Temer gasta com propaganda para enfrentar a crise, por Laura Carvalho

Jornal GGN – Em sua coluna na Folha de S. Paulo, a professora da FEA-USP, Laura Carvalho, comenta a “dispendiosa campanha” veiculada pelo governo Temer para convencer a opinião pública sobre as medidas necessárias para a melhora nas contas públicas.

Para a professora, as propostas do governo federal são a causa do problema e não vão fazer a economia brasileira voltar a crescer, argumenta que o congelamento proposto pela PEC 241 vai forçar uma redução ainda maior nos investimentos públicos em proporção do PIB.

“Qual empresário vai investir em novas máquinas se a capacidade ociosa da indústria continua aumentando e mal há dinheiro para pagar dívidas anteriores?”, questiona.

Leia a coluna completa abaixo: 

Da Folha

 
Laura Carvalho

“Essa foi a situação encontrada pelo governo”, grita a dispendiosa campanha veiculada nos principais jornais do país na quarta-feira (5). A longa peça publicitária estampa um retrato detalhado das consequências da crise econômica que vivemos e do ajuste fiscal iniciado em 2015.

Tentando esconder a participação de Temer e de parte de seus ministros no governo eleito e derrubado, o anúncio enumera despesas federais não pagas; transferências atrasadas a Estados, municípios e organismos internacionais; obras públicas inacabadas por falta de recursos, e até prejuízos de empresa estatais.

“Vamos tirar o Brasil do vermelho para voltar a crescer”, convoca a frase-título que manda o país de volta aos tempos da Guerra Fria. Mais fácil que pescar o trocadilho é perceber que as propostas que o governo coloca na mesa estão na origem do desastre e não vão levar à retomada do crescimento. Menos ainda ao saneamento das contas públicas.

A receita defendida e adotada desde o ano passado para nos tirar de um quadro fiscal deteriorado pela crise econômica –e a consequente queda de arrecadação tributária– está justamente na origem de boa parte dos problemas elencados. A aprovação de um deficit maior (de R$ 170 bilhões para 2016 e R$ 139 bilhões para 2017) pode até servir para quitar pagamentos atrasados, que são em grande medida o resultado do contingenciamento recorde em 2015 de gastos e do corte de despesas efetivas de cerca de 3% em termos reais –sendo mais de 30% nos investimentos.

Mas não é essa a mensagem dos publicitários do governo, que parecem querer vender a ideia de que farão um ajuste fiscal ainda mais rigoroso. As contradições são muitas.

Primeiro, se o corte de gastos nos próximos anos fosse ainda mais drástico do que o realizado pelo governo Dilma no ano passado, as obras mencionadas como inacabadas jamais seriam concluídas. No entanto, a PEC do “teto” de gastos, que a propaganda quer ajudar a aprovar, em nada garante esse caminho. O limite previsto pela PEC 241 para o crescimento das despesas é dado pela taxa de inflação do ano anterior, o que permite um aumento real de gastos enquanto a inflação cair.

Segundo, obras inacabadas só existem quando há obras iniciadas, o que passa longe dos planos do governo Temer para o futuro. Um congelamento no total das despesas de cada Poder forçaria uma redução ainda maior nos investimentos públicos em proporção do PIB.

Terceiro, não há ajuste fiscal possível sem o crescimento das receitas do governo, o que por sua vez depende da eliminação das desonerações fiscais e da própria retomada do crescimento econômico. Note-se que, ao contrário do que se costuma propagar, as despesas desde o primeiro mandato de Dilma Rousseff cresceram menos do que nos governos anteriores. O problema é que as receitas também.

Mas como retomar o crescimento desligando de vez o motor dos investimentos públicos, se o resto do mundo ainda patina e a massa de desempregados não contribuirá em nada para uma retomada do consumo e das vendas? Qual empresário vai investir em novas máquinas se a capacidade ociosa da indústria continua aumentando e mal há dinheiro para pagar dívidas anteriores?

A propaganda de governos autoritários costuma combater seus adversários canalizando os temores com a crise para bodes expiatórios, mas preocupam-se em entregar alguma coisa: emprego, renda, crescimento econômico. Concentrar os investimentos públicos em publicidade pode ser pouco para galvanizar algum apoio popular.

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9 comentários

  1. Pergunta de curioso… Aonde

    Pergunta de curioso… Aonde estão as reservas internacionais que os governos Lula e Dilma criaram com um considerável esforço? Ainda estão nos cofres do país ou já foram discretamente direcionadas para pagar a conta do golpe de estado? Ou se os conspiradores são ainda mais arrogantes do que eu imagino, já foram repartidas para contas bastante discretas no Panamá, Suíça e Ilhas Virgens? Que não custa lembrar ao considerar que vocês têm criminosos no controle do governo que o cofre da casa estava cheio antes da dona da casa ser expulsa pelos ladrões.

  2. A professora Laura Carvalho

    A professora Laura Carvalho vai direto ao ponto, a ajuste fiscal é recessivo até não poder mais, o governo poderia fazer política de gastos públicos, e como mencionou a André Araújo em outro post, o governo tem o dever de fixar os juros da dívida pública (não há alternativa aos títulos públicos).

    A propósito, se algum aluno da professora estiver lendo, qual matéria a Laura leciona na USP? Gostaria bastante de ter acesso ao material didático dela.

     

  3. A mesma besteira…

    …da Dilma quando surgiu com Levy, O Breve. Achar que desempregando pessoas indiretamente –  tirando dinheiro de circulação – pela redução da atividade economica do Estado enquanto tenta reduzir uma inflação relativamente controlada através de uma recessão, fará com que o país cresça magicamente movido pelas forças inexoráveis do otimismo é muita ignorância.

    Ainda que tenha seu peso a confiança e otimismo nem uma multidão de belas-recatadas fará com que se tenha alguma coisa parecida com o Usurpador e sua equipe de patetas no Governo Federal.

    Seguem linhas perfeitamente paralelas com a tola tentativa anterior.

    Na primeira tentativa criam que reduzindo a atividade economica (diminuindo receitas de impostos), aumentando juros (aumentando as despesas federais) fariam algum bem. Nesta somam a aplicação de uma recessão e o aumento de despesas via juros com o esmagamento de importantíssimo ator economico que é o Estado querendo ter resultados diferentes da experimentação anterior. Criaram uma fórmula ainda pior.

    A melhora só virá com MAIS atividade e não com menos. Enquanto persistirem com o não-trabalho (que é o rentismo) não haverá nada de positivo.

  4. Dentro desse mesmo espírito

    Dentro desse mesmo espírito de marketing o USURPADOR GOLPISTA confessa a sí mesmo que sente necessidade de equilibrar a balança religiosa que pesa flagrantmente em favor das  pentecostais acoitadas em seu governo. Procura desesperademente um PADRE. Mas vai logo avisando: TEM QUE OBEDECER AOS PADRÕES ÉTICOS E MORAIS que orientam suas escolhas. É imprescidível que seja um PEDÓFILO. 

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