Samba-enredo da Mangueira mostra que Jesus não estaria ao lado da intolerância

Vencedora do Carnaval do Rio de 2019, escola de samba reforça a história de luta de Cristo contra o estado opressor

Samba-enredo deste ano grita "A Verdade Vos Fará Livre" / Pedro Stropasolas

do Brasil de Fato

Samba-enredo da Mangueira mostra que Jesus não estaria ao lado da intolerância

Nara Lacerda

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré  / Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher / Moleque pelintra no buraco quente / Meu nome é Jesus da gente

É dessa forma, em primeira pessoa, que o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira deste ano levará Jesus Cristo para a avenida. Com o título A Verdade vos Fará Livre, a composição provoca, mas foge do panfletário, ao colocar na letra uma verdade que parece tão óbvia e simples quanto esquecida: Cristo defendeu a igualdade, o fim da opressão, os pobres, desvalidos, julgados e criminalizados.

Após um 2019 de sucesso na Sapucaí, com um enredo que homenageava os esquecidos pela história brasileira, o espírito do barracão é taxativo: ninguém na comunidade duvida da força política do Carnaval. Manu da Cuíca, umas das compositoras por trás da narrativa poética que levou o título no ano passado, coloca novamente seu nome na história da escola.

Em conversa com o Brasil de Fato, ela explica porquê usar a figura de Jesus Cristo em primeira pessoa, que tipo de sensibilidade buscou para contar a história de um personagem tão recorrente e evoca a esperança de que desmontes nas políticas culturais, opressão e esquecimento por parte do poder público não têm a capacidade de diminuir a força de uma das manifestações culturais basilares da sociedade brasileira – o carnaval.

“Se fala tanto em Cristo, mas onde ele estaria hoje? Onde ele teria nascido? Ele teria nascido pobre. Ele poderia ter nascido na Mangueira. Se ele tivesse nascido no Morro da Mangueira, como é que seria sua história? O que o estado faz em geral com os jovens moradores de favela?”

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

Durante a conversa, Manu expôs o comprometimento com que essas questões foram colocadas no samba-enredo, traduzido também em cuidado com a figura histórica e criatividade no enfoque.

“Jesus Cristo é uma figura muito cara para as pessoas, muito importante na história mundial. Não é fácil você falar de quem já foi falado tantas vezes.  A gente reforçou o que é de fato a história de Cristo. Cristo foi uma figura que nasceu pobre, lutou e se rebelou contra o estado e foi torturado e assassinado pelo estado. Foi uma pessoa que lutou pela inclusão e deu um sentido muito grande a palavra irmãos. A ideia de fraternidade e a ideia de partilha, que são ideias centrais na figura histórica de Cristo, a gente reforçou e colocou o samba em primeira pessoa, com uma ideia de pertencimento.”

 

Comunidade da Mangueira busca seu 21º título do carnaval carioca (Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato)

“Quantas chagas da opressão não são também as chagas de Cristo?”

Eu tô que tô dependurado

Em cordéis e corcovados

Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque de novo cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais na escuridão

Pertencimento é uma palavra muito presente no vocabulário de Manu. É com esse termo que ela explica como a comunidade da Mangueira abraçou o samba-enredo. Um sinal de que o povo nunca esqueceu que o Carnaval é um motor político.

“Os ensaios da Mangueira são muito comoventes. A galera está cantando com muita vontade de dizer que a gente precisa de partilhas e com a voz lá em cima. É um samba de todos nós. Eu sou uma das autoras do samba, junto com o Luiz Carlos Máximo, meu parceiro. Mas o samba pertence a muito mais gente do que nós.”

Se no Carnaval do ano passado o descaso do poder público em geral com as questões sociais – em especial a cultural – começava a dar mostras de que viraria prática de governo, agora já não há mais dúvida de que existe uma tentativa de enfraquecimento e desmonte.  Manu sabe que o Carnaval não pode e não vai ficar alheio a essas questões. Ela lembra que a maior festa popular do país sempre foi palco de críticas e quanto maior a opressão, mais criativa a reação é:

“As tensões, contradições e alegrias estão expressas no Carnaval. Sou foliã, gosto de sair no Carnaval, de cuíca, fantasiada pelos blocos, de uma maneira meio anárquica até. Porque eu acho que o Carnaval tem um pouco disso, tem um pouco de subversão, de você tentar fazer valer algumas figuras que não estão representadas durante o ano. Você faz uma inversão, pelo deboche, pela ironia, você tenta fazer provocações.”

Ao falar diretamente do governo municipal da cidade do Rio de Janeiro, a compositora ressalta que a comunidade exige respeito as suas manifestações populares.

“As pessoas não estão alheias ao que a gente está vivendo no país. O Carnaval vive dentro de uma sociedade que está explodindo de contradições, de tensões e com uma força cultural popular que absorve essas questões e tenta apresenta-las em forma de arte. Se posicionar não é uma opção, mas uma necessidade. A gente tem um prefeito que não respeita o Carnaval e ele tem obrigação de respeitar, porque ele é prefeito de uma cidade que tem a sua história misturada à história do Carnaval.”

 

Ensaio de rua da Estação Primeira de Mangueira (Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato)

Provocações levadas a sério na folia

Diante de toda essa reflexão, Manu afirma que as críticas certamente não estarão presentes somente no Carnaval da Mangueira. Em diversas linguagens e manifestações, a política deverá ser elemento presente na Sapucaí e em todo o país.

O recado da Estação Primeira promete ser uma página marcante dessa história, que já começa a se desenhar nos ensaios e pré-carnavais Brasil afora. A escola de samba vai levar à avenida um messias que se aproxima da humanidade e das questões cotidianas do povo: “Um Cristo que ouve o desabafo sincopado da cidade. O samba é o desabafo sincopado da cidade”

“O Brasil é um país em que muita gente se diz cristã e ao mesmo tempo é um país líder de desigualdade social, líder de assassinatos contra minorias, um país que comete muitas barbáries cada vez mais oficializadas. Talvez essa seja uma contribuição da Mangueira para essa reflexão. Tem alguma coisa aí que não bate com o que seriam os ensinamentos de Cristo. O Cristo vivo não estaria ao lado de quem aplaude ou finge não ver esses ataques”, assinala a compositora.

Mangueira

Samba, teu samba é uma reza

Pela força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também

Edição: Rodrigo Chagas

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5 comentários

  1. a mangueira é um símbolo socio-cultural que subverte essa infame lógica da espoliação capitalista…
    depois de lutar pral impar os porões dos entulhos da ditadura, compõe uma oraçãO LAICA DO CRISTO REDENTOR.

  2. Nassif: você sabe que sou da Águia de Madureira e não abro. Que “meu coração de manias de amor”. Mas confesso que a Verde e Rosa ta mexendo comigo. Não particularmente pelo enredo, porém, pelo que ele significa. Aquele Carnaval irreverente, popular, contestatório de sistemas opressores. Lembra de JoãozinhoTrinta… “Mesmo censurado, rogai por nós!”. Essa retomada da espiritualidade social é que vale. Só temo que os fardados não gostem da guinada na subserviência, como VerdeSauvas com o gringo dono do Quintal onde moramos. E você sabe o que pode acontecer com a EstaçãoPrimeira. As lições do Haiti ainda estão vivinhas na memória deles, só aguardando um momento… E não vou estranhar, por não gostarem, de fecharem entrada e saida da MarquesDeSapucai e introduzirem uns leões famintos não passarela. Uma nova modalidade de RioCentro. Em Roma, antigamente, isso era o passatempo dos que governavam. De repente a História se repete…

  3. Que beleza…
    a Mangueira trazer a verdadeira solução cristã para os graves problemas que enfrentamos

    Tem muito da doutrina social da Igreja Católica nisso tudo aí…
    “cabe aos fiéis leigos “animar as realidades temporais com um zelo cristão e comportar-se como artesãos da paz e da justiça” (SRS 42). (CIC §2442)” 

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