Velha questão Vol. 3: a complicada relação PT x PSOL, por Romulus

– Post originalmente publicado em 15/8/2016.

Velha questão: direita unida, esquerda estilhaçada. Vol. 3: a complicada relação PT x PSOL

Por Romulus

– A esquerda “pura”: “não fazer política” é também “fazer política”, ora.

– Nicho nanico mas certo: o conforto do pequeno, mas seguro, quartinho na casa dos pais.

– Minorias relevantes da sociedade a quem o “petismo” não apela: esquerda “pura”, anti-petistas e “centristas”.

– Perspectivas temporais diferentes: (i) a “Guerra” e (ii) as “batalhas”. Ou seja, a luta de 10 mil anos entre proprietários e despossuídos; e a luta de cada geração em particular dentro desse conflito (eterno).

– Da metáfora à realidade: PT, lesa ao Estado e fim do Estado do bem-estar.

– Exemplos concretos: diferença entre exceções e avessos. As atuações de Jean Wyllys, Paulo Pimenta, Tarso & Luciana Genro.

– Bônus (de peso): Delfim Netto, a cabeça por trás do fim do Estado social da Constituição de 88. Resisto e não usarei a expressão “gênio do mal” (bem… não usarei de novo, né?).

*   *   *

(a) Minorias relevantes no cenário político partidário fora do “petismo”: esquerda “pura”, anti-petistas e “centristas”

(i) Esquerda “pura”

Metáfora:

– De um lado, o conforto do pequeno, mas seguro, quartinho na casa dos pais, onde a mãe não exige muitas concessões do rebento querido.

– Do outro, o desafio de “crescer”, sair e ter de “comprar a casa própria”, “fazendo o que tiver de fazer” para consegui-lo. Ou, falhando, ficar pelo caminho. Sem nada.

Os dois tem vantagens e desvantagens, não?

Como muitos analistas constatam, a esquerda “pura”, por definição, renega a política “como ela é” (“suja”).

Mas notem bem: negar a “política como ela é ” também é fazer política!

[Hmmm… será aqui também fazer política “como ela é?”]

Por quê?

Ora, porque a esquerda “pura” ocupa, com esse posicionamento, o nicho político-eleitoral dos idealistas da esquerda “não pragmáticos”. Assim, toca-lhe conduzir politicamente o nicho correspondente no todo da sociedade. Ou seja, dá representação político-partidária às franjas mais à esquerda da sociedade.

Dessa forma, constitui – e mantém seguramente, longe da cobiça dos “não puros” – um feudo cativo para cada rodada eleitoral. Com esse expediente mantém – sem um grande esforço – um coeficiente eleitoral que não é grande, mas que é seguro e estável em tamanho. Tal estabilidade – e a decorrente previsibilidade – possibilitam carreiras políticas e seus planejamentos anos adiante.

– Calma, esquerda “pura” político-partidária! Não me xingue (ainda). Nada contra… é da natureza humana buscar, em alguma medida, segurança, não?

Isso, evidentemente, casado – em maior ou menor grau, como em qualquer campo político –  com apego a ideais e convicções.

Notem: esse coeficiente eleitoral, como disse, não é grande.

E é infinitamente menor que:

*

(ii) Anti-petistas

Bem sabemos, inclusive, que a esquerda “pura” dificilmente (nunca?) será majoritária. Isto é, provavelmente jamais ganhará “eleição para Presidente” enquanto se mantiver como tal. Isso porque a sociedade brasileira tem um bloco minoritário relevante – antigo e consolidado – de conservadores + reacionários.

Hoje essa banda da sociedade é facilmente identificável: trata-se do 1/3 de anti-petistas ferrenhos. Aqueles que chegam a ser hidrófobos em alguns casos. Bem… como sabemos, cada vez mais casos, não é?

*

Para completar o todo, a essas duas minorias relevantes – esquerda radical e anti-petistas – deve ser somada ainda um outro “1/3” da sociedade: o dos “centristas”:

*

(iii) “Centristas”

Escrevo a palavra “centristas” entre aspas de caso (bem) pensado. Isso porque, em geral, seus membros tendem a pertencer à parcela despolitizada da população. Parcela essa a priori aberta à sedução – seguindo considerações pragmáticas. É, portanto, objeto de disputa e conquista pelos dois polos antagônicos da política. De novo e de novo. A cada rodada eleitoral.

É o fiel da balança, que pende ora para um lado, ora para outro. E o faz muito mais pela conjuntura – aquilo que indicam “os ventos” e as “nuvens no céu” – do que propriamente por convicções político-ideológicas “centristas” (em sentido estrito). Ou seja, não têm nada a ver, por exemplo, com o ideário sintético de uma democracia cristã europeia.

A seu respeito, faço uma provocação:

 Como disse, trata-se de uma “parcela despolitizada, pragmática, aberta à disputa e conquista pelos dois polos antagônicos a cada rodada eleitoral. Fiel da balança, decide-se muito mais pela conjuntura – “ventos e nuvens” – do que propriamente por convicções políticas”.

Soa familiar?

Lógico que sim!

 São os “PMDBistas da sociedade!

[hehehe]

*   *   *

(b) A (grande) “Guerra da História”

– E mais um bônus de peso: Delfim Netto

O PT um dia já abrigou a tal esquerda “pura”. De si saíram PCO, PSTU, PSOL, etc., conforme o partido se moveu para uma posição de centro mezzo esquizofrênica:

– Ideário socialdemocrata combinado com prática econômico-liberal.

A contradição em termos dessa posição é flagrante, não?

E bem reflete o fio da navalha sobre o qual o lulismo sambou nesses 13 anos de “petismo” (qual?) na presidência.

Como na brilhante síntese de Felipe Gonzalez, ex-chefe de governo espanhol, falando sobre o governo do PSOE na Espanha, o PT “governou como se tocasse um violino: pegou e segurou com a esquerda, mas tocou com a direita!”

*

Vale discussão e a crítica sobre essa contradição, certo?

Certo.

Mas isso foi ontem.

Limito esta análise ao momento atual.

*

E hoje, fora do governo, o que é o PT (da “conciliação social” lulista)?

(Bem, o que tiver sobrevivido dele…)

Pela capilaridade do PT / CUT / Movimentos sociais alinhados, é difícil que surja, no curto e médio prazo, força política capaz de canalizar o mesmo potencial político e/ou eleitoral do PT. Isso é certo. Mesmo hoje quando, por circunstancias que todos conhecemos, esse potencial foi reduzido a uma sombra daquilo que fora.

Diante dessa (inexorável) realidade, na ação política, o campo da esquerda deve seguir – concomitantemente – dois horizontes distintos, que obedecem, cada um, a uma perspectiva temporal diferente.

(i) A primeira, a grande “Guerra da Historia“. Ou seja, a luta sem fim – sim… sem fim, meus caros! – que começou no dia em que, mais ou menos 10 mil anos atrás, um agricultor pioneiro teve a ideia de colocar uma cerquinha no pedaço de chão que arava e de dizer, depois, que era (apenas) seu.

Essa luta, como disse, é sem fim.

Ou melhor:

Terminará apenas no dia em que o animal homem, “o terceiro chimpanzé” – expressão cunhada pelo genial biólogo evolucionista e polímata Jared Diamond em livro homônimo – for extinto do planeta em um grande “Colapso” – titulo de outro livro do autor, de quem sou fã.

*

Pois bem.

Ficamos então em grande “Guerra da Historia” e “luta sem fim”.

E o que é que anima o “nosso campo” nessa grande guerra?

“Solidariedade e combate às injustiças”

Grosso modo, a luta pela:

(i) eliminação, tanto quanto possível, dos privilégios (“meritocráticos”??) na saída, de forma a não perpetuar aquilo que Delfim Netto chamou de “loteria do nascimento”. Nessa perspectiva, tornam-se capitais acesso a moradia, saúde – com boa comida, é claro – e educação de qualidade.

Isto é: saúde, educação e moradia dignas para todas as crianças – seja “do morro”, seja “do asfalto”. Se isso é um ideal distante, cumpre pautar todas as ações do presente pela busca – incessante – desse ideal;

(ii) mitigação das desigualdades “na chegada”: políticas sociais compensatórias à la Bolsa Família, mas não apenas. Ou seja: a garantia de um mínimo existencial, englobando acesso a moradia, saúde, educação (continuada ao longo da vida, por que não?), cultura, segurança, etc.

Isso porque o acesso a direitos básicos como esses não decorrem – ou não deveriam decorrer – nem do nascimento nem da trajetória individual pela vida.

Decorrem da dignidade da pessoa humana.

São direitos inerentes à condição de ser humano. Sem qualificações do ser humano em questão ou outros senões.

Ponto.

Ao que parece, não estou só nesse entendimento. Todo o planeta concorda.

Bem, pelo menos de boca…

Não está tudo isso consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, de 1948?

Novamente: se isso é um ideal distante, cumpre pautar todas as ações do presente pela busca – incessante – desse ideal.

*

Bônus (de peso): Delfim Netto

Mencionei aí em cima Delfim Netto.

Sim… aquele que, para minha grande decepção, mostrou que a ele também faltou, em relação à sua biografia, a tal autocrítica que hoje se cobra tanto do PT. Sua adesão (de novo!) a um golpe e o embasamento intelectual que dá à chacina do incipiente Estado do bem-estar social, criado pela Constituição de 88, doem em quem, apesar de estar em campo oposto, admira seu intelecto, sua língua ferina e sua perspicácia. Três elementos que, combinados, nos renderam tantas tiradas memoráveis. Mordazes e geniais.

Inesquecível também sua trajetória na Administração Pública – malgrado a mancha autoritária que sobre ela pesa. Mancha essa, inclusive, que hoje está ainda mais escura.

Escura?

Sim: foi da lama para o piche quando um senhor – de quase 90 anos! – mostra não ter aprendido tanto quanto se supunha – e fazia-nos crer – no último meio século. Isto é, grosso modo, de 1964 para cá: o último meio século da sua vida. E também da do Brasil!

E olha que se trata de testemunha privilegiadíssima da História desse Brasil, hein?

Prefiro não reproduzir aqui trechos de incontáveis artigos seus dos últimos anos – leituras sempre prazerosas e enriquecedoras. Textos nos quais defendia que “mercado” e “democracia” funcionariam um como freio aos excessos do outro, numa dialética rumo ao progresso geral. E onde se insurgiu, diversas vezes, contra reacionários que pontificavam contra o aumento do “custo” da mão-de-obra, quando vivíamos o pleno emprego. “É inflacionário!”, queixavam-se. Delfim então os desnudava: “lutam contra o avanço da civilização!”.

Mas me permito, aqui, retorquir, Professor Delfim:

– Não é isso que o Sr. faz agora?

– Onde está aquela tal democracia (“urnas”, lembra?), que freava os excessos do mercado?

– Mudou de ideia?

– Ou melhor, voltou às antigas?

– Ou, na verdade, nunca as tinha deixado, lá no seu âmago?

Juro que não são perguntas retóricas!

Gostaria de verdade de ter respostas para essas indagações. Como já disse aqui, o drama humano me fascina. Mesmo quando me choca. Curiosidade de observador, Professor Delfim. Não de juiz.

*

Mas, deixando o drama de Delfim e decepções de lado, voltemos às duas perspectivas na ação política que proponho.

O (re?) nascimento de “um novo PT” (com esse nome ou outro), a se levantar da carcaça daquele que hoje é derrotado e, em verdade, escorraçado para fora da luta político-eleitoral-institucional, é desejável!

Diria até imprescindível para seguirmos lutando na tal grande “Guerra da História”. Caso contrário, periga de, em breve, ser imposto longo armistício, com termos muuuuuuito favoráveis ao campo adversário – o campo inaugurado pelo sujeito da cerquinha de 10 mil anos atrás.

Isso porque a degradação da representação político-eleitoral-institucional da esquerda levará a uma vitória por W.O. do outro lado.

Sim, eu sei: vitória feia.

Mas, ainda assim, vitória. E sairá derrotado, “sem luta”, o campo inaugurado por todos aqueles que, naquele fatídico dia – milênios atrás – ficaram do lado de fora da tal cerquinha.

*

Pois bem.

Coberta a grande “Guerra da História”, qual seria a outra perspectiva temporal?

*   *   *

(c) A “Batalha”: o golpe de 2016

(ou: a perspectiva da luta desta geração em particular)

Trata-se da perspectiva dos que – hoje – estão na “idade de combate” e escrevem o seu “capitulozinho” no interminável livro da guerra ancestral – a da História.

No meu esquema, há, pois, a “Guerra” e as suas “batalhas”.

Uma advertência (também a mim):

Temos de ter humildade para aceitar que a guerra nunca será vencida. Pelo menos não pelo lado que não é dono dos meios.

Para nosso horror, vemos agora – chocados – que não há sequer trincheira garantida. O avanço para frente não é inexorável. Pelo contrário: nosso exército pode, como hoje, ser forçado para trás, perdendo territórios que conquistara havia décadas.

Sim, muitos estamos chocados… e tal choque decorre de tratar-se da primeira vez que esta geração – a que cresceu da redemocratização para cá – testemunha um retrocesso. Sempre andáramos para frente ou, na pior das hipóteses, ficáramos parados no mesmo lugar.

Não mais. Hoje nos empurram bem para trás. E o objetivo é claro: seguir empurrando até nos arremessarem para dentro do abismo que conseguem enxergar ao longe. Veem esse abismo já com um sorriso discreto no rosto, que não chega a nublar a sua determinação. Fica mais adiante, no limite do campo de batalha.

*

Queixo de vidro

Passando da metáfora militar para a esportiva, nos toca debelar definitivamente esse choque, decorrente do retrocesso até então inédito, e fechar a guarda para depois partir, sem muita demora, para um contra-ataque.

Ou seja, cabe-nos mostrar que não temos “queixo de vidro”.

Sim, levamos um gancho arrasador nesse queixo.

É fato.

E ainda estamos atordoados.

Talvez com lesões importantes…

Cientes disso, temos de lutar da maneira mais esperta e eficiente possível.

Aceitemos: a força bruta está com o outro lado agora.

*

Muito bem.

Ficamos então em “Batalha de 2016” e “luta de uma geração”.

E o que é que anima o “nosso campo” nesta batalha?

Grosso modo, a luta pela mitigação das perdas de território, aumentando, ainda, tanto quanto possível, o custo da vitória para o outro lado.

Como na terrível Batalha de Verdun, na 1a Guerra Mundial, da mesma forma que os Alemães, mesmo perdendo nominalmente, temos de causar tantas baixas quanto for possível ao outro lado.

E isso inclui – nós sabemos e eles também – a disputa da narrativa histórica do golpe. A luta – no mercado de opinião – entre, de um lado, o golpe e os seus áulicos da velha mídia familiar, e, do outro, as novas plataformas de comunicação e os pensadores críticos aos quais essas plataformas dão voz.

O objetivo central da batalha é deixar o maior “território” possível – com o máximo de buffer zones (“gordura territorial” para queimar) – para a próxima geração.

Isso porque as armas “da direita” são hereditárias – e só se acumulam no passar de cada geração.

Até mesmo os braços que as empunham permanecem: ora, empresas – pessoas jurídicas – não morrem de velhice!

Já o “exército da esquerda” é quase que sazonal. Como nas estações do ano, ele nasce, cresce, floresce, frutifica e… morre.

A cada geração, tudo de novo…

Em vista disso, temos de deixar, tanto quanto possível, mais e melhores recursos para o próximo exército.

Para que possa se formar vigoroso e construir, a seu turno, as armas, as estratégias e as táticas de que disporá na luta do seu dia.

E, oxalá, consiga vencer algumas das batalhas que travarão contra “o outro lado”.

Lado que, pela hereditariedade e pela petrificação da estratificação social, está nos nossos dias mais para feudal do que propriamente capitalista.

*   *   *

(d) Da metáfora à realidade: PT, lesa ao Estado e fim do Estado do bem-estar

Da “guerra” já tratamos, ao dizer ser necessário um “novo PT para o amanhã”.

E na batalha?

– O PT “velho” (mais CUT e movimentos sociais alinhados) é “o que tem para o jantar” nesta noite escura e fria.

Ponto.

Sem perder de vista o longo prazo e a necessária autocritica para a sobrevivência de um núcleo forte de centro-esquerda – com potencial eleitoral majoritário – é preciso não perder nunca de vista que esse PT “velho”, “obeso”, “corcunda” e “caolho” – agora, além de tudo, “coxo”!* – é a arma mais eficiente de que o nosso campo dispõe para (i) aumentar o custo do golpe e (ii) mitigar ao máximo a “perda de território” que entregaremos à próxima geração.

[*Peço perdão pelas metáforas politicamente incorretas]

E que perda é essa?

(i) A inédita lesa ao patrimônio do Estado, com a alienação dos seus ativos artificialmente depreciados.

Essa ocorre, agora, em circunstancias ainda mais descaradas e ambiciosas que as da “privataria” dos anos 90.

E aqui “ambição” tem dois sentidos distintos:

– O primeiro refere-se à gigantesca escala da lesa que planejam; e

– O segundo, ao custo de “operação” dessa lesa. Ou seja, a quantidade de “graxa” requerida pelos “operadores” das máquinas para fazer as engrenagens rodarem para o “lado certo”.

– Salve o “Programa de Parceria de Investimentos” do golpe, não é?

– Salve o Ministro Moreira Franco!

(ii) o sacrifício (completo) – no altar de Mamon – do nosso incipiente Estado do bem-estar social.

Notem:

Somando os itens (i) e (ii) atende-se “ao Mercado”.

Mas há aí dois “mercados” distintos.

Como assim?

Ora, também ele – o mercado – não é um bloco monolítico.

Portanto, com o item (i) – a nova “privataria”, atende-se ao interesse das forças “produtivas” do capitalismo. Ou seja, aquelas que desenvolvem, de fato, atividade econômica.

Mas um mercado com sotaque

Até onde se vê – em virtude da concomitante implosão das empreiteiras (terá sido coincidência?) – atende-se a interesses “de mercado” exclusivamente estrangeiros – privados e/ou de Estado.

Já com o item (ii) – o sacrifício da saúde, da educação, dos investimentos públicos e da seguridade social – atende-se ao interesse das forças do capitalismo financeiro – os famosos rentistas. No caso, tanto as domésticas – FEBRABAN e as tais “10 mil famílias” credoras da dívida pública –  como as estrangeiras. Grosso modo, grandes fundos de investimento operados de Nova York ou de Londres.

É seguro afirmar que os interesses estrangeiros – que existem! – do bloco rentista são quase exclusivamente privados. Não enxergo ganho estratégico (direto) para Estado estrangeiro em agir comissivamente para permitir ganhos financeiros – diferente de ganhos econômicos – de particulares sob a sua jurisdição.

Esses particulares pagam tão pouco imposto sobre seus ganhos que nem sócio deles o Estado estrangeiro acaba sendo.

E o que querem os vorazes rentistas brasileiros e estrangeiros?

– Arrancar peito, coxa e sobrecoxa do “peru gordo” que é o orçamento brasileiro.

Sim… peito, coxa e sobrecoxa.

E o que sobra para o campo da sociedade que a esquerda defende?

– Pescoço, tripas, pele e osso.

E, ainda assim, com peso limitado a um máximo pré-estabelecido!

(a tal fixação de teto nominal para gasto público não financeiro de Henrique Meirelles / Temer)

Mesmo porque pele, osso, pescoço e tripas, diferentemente da suculenta carne e da densa gordura, não mudam de tamanho em diferentes conjunturas econômicas, não é mesmo?

Pelo menos não tanto quanto carne e gordura, que incham sem igual em tempos de “vacas gordas”.

Ou seria “peru gordo”?.

*   *   *

(e) Diferença entre exceções e avessos (do avesso): Jean Wyllys, Paulo Pimenta, Tarso & Luciana Genro

Assim como o PT não é monolítico, também não o são as demais forças de esquerda.

Nem mesmo o PSOL!

E isso já sem contar a primeira dissidência: Heloisa Helena.

Não há como comparar, por exemplo, a atuação e a postura de um Jean Wyllys – bendito Big Brother Brasil? Bendita Rede Blogo?! – com as de uma Luciana Genro.

E isso vindo lá de trás… desde as marchas de junho de 2013, passando pela exploração político-eleitoral da Lavajato, pelo posicionamento no segundo turno de 2014 e chegando, finalmente, à tramitação: (i) do impeachment, patrocinado por Eduardo Cunha; e (ii) da cassação da chapa Dilma/Temer no TSE, patrocinada – em estratégico “banho-maria” – por Gilmar Mendes.

E olha que Luciana cresceu na política. Testemunhou – na própria casa! – a frustração com os limites impostos pela – “maldita” mas inexorável – realidade político-administrativo-eleitoral.

E – coisa rara – tem um pai que conseguiu passar razoavelmente bem pela (“maldita”) realidade das urnas e da Administraçao Pública, mantendo-se como uma referência de coerência política, responsabilidade, equilíbrio e integridade.

É, né, Luciana…

Como ensina o Evangelho, “ninguém é profeta na sua própria terra”.

Se nem o messias o foi, não haveria de sê-lo o Tarso Genro, não é mesmo?

*   *   *

(d) E então?

Assim, “na Batalha de 2016”, a única esperança para o “povão” – com o peru já a caminho do abatedouro – é, necessariamente, a articulação e união de todas as forças da resistência democrática. Das mais “sujas” às mais “limpinhas”.

Isso inclui, na dimensão político-partidária, um Jean Wyllys, do PSOL, mas também um Paulo Pimenta, do PT, e um Alessandro Molon, da Rede, por exemplo.

E é justamente essa frente a tal “última trincheira da cidadania”. E não o STF, como propunha, com sinceridade, o Min. Marco Aurélio Mello meses atrás, no alvorecer do golpe.

*

Desfalque

Com pesar constato, contudo, que haverá desfalques nas fileiras de combatentes.

Na dimensão político-partidária dessa frente – desesperada! – não vejo o engajamento sincero de uma Luciana Genro – que cada hora diz uma coisa – ou de um Rui Falcão – que ainda não decidiu se é malandro ou mané.

*

No pasarán

Gosto de História.

Às vezes alguns episódios me vêm à mente…

Decidam vocês se o relato abaixo tem algo a ver com o que se discute aqui ou não.

Na Espanha, precedendo em um par de anos a vitória final de Franco, houve uma (pequena) “guerra civil” dentro da (grande) “Guerra Civil Espanhola”.

Refiro-me ao sangrento conflito – dentro do território da “República”! – entre anarquistas e comunistas. Deixou centenas de mortos, desfalcando em muito as milícias republicanas, que nunca mais contaram com os anarquistas.

E pior (1):

Plantou-se, para sempre, a desconfiança entre companheiros de trincheira.

E pior (2):

Havia ainda a famosa “Quinta Coluna” de Franco – também dentro da “República”! Que papel terá desempenhado de fato no assalto a Madri? Nunca se soube ao certo quem eram – na clandestinidade do sabotador – seus membros, certo?

*

É, “Seu” Marx… concordo com o Sr.:

– Quando não como farsa, a História se repete como tragédia mesmo.

*   *   *

Epílogo:

Os volumes anteriores desta série de 3 posts, o “Vol. 1: Por quê?” e o “Vol. 2: cláusula de barreira, permitiram trocas muito ricas com os leitores – de esquerda e também de direita. Aqui no GGN e também nas redes sociais.

– Um “diálogo”, afinal?

Seguem algumas ilustrações. Tanto de “obstáculos” como de “soluções“, passando por um grave alerta e chegando, finalmente, a uma improvável “viagem culinária”:

Alerta de quem entende (muito) do riscado

Quando você fala em “centrismo” e descreve quem dele faz parte – apolíticos, pendem para um lado ou outro segundo as circunstâncias, mas são o fiel da balança – você vai certeiramente pro PMDB. E tem razão, porque está falando de perfis partidários. Mas o problema é que a sua descrição, não em termos de partido, mas do eleitorado que vota nele, é exatamente aquela do grosso da população que, manipulada pela mídia, sequer percebe o que está acontecendo hoje com o golpe em curso. Por isso não sai à rua pra apoiar o “nosso lado” nas manifestações, mas são os que, embalados pelo moralismo anti-corrupção e a aura mediática da Lava-Jato, correm em defesa da destituição da Dilma e da extinção do PT. No limite, são os que pedem intervenção “constitucional” das FFAA ou são eleitores certos de Bolsonaro ou qualquer outro salvador da pátria estilo Berlusconi que se apresente como candidato.

*

*

*

*   *   *

Nota: a trilha sonora é um bis de um post anterior.

“O canto das três raças”, na voz de Clara Nunes. Ilustra tanto a “Guerra da História” (a atemporal “agonia [do] canto do trabalhador”), como algumas “batalhas” (o índio subjugado, o negro feito cativo e o grito – abafado – de liberdade dos inconfidentes):

Atenção à letra:

[(i) Batalhas]

Ninguém ouviu / Um soluçar de dor /No canto do Brasil

Um lamento triste / Sempre ecoou / Desde que o índio guerreiro / Foi pro cativeiro / E de lá cantou

Negro entoou / Um canto de revolta pelos ares / No Quilombo dos Palmares / Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes / Pela quebra das correntes / Nada adiantou

[“Inconfidentes”. Da Inconfidência Mineira (apenas)? Se sim, é liberdade poética. Um movimento muito mais de tentativa frustrada de ruptura entre a elite colonial e a metropolitana do que, propriamente “quebra de correntes”. Ou seja, emancipação popular. Exemplo efetivo de luta por “quebra de correntes – e por essa razão menos presente no imaginário e na cultura brasileira – seria a Conjuração Baiana, influenciada tanto pela Revolução Francesa quanto – escândalo! – pela Revolução Haitiana]

[(ii) A grande “Guerra da História”]

E de guerra em paz / De paz em guerra / Todo o povo dessa terra / Quando pode cantar / Canta de dor

[Da minha perspectiva temporal mais para batalhas de “gerações” – e grupos – diferentes do que propriamente “guerra, paz, paz e guerra”]

E ecoa noite e dia / É ensurdecedor / Ai, mas que agonia / O canto do trabalhador

Esse canto que devia / Ser um canto de alegria / Soa apenas / Como um soluçar de dor

[Mais liberdade poética. E retórica. Todos sabemos – e os sambas cantados pela talentosa e bela mulata Clara Nunes são exemplos eternizados disso – que, malgrado toda a espoliação de que é vítima há 5 séculos, o povo brasileiro – paradoxalmente ou justamente por causa disso? – canta é alegria. “Também” ou até “principalmente”, não é mesmo?

“Ópio do povo”?

Droga que anestesia as chibatadas levadas?

Se sim, então digo:

Viva esse “ópio”!

Viva Clara Nunes e o “canto das três raças” fundadoras do Brasil! Canto depois enriquecido pelas tantas outras que chegaram à nossa terra]

*

Leia mais:

Vol. 1: Por quê?

Vol. 2: cláusula de barreira

*   *   *

(i) Acompanhe-me no Facebook:

Maya Vermelha, a Chihuahua socialista

(perfil da minha brava e fiel escudeirinha)

*

(ii) No Twitter:

@rommulus_

*

(iii) E, claro, aqui no GGN: Blog de Romulus

*

Quando perguntei, uma deputada suíça se definiu em um jantar como “uma esquerdista que sabe fazer conta”. Poucas palavras que dizem bastante coisa. Adotei para mim também.

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