A história do samba como história social do trabalho, por Rogério Mattos

O conceito de “rede de proteção” é fundamental para se compreender todo o processo da escravidão no século XIX e como também o advento do samba

A história do samba como história social do trabalho

Por Rogério Mattos

O conceito de “rede de proteção” é fundamental para se compreender todo o processo da escravidão no século XIX e como também o advento do samba. Se houve uma revolução na historiografia nas últimas décadas (em linhas gerais, o escravo deixou de ser visto como passivo, mas capaz de se “negociação e conflito”, como num título de um livro clássico), é porque conseguiram criar essas redes, em especial através das comunidades islâmicas e as casas de candomblé, além das inúmeras redes de proteção, de negociação e de conflito que se abriram com o desenvolvimento urbano no mesmo século.  O caso emblemático é o do terreiro de Tia Ciata.

O historiador Luiz Antonio Simas conta o seguinte a respeito das casas-terreiro da Cidade Nova: “As tias eram, de um modo geral, baianas iniciadas no candomblé que vieram para o Rio de Janeiro e aqui exerceram lideranças comunitárias. As lideranças das tias baianas eram ancoradas muitas vezes no exercício do sacerdócio religioso como Yalorixás, mães de santo; Yakekerês, mães pequenas que auxiliavam as Yalorixás e os babalorixás; e Yabassês, as mães que cozinham, responsáveis pela preparação das comidas dos orixás, inquices e voduns. Elas criaram redes de proteção social fundamentais para a comunidade diaspórica[1]”.

Joel Rufino dos Santos, em seu livro Épuras do Social, diz que é inviável analisar a sociedade brasileira através da lente da luta de classes. O Brasil não é constituído de classes, mas é uma sociedade segmentada em ordens. Quem pertence à Ordem é um classificado. Mesmo os que conseguem uma carteira de trabalho e podem por meios institucionais ou legais lutar por melhorias na qualidade de vida, pertencem à Ordem. O que compõe mais da metade da sociedade brasileira são os desclassificados, sem carteira assinada, trabalhadores que fazem bicos como os antigos escravos de ganho – fora os chamados “desalentados” ou o trabalho escravo ou “análogo à escravidão”.

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O samba foi uma das maneiras dos descendentes de escravos continuarem a se proteger e a se inserir na sociedade, história também permeada de conflitos, mas que os fez não serem ou continuarem como meros trabalhadores braçais. Foi uma maneira deles se classificarem, à revelia do ordenamento jurídico e burocrático ou dos favores dos mais ricos. Como diz a música de Nei Lopes com Wilson Moreira, Candongueiro: “Não tive e não tenho escola, mas levo meu candongueiro”. A história do samba também é uma história social do trabalho e da busca pela liberdade – lutas que devem estar sempre associadas.

Uma dica: esse tipo de história não vai ser encontrada na historiografia tradicional, nem a “história política”, na “social” ou “cultural”. Não será encontrada praticamente na forma-historiográfica. Que se leiam os belos romances de Nei Lopes!

 


[1] SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019, p. 82-3.

Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.

 

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