Uma escolha difícil 4, por Eliara Santana

O primeiro ponto é que o editorial fala do “medo” de Lula e Bolsonaro, mas a maior parte do texto é sobre Lula, ou melhor, é para defenestrar Lula, falar de corrupção ligada somente ao PT e a Lula.

Uma escolha difícil 4

por Eliara Santana

A continuar nesse ritmo de pérolas editoriais, creio que, até 2022, eu escrevei “Uma escolha difícil parte 100” para comentar os editoriais do Estadão. A bola da vez foi o editorial de sábado, 24 de julho.

Segundo o jornal, Lula e Bolsonaro – que se equivalem na tal “polarização”– criticaram ao mesmo tempo a chamada terceira via. Diz o editorial que “os dois temem que haja um terceiro candidato competitivo nas eleições de 2022 e não perdem oportunidade de desautorizar uma candidatura viável de centro”. A tônica do editorial é que Lula e Bolsonaro se equivalem no radicalismo e na “estreiteza de horizontes políticos” e que temem um candidato de terceira via (que deve ser o salvador da Pátria, segundo sonha o Estadão).

Não vou discutir aqui a desonestidade jornalística do jornal Estado de São Paulo em comparar Lula a Bolsonaro – já falei sobre isso nas outras versões da “Escolha Difícil”. Vou me ater, dessa vez, a alguns aspectos que acho bem interessantes nesta versão.

O primeiro ponto é que o editorial fala do “medo” de Lula e Bolsonaro, mas a maior parte do texto é sobre Lula, ou melhor, é para defenestrar Lula, falar de corrupção ligada somente ao PT e a Lula. O texto tem sete parágrafos falando mal de e vociferando contra Lula (um ex-presidente que tirou milhões da miséria no Brasil e que foi absolvido pela Justiça contra todas as acusações e armações) e três falando de Bolsonaro (atual presidente que deixou a pandemia explodri por aqui e se recusou a comprar vacina para a população, entre outras coisas que a CPI está desnudando). Ou seja, mais que uma comparação de sujeitos incomparáveis, o editorial revela um problema não resolvido do Estadão – e do agrupamento que ele representa – com o ex-presidente.

Outro ponto interessante é que o jornal projeta um candidato a santo e não um representante da terceira via. Diz o editorial: “Além de mostrar a estreiteza de horizontes políticos que Lula e Bolsonaro querem impor à população, a tática revela a plena viabilidade de um candidato honesto, competente e equilibrado. De outra forma, Lula e Bolsonaro não estariam tão empenhados – quase que de mãos dadas, pode-se dizer – ridicularizando uma candidatura de centro”. Quem é esse candidato santo, com tantas qualidades e ungido pela Barão de Limeira? Onde ele está que ainda não apareceu para nos salvar? Ele só emerge se não existirem Lula e Bolsonaro? Onde habita, de que se alimenta, o que faz esse santo da terceira via?

No twitter, Lula disse o seguinte: “A 3ª via é uma invenção dos partidos que não têm candidato. Falam em polarização… O que tem de um lado é democracia e do outro é fascismo. Quem tá sem chance usa de desculpa a tal da 3ª via. Seria importante que todos os partidos lançassem candidato e testassem sua força”.

Segundo a interpretação do Estadão, ao dizer isso, Lula explicita que tem “receio de que haja uma reunião das forças democráticas em torno de um candidato de centro viável”. De novo, pergunto: quem é essa sumidade que não aparece e porque ela depende tanto da neutralização de Luiz Inácio para emergir em sua plenitude?

E para fechar as críticas a Lula, diz o Estadão, comentando o tuíte do ex-presidente: “Como se pode ver, Lula não mudou nada. Coloca-se, nada mais, nada menos, como a própria representação da democracia e, para completar o atrevimento, rejeita a possibilidade de que exista uma outra candidatura viável para enfrentar Jair Bolsonaro. É a “democracia” nos moldes petistas – só é democrático quem apoia Luiz Inácio Lula da Silva”. No tuíte, Lula diz claramente que seria interessante os partidos apresentarem candidatos e testarem sua força. Em que momento isso é uma rejeição à possibilidade de outros candidatos participarem do pleito de 2022 para derrotarem Bolsonaro? Em que momento isso é uma postura antidemocrática?

Além disso, reparem num detalhe que o discurso revela, apesar de os sujeitos quererem omitir: o editorial fala em “atrevimento”. Ou seja, Lula, ex-presidente que saiu com a maior avaliação da história do Brasil, é um atrevido, segundo o Estadão, por pensar em concorrer novamente quando tem, vejam só, 46% das intenções de voto mesmo depois de ter passado mais de um ano preso injustamente e de ter sofrido uma campanha indecente de condenação sumária em função de uma corrupção nunca provada.

Podemos inferir que, pela concepção do jornal, ele, para não ser caracterizado como “atrevido”, deveria pegar os seus 52% de votos válidos (dados revelados pela última pesquisa Datafolha), colocar num saco e servir de escada para um espectro – ainda sem nome, sem rosto, sem cor e SEM VOTO – da chamada terceira via.

Agindo assim, Lula certamente deixaria de ser “atrevido”, não seria mais comparado a Bolsonaro, e seria talvez considerado “sensato” politicamente pelos donos do poder e da mídia no Brasil.

Será que se Lula aceitar servir de escada para tucanos (sim, a terceira via, para ser linda, leve e solta deve ter um tucano – raiz ou pintado) que não conseguem voto – tipo Tasso Jereissati –, sendo vice de um deles, como chegou a sugerir um colunista de O Globo, o Estadão vai achar que ele não tem mais “estreiteza política”?

Assim sendo, seguindo o raciocínio do jornal, imagino então que astúcia política é ter 46% de intenção de votos no primeiro turno, sem fazer campanha, e mesmo assim abrir mão em nome de um espectro inexistente ou de um nome inexpressivo de um partido que aderiu ao golpe de 2016 e apoiou a prisão injusta do sujeito que tem 52% dos votos válidos atualmente.

O editorial, num tom indignado, diz que “Lula não pediu desculpas à população pelos escândalos de corrupção do PT nem pelo desastre econômico que foi o governo de Dilma Rousseff. Também não explicou a razão pela qual está envolto em tantos processos penais, processos nos quais se defende por meio de questões formais. O País não ouviu até hoje do ex-presidente Lula nenhuma explicação para tantos mimos e agrados recebidos de empreiteiras”.

Engraçado, eu também não me lembro de ver o Estadão exigindo que FHC pedisse desculpas ao país porque, em seu governo, em 1999, um concurso para gari no Rio de Janeiro levou à fila centenas de engenheiros, dada a situação de desemprego e estrangulamento da renda da população à época do iluminado presidente. Nem vi cobrarem por “mimos” recebidos em forma de reforma de apartamento.

Prosseguindo, diz o editorial: “Uma candidatura viável de centro exigirá que Lula explique o passado do PT e apresente um mínimo de propostas para o País. Já não bastará ficar falando mal de Jair Bolsonaro, como se algumas palavras de crítica por si sós pudessem lhe dar credenciais para merecer a confiança e o voto da população”.

Ótimo, concordo: deixemos então que Lula fale de propostas e não somente sobre Bolsonaro. Deixemos que ele mostre em comícios, debates e entrevistas – que nenhum grande veículo de imprensa teve a hombridade de fazer – quais são as propostas do PT e dele para o país. Deixemos que ele debata com a segunda, terceira, quinta via essas propostas. Se, segundo o jornal, Lula tem “medo” do espectro da terceira via, os meios de comunicação têm medo de que Lula possa falar e falar e falar…

Para fechar, diz o Estadão que “o medo dos dois é rigorosamente a esperança do país”. Seria bem interessante que o Estadão pudesse explicar a que país ele se refere – o país da Faria Lima? Da desigualdade brutal e vergonhosa? Da economia que só privilegia certos setores?

Mas, como atrevimento é uma coisa boa e a gente gosta de mantê-lo aceso, é sempre bom lembrar as palavras de dona Lindu: “Teime Luiz. Teime”. O Brasil que não tem helicóptero e está de volta à fila de ossos precisa do seu atrevimento.

Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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