Sobre museus, doações… e elites, no Brasil e na França, por Sérgio Guedes Reis

Uma forma de compreender, portanto, como as elites em um dado país atuam em sua função dirigente em sentido amplo é ver como elas lidam com os museus.

Sobre museus, doações… e elites, no Brasil e na França

por Sérgio Guedes Reis

Os museus exercem uma função no mínimo ambígua nas sociedades modernas. Eles representam, por um lado, a consagração da “invenção das tradições”, como na expressão do historiador Eric Hobsbawm: eles aglutinam produções culturais e lhes validam como elementos capazes de formar identidades – obras que simbolizam nações, ou projetos de civilização, ou conceitos fundamentais e valores, ou modalidades de expressão artística. Por vezes, museus abrigam inclusive pilhagens, bens surrupiados em guerras ou contrabandeados por mercadores em tempos (nem tão) imemoriais. Mas museus são, também, fontes essenciais de conhecimento e de resistência. São ferramentas poderosas que podemos ter ou usar para nos lembrarmos do que é (intencionalmente ou não) esquecido ou apagado da memória popular. Museus são tecnologias em disputa.

Mas uma característica essencial de muitos museus, notadamente os chamados Museus Nacionais, é o de encapsular narrativas cuidadosamente produzidas pelas elites locais para justificar as razões de sua própria existência e os porquês de sua dominação. Ou seja, esses museus funcionam como estratégias consolidadas de transmissão intergeracional de certos valores – aqueles que fundam a própria ideia de nação e, portanto, legitimam a estrutura social e as práticas culturais tais como ocorrem. Portanto, museus são estruturas institucionais essenciais para o chamado state-making (o processo de fundação das bases organizacionais a partir das quais o poder é exercido). E o state-making é função precípua dos setores dirigentes – aqui genericamente tratados como elites. Por isso é que mundo afora, mesmo em contextos de flagrante escassez material, observamos museus nacionais relativamente bem conservados e configurados como grandes centros de recepção – de turistas, cidadãos, crianças. E as construções narrativas são envolventes, já que o que está em jogo é, digamos, o “melhor” de um país.

Uma forma de compreender, portanto, como as elites em um dado país atuam em sua função dirigente em sentido amplo é ver como elas lidam com os museus. Vivemos recentemente no Brasil a terrível tragédia do incêndio do Museu Nacional, o qual destruiu milhares de obras de imensurável valor, bem como o prédio bicentenário onde se localizava. O número de visitantes anuais ao museu, contudo, tinha sido consistentemente baixo nos últimos anos: 120 mil pessoas em 2016, 192 mil pessoas em 2017. No Louvre, em Paris, o 3º país estrangeiro com a maior quantidade de turistas visitantes em 2017 foi … o Brasil: 289 mil pessoas. Em quaisquer dos últimos 10 anos, os brasileiros estiveram entre os mais ativos visitantes ao museu francês (em 2012, por exemplo, só perdemos para os EUA).

Há quem possa argumentar que o Louvre é um museu com pretensões globais, dotado de incomensuráveis recursos e coleções prestigiadas. É verdade. Mas é verdade também que a quantidade de dinheiro despendida para a manutenção de museus constitui não um evento fortuito da natureza, mas sim uma decisão racional de tomadores de decisão. E talvez esses tomadores de decisão não queiram eles mesmos desfrutar de seu principal museu – uma decisão, como os dados indicam, não seguida, por exemplo, pela elite francesa (pois salões, teatros e vernissages sempre foram espaços históricos de congregação e socialização de classes dirigentes). Poderiam essas elites, então, querer que os demais cidadãos frequentem esses museus, sendo essa uma condição importante para a consolidação de uma identidade nacional. Não, nada feito no caso brasileiro. Ao que parece, nossas elites trabalham a sua visibilidade no estrangeiro.

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Parece essa uma crítica exagerada? Pensemos por um momento no lamentável incêndio que acometeu a Catedral de Notre Dame, um dos grandes símbolos da identidade francesa – e depositária de várias relíquias que compõem o imaginário cristão. Em coluna no Globo, Ancelmo Góis comenta que, em 24 horas, o Louvre já conseguiu captar aproximadamente 2,6 bilhões de dólares em doações, dinheiro a ser utilizado na recuperação do edifício. Em 7 meses, o Museu Nacional captou… 1,1 milhão de reais. Em um dia, o valor recolhido na França correspondeu a cerca de 60 mil vezes o obtido no Brasil ao longo de mais de 200 dias – por dia, a arrecadação no Brasil foi de 5200 reais. Os dados são de uma eloquência olímpica, mas talvez alguns questionem a respeito da nacionalidade dos doadores à catedral francesa. Uma matéria da CNN nos esclarece que os três franceses mais ricos foram, sozinhos, responsáveis pela entrega de 700 milhões de dólares para a recuperação da Notre Dame. Lily Safra, uma das pessoas mais ricas do Brasil, também doou… para Notre-Dame: 88 milhões de reais, como aponta uma reportagem do UOL. Reportagem da Folha de São Paulo nos informa que, no caso do Museu Nacional, apenas 15 mil reais vieram de pessoas jurídicas; 142 mil reais vieram de pessoas físicas e 950 mil reais de outros governos (Alemanha e Inglaterra).

Há, ainda, quem possa eventualmente argumentar que, bem, “as elites francesas são em média bem mais ricas do que as brasileiras”. Ledo engano. Considerando dados para 2014 (comparação mais recente disponível entre Brasil e França), Piketty e Morgan (tabela abaixo) mostram que o 1% com rendas mais altas no Brasil (cerca de 1,4 milhão de pessoas) auferiu em média 420 mil euros. O mesmo grupo, na França, acumulou 350 mil euros. E quanto mais subirmos na pirâmide social, maiores serão as diferenças: considerando apenas o 0,001% com rendas mais altas (cerca de 1400 indivíduos), o total acumulado no ano no Brasil foi de, em média, quase 42 milhões de euros; na França, não chegou a 13 milhões de euros (estudo mais recente, de 2016, sugere que nossas elites ganharam ainda mais: 53 milhões de euros). Ou seja, a elite da elite no Brasil faz pelo menos quatro vezes mais dinheiro ao ano (!) do que os seus pares na França. É importante ressaltar: estamos falando de renda, e não de riqueza. Ou seja, de “salários”, “lucros”, “dividendos”, etc. O que chama ainda mais atenção é que a França é uma potência industrial e de serviços (como o próprio turismo). Ou seja, há acúmulo de capital o qual, de alguma forma, pode explicar rendas elevadas. No Brasil, ao que parece, esse dinheiro vem de outras fontes…

Nada do que é dito aqui tem a pretensão de exaltar as elites francesas, mas sim o de indicar que as nossas, muito claramente, sequer cumprem o seu papel mais trivial. De costas para o próprio Brasil, nossas elites parecem preferir uma espécie de inserção subordinada e individualizada no circuito global. Longe de atuarem na função de representante nacional no exterior – algo que serviria aos seus próprios interesses em âmbito local –, os setores dirigentes aparecem frente aos demais sequer como fração de classe. Comportam-se como um lumpesinato que amealhou muitos bens, mas que deu “azar” de ter nascido nessa terra. Se a qualidade das elites for um pré-requisito para a construção do Estado (e de seu aparelho), então estamos em péssimos lençóis. Se não pudermos prescindir de elites mesmo no longo prazo, precisamos de uma capaz de exprimir o Brasil na sua constituição: menos branca, menos masculina, menos cis, menos (ultra) cristã, menos conservadora, menos provinciana, menos autoritária, e menos rentista. Sem essa constatação no horizonte como questão prioritária (o que implica repensar, por exemplo, todo o processo de ingresso em cargos públicos e eletivos), nenhum projeto minimamente avançado em termos sociais será sustentável.

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12 comentários

  1. A elite brasileira fala no Brasileiro em terceira pessoa, não gosta da história, pois ela é um testemunho da sua ganância e crueldade. A elite brasileira tem medo e ódio de negros e índios, pois ambos são testemunhos de holocaustos aqui nas terras abaixo de Equador. Ela tem medo dos operários e do lumpen, pois também são testemunhos da crueldade, e ela bate palma para polícias e milícias, achando usual e normal que as pessoas vivam fugindo de balas perdidas e snipers com suas balas achadas. A elite brasileira tem como representante máximo um certo juiz que defende as mortes sob pressão e forte emoção e em sua oratória e peças judiciais demonstra que é pouco afeito à cultura. Assim como esta elite iria se preocupar com um museu nacional. Seus heróis os Lehmans etc… devem estar na lista de doadores para Notre Dame. E para finalizar a Elite brasileira em nome da Reforma Trabalhista e da Previdência apoia um expoente da cultura atualmente na presidência da república.

  2. Primeiro, não é possível comparar a exceção do acidente europeu com a regra da previsibilidade brasileira. Segundo que o dinheiro doado chegará ao Museu na França. Aqui no Brasil nunca foi falta de dinheiro. O dinheiro chega às Elites do Estado Absolutista Ditatorial Fascista Esquerdopata, que diz não ser Elite. Neste caso do Museu Nacional controlado pelo PSOL. Partido de Extrema Esquerda. Mas vamos diminuindo nossa discussões e realidades com muita Censura e cobrindo o sol com a peneira. Façamos isto novamente. É a mesma regra com a saúde, a mesma com a Educação e seu Orçamento Bilionário controlado por MEC e Sindicalismo Pelego dos Professores deste o Golpe Civil-Militar Fascista de 1930. Me perdoem, o MEC não é de 1930? E o Brasil não é de muito fácil explicação? O Brasil dissociado da sua População. O Brasil dos Representantes do Povo. Até a Brasileira corre em ‘proteger’ sua pátria na França. Mas tem outro aspecto ainda pior nesta história. Pelas milhares de vítimas do ciclone na África, a ONU teve que implorar por alguma doação. Fica explicito que a HUMANIDADE tem cor, origem e nacionalidade.

  3. Não admira que a elite brasileira seja muito mais rica que a elite européia.
    Ela tem mais população, espaço e recursos para explorar.
    Sobre a doação da nossa bilionária caridosa ao Louvre em vez do nosso Museu Nacional Queimado,
    ela deve ter feito o exercício frio e lógico de que “o dinheiro é meu, eu dou pra quem eu quero.”
    Ademais, museus históricos realmente massageiam o ego da casta dominante.
    Que o digam as roupas ensebadas do imperador no Museu do Ipiranga(agora em reforma)
    PS – Análise muito boa.

  4. Quando houve o terremoto no Haiti, li uma declaração de alguém da ONU, salvo engano meu, dizendo que após uma catástrofe, chovem “doações” de valores elevados mas que na verdade poucas se realizam de fato. Ou seja, num primeiro momento o doador aparece na mídia, é badalado como bom caráter, etc, etc. Depois…doação tão grande? Que é isso, companheiro? Fui mal interpretado. Não falei milhões…

  5. Se me permitirem : PIRAPORA DO BOM JESUS e ITU são dois Museus a Céu Aberto. Duas histórias vivas do Barroco Paulista, bem próximas da Capital. Uma logo atrás do Alphaville, com chegada por Barueri, Santana do Parnaíba, Araçariguama, Cajamar, Polvilho, Jundiaí, Cabreúva. O caminho pode escolher, é muito fácil. Outra na mesma região a 1 hora das Marginais. Na SEXTA FEIRA SANTA, um espetáculo da fé cristã e católica nas Romarias até Pirapora. No Domingo, ao Meio Dia, o espetáculo quase centenário da MALHAÇÃO DO JUDAS na Praça da Matriz em Itu. O Brasil dos Brasileiros

  6. As doações tem vários significados para a elite. Além de santificar seu nome como alguém que faz o bem, e claro uma excelente propaganda para si e/ou sua empresa, pois mostra sua capacidade financeira, há também um fator que não é falado. Doações tem um generoso desconto de renda em certos países, coisa esquecida pela mídia talvez para não tirar o glamour das doações ou não estimular doações anônimas que tiram assunto das matérias e outras hipóteses a mais.

  7. Lily Safra é a maior doadora para ciências no Brasil. Ela doa milhões de dólares todos os anos para hospitais, ONGs, institutos de pesquisa e outras entidades. Somente para o Instituto Internacional de Neurociências, sediado em Natal / RN e considerado um dos mais importantes no mundo, ela doou U$ 20 milhões. Mas você não lê isso no site do instituto, nem no verbete da Wikipedia e nem em 99% das matérias que falam do instituto. Ou seja, a pessoa doa, a esquerda omite porque não quer nenhuma relação com capitalistas, a midia xinga o doador por não doar (já que ninguém divulga que houve a doação) e depois se espera que outras pessoas doem também.

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