Síria não é uma questão de “bem e mal”

Desde 1971, o entreposto comercial e base logística da Armada Russa no porto natural de Tartus, litoral da Síria, é um ponto estratégico para os governos da antiga URSS – atual Rússia.
 
No porto de Tartus não há uma base de marinha de guerra russa, mas esse porto serve como um apoio logístico no intercâmbio comercial realizado pela Rússia e países do Oriente Médio, além de ser um ponto de abastecimento e manutenção de seus bancos. Tartus também é importante, pois, concede à Rússia um acesso privilegiado às reservas de petróleo e gás exploradas por empresas russas no interior do território sírio.
 
A Síria também é um importante cliente da indústria bélica russa. Outro aspecto importante da localização da Síria é que a mesma serve de rota alternativa ao transporte de petróleo da região.
 
Um ataque liderado por EUA, França e Israel poderia ferir gravemente os interesses russos na região, além de enfraquecer a posição estratégica desse país, ao vulnerar suas posições militares no Mar Negro e de seus aliados iranianos. 
 
Os vídeos mostrados na internet sobre um suposto ataque do exército sírio com armas químicas aos “rebeldes”, no último dia 21 de agosto, apresentam erros grosseiros – como terem sido postados no YouTube antes dos fatos terem acontecido [dia 20]; médicos atendendo, sem proteção, a crianças supostamente contaminadas com gás sarin; procedimentos médicos errados; e falta de sinais de intoxicação nas vítimas que aparecem nos primeiros vídeos – levantam dúvidas sobre as intenções “humanitárias” de uma intervenção militar de Washington, Paris e Tel Aviv na região!
 
EUA, França e Israel, além de Arábia Saudita, Qatar e Jordânia, infiltraram, no levante popular sírio de 2011, centenas de mercenários desmobilizados nas guerras do Iraque e Afeganistão, além de jihadistas (guerreiros “santos”) treinados na doutrina wahabita (a doutrina islâmica mais conservadora atualmente existente, muito difundida na Arábia Saudita), que desencadearam a Guerra Civil Síria. Que, por sua vez, nos últimos meses, evidenciou o caráter “selvagem” desses grupos de “rebeldes”, a tal ponto de Putin ter denunciado, em 16 de junho deste ano, que tais jihadistas comem o coração de suas vítimas (estas imagens terríveis podem ser vistas no YouTube).
 
A questão síria não é uma questão de “bem e mal”, mas sim um “teatro diplomático intrincado” que coloca em risco a vida de milhões de seres humanos, podendo ter consequências incalculáveis!
 
Paulo Henrique é analista de política internacional

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