidências. “No caso da tragédia brasileira, o governo interino recomenda que o povo não pense, não fale em crise e, sobretudo, tenha muita fé”, diz. Leia a coluna abaixo:

Da Folha

É preciso muita fé

Laura Carvalho

O artigo de três dos principais economistas do FMI publicado na quinta passada (26), a começar pelo título –”Neoliberalism: Oversold?”–, tem tido grande repercussão.

A palavra “neoliberalismo” até aqui era considerada um palavrão típico de maluco de palestra, desses que não devem entender nada de economia e de capitalismo. Afinal, seus benefícios estão desenhados em qualquer manual. Só os mais ideológicos ou ignorantes insistiriam em desafiar a lógica.

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Em vez de estimular o crescimento, os autores, veja você, defendem que algumas políticas neoliberais teriam elevado a desigualdade, prejudicando uma expansão econômica duradoura. O artigo foca dois tipos de política, cuja eficácia vinha sendo questionada em inúmeros estudos do departamento de pesquisa do FMI.

A primeira é a chamada abertura financeira. Segundo os autores, em vez de estimular o investimento produtivo em países com baixo nível de poupança, o livre fluxo internacional de capitais especulativos tende a elevar a frequência das crises e os níveis de desigualdade.

A segunda crítica refere-se às políticas voltadas para a redução do tamanho do Estado na economia. Os autores destacam que o custo de redução da dívida pública, via aumento de impostos ou cortes de gastos produtivos, pode ser maior do que o benefício.

“Diante de uma escolha entre viver com uma dívida mais alta –permitindo que a razão dívida-PIB caia organicamente pela via do crescimento– ou promover deliberadamente superavit fiscais para reduzir a dívida, governos com espaço fiscal amplo se dão melhor ao conviver com a dívida.” O argumento é reforçado pela referência a um estudo que indica que uma consolidação fiscal de 1% do PIB aumenta a taxa de desemprego em 0,6 ponto percentual no longo prazo, e o índice de Gini, que mede a desigualdade, em 1,5% em cinco anos.

“Estratégias de consolidação fiscal –quando necessárias– podem ser desenhadas para minimizar o impacto adverso nos grupos de baixa renda. Mas, em alguns casos, as consequências distributivas inconvenientes terão de ser remediadas depois de sua ocorrência, com a utilização de impostos e gastos públicos para redistribuir renda.” Gastos com educação, por exemplo, são considerados bem-vindos.

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As evidências são que o esforço fiscal brasileiro em 2015, com corte de gastos efetivos reais da ordem de 4% (descontadas as “despedaladas”) e de 40% nos investimentos públicos, aprofundou a crise econômica, prejudicou os mais vulneráveis e manteve, pela falta de arrecadação tributária e as altas taxas de juros, a mesma trajetória de aumento da dívida pública.

A resposta dada pelo governo interino é diminuir ainda mais o espaço para os investimentos e gastos sociais pelo estabelecimento de uma regra que congela as despesas federais em termos reais. Segundo reportagem do jornal “Financial Times” de terça-feira (31), até o economista David Becker, do Bank of America Merrill Lynch, achou as medidas “agressivas”, por não deixarem espaço para a atuação anticíclica do governo.

A conclusão do texto dos economistas do FMI sugere aos formuladores da política econômica que não se deixem guiar pela fé, e sim pelas evidências. No caso da tragédia brasileira, o governo interino recomenda que o povo não pense, não fale em crise e, sobretudo, tenha muita fé. 

6 comentários

  1. A nossa relação dívida PIB

    A nossa relação dívida PIB subiu de 58,9% em 2014 para 66,2% em 2015. Um aumento brutal de 7,3%. O deficit primário contribuiu com apenas 1,88%. O resto é resultado dos juros e da recessão. Essa relação não é alta, se compararmos com a de outros países. E essa elevação seria perfeitamente razoável na fase descendente do ciclo econômico. Com efeito, a relação dívida PIB deveria apresentar um comportamento anticíclico: aumentar na crise e diminuir na fase de prosperidade.

    Mas o que os números mostram é que o nosso endividamento aumentou como decorrência de uma política pró-cíclica (Levy e BC) absurda. Ou seja, simplesmente jogamos fora custosos pontos percentuais de endividamento. Um desperdício total que irá nos custar caro. Na verdade, já nos custa caro.

    Os nossos economistas conservadores não são simplesmente reacionários. Estão atrasados, presos a ideias que, como mostram a Laura e o Araujo, em vários artigos aqui no blog, estão sendo questionadas pelo próprio pensamento conservador do centro do capitalismo. A revisão do efeito das políticas de austeridade fiscal por parte do próprio FMI não é de hoje (vide o debate entre Blanchard e Krugman). Mas o artigo citado pela Laura não deixa de ser um marco, por apontar os efeitos de médio e longo prazo extremamente perversos das políticas defendidas por nossos neoliberais jabuticabas. Talvez eu esteja sendo injusto: é possível que não seja ignorância, mas simplesmente defesa dos interesses do 1% da nossa população, os rentistas, é claro.  

    • de acordo!

      Concordo com sua afirmação que nossos economistas conservadores não são simplemente reacionarios. Eles são também oportunistas e interesseiros pois de outro modo não venderiam a preço absurdos suas consultorias e palestras.

      Voce acha que os nossos empresarios (que são amigos- irmãos dos economistas) querem ouvir outro discurso que não o discurso neoliberal.

      Não conheci nenhum em 40 anos de vida profissional. 

  2. Com todo o respeito, a visão

    Com todo o respeito, a visão da Laura Cardoso é defasada, mas não há como negar um certo charme no seu discurso.

  3. Reproduzo comentário que penso pertinente aqui em 3ª tentativa

     

    Jornal GGN,

    O comentário a seguir foi enviado hoje, quinta-feira, 02/06/2016 por volta das 13:32 para você mesmo junto ao post “PIB brasileiro encerra o primeiro trimestre com quada de 0,3%” de quarta-feira, 01/06/2016 às 11:16, e que pode ser visto no seguinte endereço:

    http://jornalggn.com.br/noticia/pib-brasileiro-encerra-primeiro-trimestre-com-queda-de-03

    E o que eu disse lá foi o seguinte:

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    “Jornal GGN,

    Não tinha muito mais a dizer aqui neste post “PIB brasileiro encerra o primeiro trimestre com queda de 0,3%” de quarta-feira, 01/06/2016 às 11:16, no entanto, dada a escassez de boas notícias e de certo modo de bons posts resolvi acrescentar aqui a indicação de dois links e vou para isso utilizar este comentário.

    O primeiro link é para o post “Queda do PIB em relação a 2015 chega a 5,4%” de quarta-feira, 01/06/2016 às 17:10, publicado aqui no blog de Luis Nassif e sem autoria a não ser de você mesmo, Jornal GGN. O endereço do post “Queda do PIB em relação a 2015 chega a 5,4%” é:

    http://jornalggn.com.br/noticia/queda-do-pib-em-relacao-a-2015-chega-a-54

    Felizmente ninguém se deixou embarcar na cantilena e catilinária que se faz contra o governo da presidenta Dilma Rousseff com base nos negativos dados do PIB. Como eu alertei em comentário lá para o post “Queda do PIB em relação a 2015 chega a 5,4%” e que eu enviei quinta-feira, 02/06/2016 às 02:26, trata-se de um retrato do passado em que se deve analisar com mais atenção o que ocorreu para saber se houve falhas, e se houve quais foram elas, para, se possível, saber como as remediar ou saber como evitar de as cometer novamente.

    E o segundo link é para o post “Quando a economia é guiada pela fé e não pelas evidências, por Laura Carvalho” de quinta, 02/06/2016 às 10:27, com a transcrição do artigo de Laura Carvalho “É preciso muita fé” publicado hoje, quinta-feira, 02/06/2016 na Folha de S. Paulo. O endereço do post “Quando a economia é guiada pela fé e não pelas evidências, por Laura Carvalho” é:

    [Aqui nessa reprodução vou eliminar o link]

    Embora o post não trata propriamente da questão do PIB, a Laura Carvalho, sempre com bons escritos, criticando as idéias anacrônicas do neoliberalismo, de certo modo passa ao largo do processo de recuperação da economia brasileira que se iniciou com suporte no câmbio desvalorizado e que deve ter continuidade salvo uma ação mais imprevisível do FED produzindo um aumento do juro que volte a atingir a nossa economia.

    Nem deveria dizer que a Laura Carvalho passa ao largo do processo de recuperação. Ela parece não acreditar que essa recuperação possa ocorrer. De certo modo levantar a crítica correta, mas aplicar essa crítica de modo indevido parece-me muito frequente nos artigos dela.

    Sobre isso talvez eu devesse mencionar um terceiro link. Não tão recente como o artigo anterior dela [Isto é, o artigo deste post “Quando a economia é guiada pela fé e não pelas evidências, por Laura Carvalho”], vale então indicar aqui um ótimo artigo dela falando dos monstros que aparecem quando se tem um processo recessivo, sendo esses monstros representados pelo crescimento da direita, principalmente da direita fascista. Trata-se do artigo “O mar está para monstros” publicado na Folha de S. Paulo de quinta-feira, 28/04/2016, e que foi transformado no post “Recessão alimenta a criação de monstros da intolerância, por Laura Carvalho” de quinta-feira, 28/04/2016 às 14:39, aqui no blog de Luis Nassif e que pode ser visto no seguinte endereço:

    http://jornalggn.com.br/noticia/recessao-alimenta-a-criacao-de-monstros-da-intolerancia-por-laura-carvalho

    Pelo artigo se observa que ela noticia algo já quantificado estatisticamente que é o crescimento da direita com a recessão, e, ao dar divulgação aos estudos que comprovam esse crescimento, o artigo é salutar. O problema é que ela atribui o crescimento da direita no Brasil apenas à recessão que o Brasil sofreu a partir do segundo governo da presidenta Dilma Rousseff. Ora o crescimento da direita está sendo quantificado no mundo desde que se iniciou a recessão em 2008 e é medida estatisticamente em todos os períodos recessivos estejam eles espraiados pelo mundo ou localizados em um ou outro país.

    E o mais importante é que o Congresso Nacional que está produzindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff foi eleito antes da recessão. O Congresso apoia o impeachment porque vê suporte na sociedade e esse suporte decorreu em muito do quadro recessivo, mas o apoio do Congresso é fruto da formação de direita dos nossos deputados e senadores.

    E a formação de direita dos nossos deputados e senadores tem duas origens, uma é o quadro recessivo mundial que afetou a economia brasileira e com isso foram eleitos mais deputados e senadores de direita e o outro é grande desigualdade de renda no país que favorece a eleição de representantes da classe privilegiada que só não age em defesa da própria classe quando por circunstâncias é eleito um ou outro representante com espírito mais altruísta e de solidariedade. Então em um ótimo artigo, mas que também deixa a desejar, a Laura Carvalho desconsidera essas duas origens antecedentes ao segundo governo da presidenta Dilma Rousseff e que foram fundamentais para a aprovação do impeachment da presidenta.”

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    Bem é isso. No artigo “É preciso muita fé” a Laura Carvalho utiliza de uma crítica correta ao neoliberalismo que embora recente era conhecida há muito tempo. O neoliberalismo prosperou mais pela retórica, salvo na quebra da capacidade de arregimentação da classe trabalhadora, pois um dos grandes representantes do neoliberalismo e que foi o Ronald Reagan foi um dos responsáveis pelos maiores déficits públicos em tempos de paz dos Estados Unidos, ou seja, Ronald Reagan não teria nada de neoliberalismo. Então é até uma perda de tempo criticar o que não existe de fato, mas apenas no palavreado. A não ser mostrar especificamente os resultados nefastos de algumas políticas que foram adotadas pelo neoliberalismo e postas em prática como a quebra dos grandes sindicatos que aumentou a desigualdade de renda.

    E então ao prevê que a aplicação do neoliberalismo na economia brasileira não trará resultados ela esquece que a aplicação do neoliberalismo em muito será uma questão de retórica e de outro quando a economia recupera pelo lado das exportações, a redução do consumo interno não é economicamente de todo ruim. É verdade que a redução do consumo reforça a desigualdade, entretanto, a desigualdade pode ser combatida por outros meios. No entanto, o que deve ser enfatizado em relação ao crescimento puxado pelo comércio exterior é que o setor industrial vai ser o grande beneficiado e com ele a classe trabalhadora que sofre muito não só com a recessão como também com o enfraquecimento do setor industrial.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 02/06/2016

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