Vínculos entre acidentes em engenharia e o ambiente de obra, por Álvaro Rodrigues dos Santos

E, dentro do mesmo cenário, nas relações entre empresas especializadas contratadas e a contratante proprietária da obra

Primeiros momentos da tragédia em Brumadinho, quando se rompe a barragem

Vínculos entre acidentes em engenharia e o ambiente de obra

por Álvaro Rodrigues dos Santos

As recentes tragédias de Mariana, Brumadinho, os problemas ocorridos e anunciados com viadutos em São Paulo, e tantos eventos da mesma natureza já ocorridos no país, em que são contabilizados um enorme número de mortos e prejuízos sociais incalculáveis, têm suscitado diversas avaliações focadas nos mais diversos aspectos técnicos e gerenciais envolvidos. Neste artigo abordo um desses aspectos, que me parece um dos fundamentais, o qual não tem sido objeto dessas avaliações, qual seja o ambiente de obra, ou o ambiente empresarial, que fortemente influi no tipo e na qualidade das relações entre os empregados, em nosso caso profissionais de engenharia (engenheiros, geólogos, etc.), e a Diretoria da empresa. E, dentro do mesmo cenário, nas relações entre empresas especializadas contratadas e a contratante proprietária da obra. 

É natural e compreensível a expectativa do profissional técnico do quadro da empresa cultivar a expectativa de sua ascensão hierárquica/salarial no âmbito do organograma empresarial. Alguns valores exigidos para essa ascensão lhe são óbvios e/ou lhe são instilados pela cultura interna da empresa: dedicação, competência, disponibilidade, sociabilidade, responsabilidade, capacidade de liderança, e outros do gênero. Além desses há alguns mais sutis: caracterizar-se por trazer soluções e não problemas e, com destaque, considerar-se e ser considerado parte “do time”, ou seja, um profissional que se destaque por, em qualquer circunstância, “fazer o jogo da empresa”.

No caso de empresas contratadas pela empresa proprietária da obra dá-se algo semelhante. À contratada interessa a melhor relação possível com seu cliente, situação em que lhe serão garantidos novos e importantes contratos. Nesse contexto busca naturalmente cumprir valores essenciais para suas expectativas: competência, confiabilidade, presença, confidencialidade. Da mesma forma, poder ser considerada “parte do time” e, em qualquer condição, “fazer o jogo da empresa contratante”.

Esse ambiente empresarial e de obra, ainda que não explicitado e muito estudado, é conhecido por todos que, de alguma forma, lidam com obras de engenharia. Pode-se dizer até que, respeitados certos limites (aqui mora o “X” do problema) componha um elenco de condutas compreensíveis e até aceitáveis. Decisão dificílima, tanto por parte do profissional empregado da empresa proprietária da obra, como por parte de uma empresa por essa contratada, é estabelecer e atender os limites de ordem ética e de ordem técnica, aqui em especial aqueles que se colocam na esfera da segurança e da assunção de riscos de acidentes.

Vamos a um exemplo prático para melhor entendimento dessa equação. Um geotécnico da empresa proprietária da obra alerta em uma reunião com sua chefia sobre a urgente necessidade de ser tomada determinada providência técnica para que não sejam surpreendidos por um grave acidente. Como a providência envolve custos a diretoria pede estudos complementares. A variável tempo corre inexoravelmente. Feitos esses estudos, o profissional repete seu alerta. Sua chefia lhe recomenda que não faça nada por escrito, ou documentadamente, as comunicações verbais bastariam. Inicia-se um processo interno interminável de aprovação de verbas e serviços e o profissional tem plena consciência de que a probabilidade de um acidente aumenta consideravelmente. Ele tem ganas de emitir por escrito um alerta à sua chefia e à Diretoria da empresa, mas ao mesmo tempo avalia que se assim agir deixará de imediato de ser considerado como “parte do time”, e iriam por terra seus sonhos de progressão hierárquica e salarial dentro da empresa, e quem sabe teria até que contar com a possibilidade de uma demissão, obviamente debitada a um exercício de “remanejamento interno de equipes”. Como, no caso da empresa contratada, dada as mesmas circunstâncias, iriam para o espaço suas expectativas de novos e vitais contratos. No campo da ética profissional poderíamos elencar vários outros exemplos de incompatibilidade entre o que seria técnica e legalmente correto e os interesses mais imediatos da empresa proprietária da obra, situação que também exigiria do profissional ou da empresa contratada, em obediência aos códigos de conduta informais prevalecentes no ambiente empresarial, uma decisão de anuência e compartilhamento com uma ilegalidade ou com uma agressão a princípios éticos que deveriam ser devidamente assumidos e praticados.

Exemplo que se tem tornado muito freqüente decorre de decisões empresariais de redução de despesas, o que acaba contaminando o ambiente de uma obra de uma quase disputa entre profissionais e equipes na busca de resultados financeiros de grande agrado para a direção da empresa proprietária da obra. É fácil deduzir os enormes riscos para a segurança que naturalmente decorrem de um ambiente de obra assim contaminado.

Fato real é que em grande parte dos acidentes e tragédias ocorridos em obras de engenharia no Brasil são explicados, ao menos em boa parte, por circunstâncias próximas às descritas, ou seja, pela prevalência de ambientes de obra constrangedores de uma atitude mais ousada, firme e insistente de profissionais do quadro ou de empresas contratadas no apontamento de disfunções técnicas que possam levar a situações de risco e na persistência por exigências de sua pronta correção e eliminação.

Como enfrentar esse problema? Aqueles que tem uma maior intimidade com os ambientes empresariais sabem perfeitamente da ingenuidade em se esperar que algo de muito substancial seja alcançado via uma alteração comportamental dos profissionais empregados e de empresas contratadas. Empregos, carreiras, contratos, situações familiares estão em jogo, o que, particularmente em um país com fraco desenvolvimento econômico, conta muito.

Por diversas razões um caminho culturalmente também dificultoso, a alternativa de uma profunda e corajosa decisão das direções empresariais no sentido de dotar seus ambientes de obra e seus códigos de conduta de atributos incentivadores de atitudes mais ousadas e firmes de profissionais e empresas contratadas no apontamento de riscos técnicos e da necessidade de prontas medidas de segurança, promete ser mais promissora para resultados mais virtuosos.

Os enormes desgastes financeiros e de imagem institucional derivados de acidentes como os que temos testemunhado, assim como a eventualidade de penalizações criminais envolvendo proprietários da empresa, jogam, a favor dessa possibilidade.

Muito colaboraria também para um melhor equacionamento da variável abordada nesse artigo uma atenção maior das associações técnicas do campo geotécnico, como a ABMS e a ABGE, na discussão e trato do tema aqui focado, qual seja o ambiente de trabalho imperante nas frentes de obra e sua influência na menor ou maior atenção com a excelência técnica e com a segurança.

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br) – Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT  – Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”. Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia

 

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4 comentários

  1. Álvaro, nós sabemos que o assunto além de gravíssimo é pertinente e requer uma atenção urgente, permanente e sem trégua. Eu acredito que muitas pessoas tem um pensamento muito próximo do que você descreve, mas não com a sua qualificação. Penso, que a nova ordem do mundo moveu a maioria das grandes corporações e a maioria das autoridades do mundo na direção da insensibilidade com a sociedade e com o meio ambiente. O fruto dessa adesão insana desconcentrou a atenção com as prioridades essenciais, que são: a segurança, a qualidade e a prudente paciência com o tempo mínimo de cura necessário para que estas responsabilidades possam ser implantadas, de forma plena, segura e confiável. Contudo, onde se divide responsabilidade, qualidade e confiança com Poder, Dinheiro, Lucro, Muito Lucro, Baixo Custo, Status, Sucesso obcecado, Holofotes, entre outros, não pode haver um bom e exato redultado. Mesmo havendo um pouco de exagero nisso tudo que citei, a verdade está muito próxima de disso. Imagino que, além de vergonha na cara, se for criado uma espécie de atestado público padrão, que tivesse um efeito de um juramento oficial, em que o autor do projeto, dos cálculos e da construção e/ou execução do serviço assinassem em conjunto reafirmando que todos os itens e etapas do projeto, material e tempo garantem, sem dúvidas o objeto da contratação terá toda segurança exigida. A pressa, a falta de fiscalização, a irresponsabilidade e a ausência de severa punição formam um prato cheio para as tragédias.

  2. Caro Álvaro.
    Fui professor por mais de 38 anos de uma das mais prestigiadas Escolas de Engenharia do Brasil, é posso dizer que este teu artigo é uma imensa enrolação.
    Com os milhares de alunos que tive, por dar aula olhando para os alunos e conversando com os mesmos, posso dizer que já durante os bancos escolares já se identifica os cafajestes que vão virar grandes empreiteiros de grandes obras e vão se sujeitar ao esquema mafioso dos proprietários, pois a vida fica muito mais simples e a chance de terem $uce$$o é bem maior.
    O que chamas de “decisões empresariais de redução de despesas” em engenharia se chama simplesmente sacanagem, ou seja, colocar a vida dos outros para aumentar os lucros.
    Como se diz vulgarmente, o furo é bem mais embaixo, enquanto tiver empresários que se movimentam pela mão nada invisível do mercado, existirão viadutos e edifícios caindo, barragens rompendo e todo este lero-lero que colocas na segunda parte do teu texto, é mera ação diversionista, culminando na conclamação de associações de profissionais, pois não há nada a inventar, barragens com coeficientes de segurança em torno de 1,5 ou menos, qualquer imbecil sabe que não deveriam existir, mas existem.

  3. Álvaro , excelente análise focada na dificuldade das áreas técnicas e de controle de qualidade das empresas proprietárias relacionarem-se com as áreas que visam exclusivamente o lucro.Embora eu tenha vivido muito poucas situações como esta em minha vida profissional ,sempre foi grande a pressão do empreiteiro para terminar a obra ,independentemente da melhor qualidade.No passado essas situações eram menos frequentes porque os proprietários das obras tinham suas áreas técnicas e de controle de qualidade.Pouco a pouco esse controle foi sendo terceirizado para empresas ,na maior parte das vezes ,de baixa experiência e qualidade técnica.Daí ao empreendimento”turn key” foi um pulo ,e as consequências começaram a ser sentidas na implantação de estradas ,na construção de PChs ,conjuntos residenciais e outros empreendimentos que mostraram muitas falhas.É preciso que nossas associações ,conselhos e outras estruturas técnicas de classe debatam o assunto e imponham uma estrutura independente de controle e fiscalização ,baseadas em regras rígidas de qualidade que seriam firmadas em contrato ou na autorização de construção dos empreendimentos.

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