Cine-Theatro Central, nove décadas de emoção, por Jorge Sanglard

Marco da engenharia e da arquitetura da virada dos anos 1920 para os anos 1930, quando Juiz de Fora era um importante pólo industrial de Minas e do País, o Central, projetado por Raphael Arcuri, vem sendo, nessas nove décadas, um núcleo de encantamento ao abrigar o melhor da arte brasileira

Cine-Theatro Central, nove décadas de emoção

por Jorge Sanglard

O Cine-Theatro Central, uma das mais importantes casas de espetáculos brasileiras e símbolo do pioneirismo de Juiz de Fora, retomou sua vocação de abrigar a emoção e espelhar a alma cultural da cidade. Inaugurado em 30 de março de 1929, há 90 anos, no coração de Juiz de Fora, o Central, desde então, tem sido palco das mais diversas manifestações artísticas, da dança à música, passando pelo teatro e o cinema. Ao celebrar nove décadas de atividades, o Central se afirma como um polarizador de emoções.

Marco da engenharia e da arquitetura da virada dos anos 1920 para os anos 1930, quando Juiz de Fora era um importante pólo industrial de Minas e do País, o Central, projetado por Raphael Arcuri, vem sendo, nessas nove décadas, um núcleo de encantamento ao abrigar o melhor da arte brasileira, mas passou por períodos de descaso e omissão, principalmente entre os anos 1970 e 1980.

A partir dos anos 1980, a luta contra o abandono do teatro aglutinou amplos setores da comunidade num movimento de resgate da consciência da cidadania cultural. Essa ação possibilitou a união de esforços e criou as condições adequadas para sua aquisição definitiva e sua incorporação ao patrimônio da Universidade Federal de Juiz de Fora. Assim, em 14 de novembro de 1994, há 25 anos, o Central, já restaurado e reintegrado à vida cultural de Juiz de Fora, voltou a expressar a imponência e a sedução, como autêntico ícone a gravar a memória da cidade e de Minas Gerais.

O esforço conjunto da comunidade e do poder público tornou possível que o Cine-Theatro Central fosse tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e adquirido, em 1994, pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com recursos do Ministério da Educação, durante o Governo Itamar Franco, tendo como ministro Murílio Hingel. A importância da reconquista do Central levou a Prefeitura de Juiz de Fora, na primeira administração Custódio Mattos, a firmar um termo de acordo com a UFJF, que tornou possível a articulação de forças para assegurar a restauração do teatro, projetado por Raphael Arcuri, e das pinturas decorativas do artista plástico italiano Angelo Biggi.

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A reinauguração do Cine-Theatro Central , em 14 de novembro de 1996, se deu com um concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a regência do maestro Roberto Tibiriçá, e a segunda apresentação inaugural foi com um concerto do cantor, violonista e compositor João Gilberto.

Inicialmente, a administração do Central ficou a cargo da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – Funalfa, como representante da Prefeitura. Esta parceria também foi fundamental para a criação do primeiro Conselho Diretor do Cine-Theatro Central, responsável pela definição e aplicação da política cultural inicial e pela implantação do gerenciamento da casa de espetáculos. Atualmente, o Central é administrado pela UFJF.

A preservação da memória arquitetônica e artística, a recuperação das características essenciais do teatro e o compromisso de estabelecer uma democrática ocupação do espaço foram as diretrizes básicas, a partir da retomada das atividades do Central. Todo o empenho foi realizado para fazer o velho teatro – que vinha sendo alvo do abandono, desde os anos 1980 – voltar a pulsar como um templo da cultura. Personalidades artísticas do porte de Milton Nascimento, Tom Jobim, João Bosco, Ney Matogrosso, Rodrigo Pederneiras, Affonso Romano de Sant’Anna, Carlos Bracher, Dnar Rocha, Jorge Arbach e Sueli Costa, entre muitas outras, se engajaram na luta pelo resgate do Central como emoção de todos e emprestaram seu prestígio na campanha para que o teatro se reintegrasse à paisagem central de Juiz de Fora.

Em dezembro de 1998, o cantor e compositor Chico Buarque escolheu o palco do Cine-Theatro Central para realizar os dois shows da pré-estréia nacional da turnê “As Cidades”, cinco anos depois de lançar o disco “Paratodos”. A realização de tal empreitada musical levou Milton Nascimento e João Bosco a gravarem no teatro seus DVDs ao vivo, o que projetou ainda mais a casa de espetáculos.

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Beethoven, Wagner, Verdi e Carlos Gomes como inspiração

Valorizado pela restauração das pinturas artísticas de Angelo Biggi, realizadas entre 1928 e 1929, tendo como motivação a música de mestres como Beethoven, Wagner, Verdi e Carlos Gomes, o forro em estuque do Central, esconde uma intrincada solução estrutural, que ganhou como proteção, a partir da recuperação do teatro, um sobreforro em fibra de vidro para acabar, de uma vez por todas, com o risco de infiltrações. Com isso, a pintura artística, que foi toda restaurada, está preservada em sua integridade. Temor de décadas, a rede elétrica do Central foi toda renovada e o teatro passou a contar com modernos recursos elétricos e de segurança.

Um dos marcos da pesquisa e da restauração do conjunto da pintura artística do teatro foi a descoberta, sob sete camadas de tinta, de trabalhos de Angelo Biggi também no foyer principal do Central. Até então desconhecidas, estas pinturas revelam quatro imagens femininas numa alegoria às artes. E a galeria do teatro, com arquibancadas, ganhou poltronas originais, como as da platéia e do balcão nobre, o que ampliou o conforto num local onde os preços são populares.

Ao pesquisar o acervo do colecionador juizforano Dormevilly Nóbrega, foi possível encontrar um raro exemplar do primeiro número da Revista Central, edição comemorativa da inauguração do teatro, em 30 de março de 1929. Organizada por A. Esteves e J. Costabile, com oito páginas, em papel jornal, ilustrada e impressa em azul, a revista registra a programação cultural inaugural, com destaque para a exibição do filme “Esposa Alheia”, em oito atos, e ainda ressalta a importância da construção do teatro, com uma excelente acústica e sofisticada iluminação. Também registra o programa musical, com obras de Wagner e de outros autores interpretadas pela Orquestra do Central, sob o comando do pianista e compositor Duque Bicalho. O último integrante da orquestra até então , o ex-percussionista João Ruffolo, antes de completar 98 anos, em 24 de junho de 2007, afirmou em entrevista exclusiva que o Central era um orgulho para a cidade e para Minas Gerais.

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Capa da Revista Central distribuída no dia da inauguração dó Cine-Theatro Central, há 90 anos.

A persistência e a obstinação dos juizforanos e dos mineiros têm sido fundamental para que o coração de Juiz de Fora continue pulsando a partir do Central, como um permanente convite à emoção. Aos poucos, a alma do velho teatro, totalmente restaurado, vem ganhando novo impulso e realimenta sua essência. O Central revigora a energia que sempre fez de Juiz de Fora um núcleo comprometido com a criação.
Juiz de Fora é uma cidade mineira que tem como marca a industrialização da virada do século XIX para o XX e do início do XX. Paralelo a isso, e também como fruto desse desenvolvimento e o pioneirismo de homens como Mariano Procópio, Alfredo Ferreira Lage, Antonio Carlos, Francisco Valladares, Raphael Arcuri, Pantaleone Arcuri, Diogo Rocha, Chimico Corrêa e de Gomes Nogueira, a cidade conquistou bens culturais de valor inquestionável para o patrimônio artístico e cultural de Minas e do Brasil. O Cine-Theatro Central e o Museu Mariano Procópio expressam este pioneirismo e, ao passarem por processos de restauração e de recuperação, a partir da virada do século XX para o século XXI, se reafirmam como pólos culturais.

Juiz de Fora vem buscando uma retomada do desenvolvimento industrial, a partir da construção de uma fábrica de automóveis Mercedes-Benz, da consolidação da siderurgia, através da ArcelorMittal, da manutenção das atividades metalúrgicas do grupo Votorantin-Nexa, além da implantação do gasoduto e da expansão da rede de fibra ótica. E vem reafirmando o vínculo entre o desenvolvimento industrial e a expansão da vertente artística e cultural. Essa característica da cidade vem sendo revigorada, tendo como referência as raízes que possibilitaram todo esse desenvolvimento.

*Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil

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