Recessão alimenta a criação de monstros da intolerância, por Laura Carvalho

Jornal GGN – Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, comenta a recente fala de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, que disse que períodos de recessão econômica não são tempos revolucionários, e sim “tempos que criam monstros”. A professora cita uma pesquisa dos economistas Hans  Grüner e Markus Brückner, que aponta uma relação entre a queda do crescimento econômico e o aumento na participação de partidos de extrema direita no total de votos.

O Brasil não foge à regra quando as pesquisas de intenção de voto mostram o crescimento de “um candidato que faz apologia pública à tortura”, diz ela. Para a professora, a opção por implementar políticas recessivas pode levar não só ao agravamento da recessão, mas também para o aumento da intolerância e do enfraquecimento da democracia.

Da Folha

 
Laura Carvalho

Quando indagado sobre o espaço aberto por crises econômicas para o fortalecimento do campo progressista, Yanis Varoufakis, em palestra proferida na segunda-feira (25) na New School, em Nova York, foi categórico: “Tempos de grave recessão não são tempos revolucionários, são tempos que criam monstros”.

A resposta pode à primeira vista parecer contraditória com a sua própria experiência recente enquanto ministro da Fazenda da Grécia por um partido de esquerda que deve boa parte de sua existência –e certamente de sua vitória nas urnas– à grave crise que assola o país. Quiçá o fracasso de Varoufakis nas negociações com a “troica” formada por União Europeia, Banco Central Europeu e FMI tenha lhe tirado o que lhe restava de otimismo.

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O estudo dos economistas Hans Grüner e Markus Brückner, realizado a partir de dados de 16 países da OCDE entre 1970 e 2002, parece dar razão a Varoufakis quando conclui que uma redução de 1% na taxa de crescimento econômico tende a elevar em 1% a participação dos partidos de extrema direita no total de votos. O crescimento recente nas pesquisas de intenções de voto de um candidato que faz apologia pública à tortura sugere que o Brasil não foge à regra.

No livro “The Moral Consequences of Economic Growth”, o professor de economia política de Harvard Benjamin Friedman parte de vasta evidência histórica para defender que o crescimento econômico não é um facilitador apenas de melhorias materiais, mas também da liberdade, da tolerância, da justiça e da democracia. A estagnação e a prosperidade mal distribuída, ao contrário, tenderiam a fomentar o aumento da violência e o surgimento de ditaduras.

Friedman trata, no entanto, de uma importante exceção à regra. Nos anos de 1930, os Estados Unidos conseguiram fortalecer os valores democráticos em meio à Grande Depressão. O autor atribui essa sorte ao New Deal do presidente Roosevelt, que qualifica como uma tentativa de “espalhar a oportunidade econômica o mais amplamente possível”. Considera que, em vez de procurar “bodes expiatórios para excluir”, o caminho escolhido foi “deliberadamente pluralista e inclusivo”, com o objetivo não somente de restaurar a prosperidade econômica mas de criar maior igualdade de oportunidades.

Ainda que hipóteses históricas nunca sejam universais, como apontou o historiador Alexandre Gerschenkron, a opção por não realizar uma reforma tributária e por abandonar os investimentos públicos em prol da implementação de políticas recessivas e excludentes –no governo Dilma Rousseff e, mais ainda, em um eventual governo Temer sem legitimidade– parece, no caso brasileiro, nos tirar do caminho da exceção e nos colocar na espiral descendente do agravamento da crise econômica, do aumento da intolerância e do enfraquecimento da democracia.

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*

“O Minotauro Global”, livro de Yanis Varoufakis que trata do papel central dos Estados Unidos e de Wall Street na absorção dos produtos e do capital financeiro globais entre o fim do sistema de Bretton Woods e a crise de 2008 –ano em que são desnudados os graves desequilíbrios da economia mundial que ainda prejudicam sua retomada–, acaba de ser lançado no Brasil pela editora Autonomia Literária.

4 comentários

  1. O PMDB é favor de lei contra

    O PMDB é favor de lei contra a reeleição. Aí está o mote para aumentar o tempo de Temer no poder. 

    • Concordo que o artigo é bom, mas tem um viés imediatista

       

      ML (quinta-feira, 28/04/2016 às 15:40),

      Não vou discordar de você, ainda mais tendo como referencial um artigo muito bom e bem escrito e trazendo um assunto que deveria ter sido mais divulgado ou que deveria ter sido percebido há mais tempo.

      Agora há dois pontos em que eu considero que ficou a desejar. Primeiro ela deixa por nossa conta descobrir o artigo de Markus Brückner e Hans Peter Grüner a que ela se refere. Trata-se do texto “Economic growth and the rise of political extremism: theory and evidence” e que pode ser visto no seguinte endereço em pdf:

      https://www.uni-kassel.de/fb07/fileadmin/datas/fb07/5-Institute/IVWL/Forschungskolloquium/WS10/growth-extremism.pdf

      Bem, o texto é de abril de 2010. E fico surpreso porque um texto assim já deveria ser de conhecimento de todos. Parece que a direita escondeu este texto para que ele não revelasse a natureza em que ela é formada. E a esquerda resistiu a divulgar com o temor de que isso desse força a direita para invadir a nossa praia. Eu não conhecia o texto. Até pensei que Laura Carvalho se referia a texto do final do ano passado e, portanto, bem mais recente.

      Contrariamente a Luis Nassif eu fui muito crítico das manifestações de junho de 2013 por ver ali muita manifestação fascista de direita. Durante um bom tempo eu dizia que as manifestações não traziam nada de novo exceto o uso das redes sociais e nada de bom exceto a manifestação em si que é prova de democracia. Não se pode esquecer que no terceiro e quarto trimestre de 2011 e no primeiro e no segundo trimestre de 2012, a taxa de crescimento do trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior foi de 0,1% que dariam só 0,4% ao ano. E o segundo semestre de 2012 foi enriquecido com o julgamento da Ação Penal 470. Em junho de 2013, o caldo de revolta popular acumulada destruiu tudo aquilo que a presidenta Dilma Rousseff, às duras penas, construiu nos dois primeiros anos do primeiro mandato dela.

      Eu vinha detectando de modo mais instintivo a relação da crise econômica com o crescimento da direita. Mencionava que diante de crise econômica as pessoas ficam com medo e o medo é o fermento da direita. E então comecei a fazer a relação da crise de 1930 com o surgimento do Fascismo e do Nazismo. Agora quando a direita começou a ganhar força, a minha percepção amadureceu. E no final do ano passado o que eu tinha como dado subjetivo adquiriu contornos objetivos com o artigo de Howard Davies “As consequências políticas das crises” publicado terça-feira, 29/12/2015, e que pode ser visto no seguinte endereço:

      http://www.valor.com.br/opiniao/4372636/consequencias-politicas-das-crises

      Infelizmente o acesso ao artigo completo só está disponível para assinantes do Valor Econômico. Assim eu deixo o link para o artigo no original em inglês no site do PROJECT SYNDICATE, publicado em 22/12/2015 e cujo título é “The Political Consequences of Financial Crises”, que pode ser visto no seguinte endereço:

      https://www.project-syndicate.org/commentary/financial-crises-political-consequences-by-howard-davies-2015-12

      E mais importante do que o artigo “The Political Consequences of Financial Crises” é o link que ele fornece para o artigo “The political aftermath of financial crises: Going to extremes” de autoria de Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch, e publicado em 21/11/2015, no site do VOX – CEPR’s Policy Portal e que pode ser visto no seguinte endereço:

      http://voxeu.org/article/political-aftermath-financial-crises-going-extremes

      Eu até pensei que o texto indicado por Laura Carvalho fosse o mesmo do de autoria de Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch. E foi muito difícil de encontrar o artigo quando lembrei dele recentemente porque eu havia ficado um bom tempo sem o mencionar. Por sorte eu vi motivo para fazer o link para o artigo “The Political Consequences of Financial Crises” logo após o ter lido, em uma longa crítica que eu fiz a Luis Nassif junto ao post “A opinião de Paes de Barros sobre Dilma” de quarta-feira, 30/12/2015 às 18:31, e que pode ser visto no seguinte endereço:

      http://jornalggn.com.br/noticia/a-opiniao-de-paes-de-barros-sobre-dilma

      Enviei meu longo comentário para Luis Nassif na quarta-feira, 30/12/2015 às 20:44, e no domingo, 03/01/2016 às 17:02, eu ainda acrescentei mais algumas refutações que eu fazia a textos antigos dele com críticas a presidenta Dilma Rousseff ,que só ali, já iniciando os estertores dela, Luis Nassif fazia uma espécie de mea-culpa.

      Mais recentemente voltei a mencionar os dois artigos. Primeiro junto ao post “Porque o STF precisa apreciar o impeachment, por Romulus” de terça-feira, 12/04/2016 às 07:20, aqui no blog de Luis Nassif e de autoria de Romulus, e que pode ser visto no seguinte endereço:

      http://jornalggn.com.br/noticia/porque-o-stf-precisa-apreciar-o-impeachment-por-romulus

      E ontem voltei a mencionar os dois artigos junto ao post “Senador Paulo Paim fala sobre a proposta de novas eleições” de quarta-feira, 27/04/2016 às 08:10, também aqui no blog de Luis Nassif e trazendo, por sugestão de Jus Ad Rem a opinião de Paulo Paim em defesa de eleições já. O post “Senador Paulo Paim fala sobre a proposta de novas eleições” pode ser visto no seguinte endereço:

      http://jornalggn.com.br/noticia/senador-paulo-paim-fala-sobre-a-proposta-de-novas-eleicoes

      Eu envie meu comentário na quarta-feira, 27/04/2016 às 13: 38, para Jaide e o meu comentário deveria ter sido enviado para junto do comentário dele de quarta-feira, 27/04/2016 às 11:03, mas por problemas no computador saiu direto na página de comentários e com erros de redação e com um final um tanto truncado, o que me levou a o reenviar corrigindo e acrescentando alguma coisa aqui e ali. De todo modo, em meu comentário em que rapidamente faço crítica a proposta de eleições gerais, pois por não haver previsão constitucional não passa de um golpe, semelhantemente ao impeachment sem crime de responsabilização, há os links aos dois artigos.

      E o segundo ponto que deixa a desejar no artigo de Laura Carvalho é que ela o termina assim:

      “Ainda que hipóteses históricas nunca sejam universais, como apontou o historiador Alexandre Gerschenkron, a opção por não realizar uma reforma tributária e por abandonar os investimentos públicos em prol da implementação de políticas recessivas e excludentes –no governo Dilma Rousseff e, mais ainda, em um eventual governo Temer sem legitimidade– parece, no caso brasileiro, nos tirar do caminho da exceção e nos colocar na espiral descendente do agravamento da crise econômica, do aumento da intolerância e do enfraquecimento da democracia”.

      Ora, é como se o que ocorreu agora no revigoramento da direita que encontrou guarida no Congresso Nacional ao ponto de levar adiante um impeachment ridículo fosse fruto da recessão consequência das próprias políticas do segundo governo da presidenta Dilma Rousseff. É claro que a recessão atual foi fundamental para a direita ficar dona da situação. Só que o Congresso Nacional tornou-se um parlamento assumidamente de direita na eleição de outubro de 2014 e não depois da recessão. Aliás, como eu venho repetindo há bom tempo: Eduardo Cunha teve 267 votos na eleição para presidente da Câmara dos Deputados e ganhou a eleição em primeiro turno sem os 100 votos alcançados pela candidatura da oposição (Júlio Delgado) na Câmara de Deputados eleita em outubro de 2014.

      E ademais, a Laura Carvalho jogou a culpa toda na presidenta Dilma Rousseff pela recessão econômica, esquecendo que foi o estrago ocorrido na economia no terceiro trimestre de 2013 que deixou o governo sem alternativa senão fazer a recessão em 2015, para que o país pudesse enfrentar sem desgoverno a desvalorização do real que era previsível, necessária e inadiável diante de um dólar que se fortalecia com a lenta retomada americana. Desvalorização previsível porque ocorre sempre que a economia americana antecipa a sua recuperação econômica em relação aos outros países.

      Clever Mendes de Oliveira

      BH, 28/04/2015

  2. os monstros da intolerancia

    os monstros da intolerancia começaram a pintar desde que lula iniciou

    seu governo em 2003, através de matérias da grande imprensa já golpista,

    mas que posavam de defensoras da liberdade de imprensa,

    digo, de empresa, isto é, de interesses de mercado, isto é,

    de produtos de empresas que representam os grandes interesses multinacionais…

    matérias já preconceituosas contra o bolsa família, como as

    sucessivas matérias da folha de são paulo…

    foram com ogempo construindo o tal clima golísta…

    lembre-se das infamias e baixarias das eleições dos últimos

    tres    pleitos  presidenciais, em que a direita conluiada com

    o verdadeiro partido da oposição – a grande mídia golpísta –

    esculachou o governo e o movimentos populares…

    depois disso, seria mais fácil para a direita e os interesses internacionais

    e nacionais da direita formatarem o plano do golpe,  xom as manifestações

    montadas como se fossem  movimentos espontaneos, quando, na

    verdade, eram esquematizadas, já financiadas por grande empresarios,

    segundo suponho, já pelos  irmãos koch, que subsidiram os movimentam que se estruturaram nesse tempo.,…

    muitos engoliram essas manifestações como se fossem novos movimentos

    em favor sda democracia, quando na verdade, como

    se comprovou, já faziam pare da montagem do golpe…

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