Hilma af Klint? Quem?!, por Walnice Nogueira Galvão

Hilma af Klint? Quem?!

por Walnice Nogueira Galvão

Devemos agradecer ao movimento feminista o resgate de notáveis mulheres cientistas, artistas, intelectuais etc.: amplia nossa visão e pode causar uma reviravolta em nossas crenças.

No que diz respeito a pintoras, assistimos nas últimas décadas à revelação de pelo menos três delas, e das mais notáveis.

A começar pela extraordinária Frida Kahlo, que criou uma linguagem própria mas ficaria obscurecida pelo brilho do muralismo mexicano. Seus quadros são inconfundíveis, ao encenar o próprio corpo como uma espécie de biografia pictural. Madonna é proprietária de um deles, que custou milhões, é claro – dinheiro que Frida nunca viu.

Frida está nos museus do mundo, mas sobretudo na cidade do México, sede da Casa Azul, onde nasceu, viveu e morreu. Já foi objeto de documentários e de dois filmes de ficção, um de Salma Hayek e outro de Paul Leduc, que realiza o milagre de transpor para a textura da tela a textura das obras de Frida.

Aqui em São Paulo vimos há pouco uma bela exposição de Frida no seio de um coletivo de 15 artistas mexicanas que atuaram em diferentes setores – pintura, teatro, cinema, design, escultura, fotografia etc. –, formando um grupo heterogêneo mas solidário a seu tempo. Investigaram o inconsciente e o onírico, bem como a mitologia do passado nacional azteca e maia.

Outra é Artemisia Gentileschi, grande pintora do Barroco italiano, encoberta até recentemente pelos gigantes artísticos que abundaram à época. Era filha de um pintor que encabeçava um ateliê-escola, como ela mesma mais tarde.

Aos 18 anos, foi objeto de um dos maiores escândalos de estupro de que se tem notícia. Violentada por um amigo do pai, este fez questão de processar o criminoso, assim tornando público o que acontecera. O processo sobreviveu, registrado nas atas do tribunal, que trazem o penosíssimo depoimento da vítima por inteiro. Condenado, o estuprador receberia a pena de banimento.

Artemisia viveu em Roma, Veneza, Florença, Londres e Istambul. Aceita na Academia de Belas Artes de Florença, recebia prestigiosas encomendas, entre seus fregueses estando os Médici e o rei Carlos I da Inglaterra.

Uma exposição itinerante de sua obra ainda não veio ao Brasil, mas circula pelo mundo atualmente. Um filme de ficção despertou controvérsia, porque subverteu os dados da documentação, fazendo de Artemisia uma moça livre e independente, acima das convenções, apaixonada por seu (no caso, falso) estuprador. Muita gente, inclusive Gloria Steinem, considerou inaceitáveis as liberdades tomadas, que, embora com as boas intenções de evitar a vitimização, mais uma vez inocentam o estuprador e culpam a vítima.

Em todo caso, as mais vigorosas e famosas telas de Artemisia se tornariam aquelas em que mulheres degolam homens na tradição mitológica (Judite e Holofernes, Jael e Sísara), tema a que voltaria repetidas vezes; ou são acusadas injustamente de adultério como Susana; ou são violadas como Lucrécia.

No momento, chega até nós, em estreia na América Latina, esta mostra de 120 peças de Hilma af Klint, na Pinacoteca. A pintora sueca foi contemporânea dos pioneiros do abstracionismo  Kandinsky, Malevitch, Mondrian, sendo que, embora descoberta recente, é uma vanguardista precursora, pois praticou antes deles o não-figurativismo.

Segundo agora se sabe, fazia parte de um “Grupo de Cinco” em Estocolmo, todas influentes mulheres intelectuais e artísticas, que faziam pesquisas, estudando ciências e filosofia, mas também se interessando por antroposofia ou ocultismo, aliás interesse generalizado à época. Adeptas da escrita e do desenho automático, prenunciaram o surrealismo.

No pincel de Hilma, é bem curioso que as formas, sempre justificadas por extenso pela própria pintora com significações esotéricas, são fortemente femininas: arredondadas, tendendo ao orgânico de frutas e sementes, ou à geometria plana de círculos e elipses, raramente privilegiando linhas retas ou arestas.

Mais curioso ainda é observar que cada uma das três pintoras engendra narrativas biográficas tão instigantes que tendem a se interpor entre o espectador e a percepção da obra. O que certamente dá motivo a redobradas reflexões.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome