Criando uma Agenda Cultural (III), por Walnice Nogueira Galvão

E em 1962 foi a vez de dois passos fundamentais para o saber: a criação da Fapesp e do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB).

Criando uma Agenda Cultural (III)

por Walnice Nogueira Galvão

Modificando a fisionomia da cidade, começaram a surgir construções de concepção vanguardista devidas a arquitetos modernistas. Entre elas, estádios de futebol como o  Pacaembu, com projeto Art Déco de Severo e Villares, em 1940; e o Morumbi, de Vilanova Artigas, em1960.  Em 1950 ergue-se o Teatro Cultura Artística, de Rino Lévi: felizmente o mural de Di Cavalcânti na fachada escapou do último incêndio. Logotipo e assinatura da cidade, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, projetado por Lina Bo Bardi, foi fundado em 1947 mas só inaugurado em 1959. O Museu de Arte Moderna, o MAM, fundado em1948, transferiu-se da Sete de Abril para um pavilhão de Oscar Niemeyer, no Parque Ibirapuera.

São contemporâneos o Teatro Brasileiro de Comédia em 1948 e a Companhia Cinematográfica Vera Cruz em 1949, empreitadas do industrial Franco Zampari. O TBC nasceu na Faculdade de Filosofia da USP, a partir do Grupo Universitário de Teatro, o GUT (1943), conjunto amador de alunos dirigido por Decio de Almeida Prado e Lourival Gomes Machado, futuros professores da casa. TBC e Vera Cruz profissionalizaram seu pessoal, modernizaram o repertório e elevaram o nível geral.

Atendendo a necessidades mais amenas, o Bar do Museu, no MAM da Sete de Abril a partir de 1948, e o Clubinho dos Artistas e Amigos da Arte no Instituto dos Arquitetos a partir de 1949, desempenharam papel decisivo na manutenção da sociabilidade modernista, festeira como se sabe.

Data de 1949 a criação da Filmoteca Brasileira, também anexa ao MAM, que passaria a Cinemateca independente em 1956.

Assinala-se em 1953 o surgimento da Escola de Samba Verde e Branco, precedida pela VaiVai em 1930 e pela Lavapés em 1937.

A Bienal Internacional de São Paulo é criada em 1951 e terá sua maior edição em 1953, demorando-se propositadamente até o ano seguinte para coincidir com as celebrações do IV Centenário da cidade, para tanto mobilizando fartos recursos. Foi de uma opulência incalculável: nada menos que 100 obras de Picasso, inclusive a monumental Guernica. Sem falar em retrospectivas completas dos mais reputados artistas plásticos do planeta.

Entre os festejos do IV Centenário conta-se o Congresso Internacional de Escritores, que convocou relevantes figuras das letras e até um prêmio Nobel como William Faulkner. E ainda o Festival Internacional de Cinema, a que acudiram delegações não só de Hollywood com a presença de astros de grande popularidade como Errol Flynn, mas também o maior crítico de cinema da época, o francês André Bazin. Entre eles, um ícone do cinema erudito, o alemão Erich von Stroheim. O festival exibiu 300 filmes de 23 países. Oswald de Andrade dedicou duas crônicas ao evento, em sua coluna “Telefonema”, no Correio da Manhã. Modernistas e seus continuadores participaram  tanto do simpósio literário quanto do cinematográfico. 

Integrando os festejos, foi inaugurado o Parque Ibirapuera, obra de Oscar Niemeyer, que muitos anos depois interviria novamente na paisagem de São Paulo com o Memorial da América Latina, em 1989.

Datam ainda do IV Centenário  o Balé da Cidade e a lei de criação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, então sob a batuta de Eleazar de Carvalho.

Outro passo especial foi dado quando O Estado de S. Paulo  criou o Suplemento Literário. Planejado por Antonio Candido e dirigido por Decio de Almeida Prado entre 1956 e 1968, concentraria  a nata da produção universitária e se tornaria um modelo.

E em 1962 foi a vez de dois passos fundamentais para o saber: a criação da Fapesp e do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB). A primeira, que cresceria até se tornar a potência que é hoje, cuidaria da pesquisa científica. O segundo reuniria todas as disciplinas “brasileiras” da Universidade, tendo seu ponto alto em 1968 quando da aquisição do Fundo Mário de Andrade, com suas coleções incomparáveis, foco de pesquisas e produções que até hoje não se esgotaram.

A Agenda Cultural, como vimos, estava pronta antes que se passasse um século desde a Semana de 22.  De lá para cá acrescentaram-se gradativamente mais realizações, que foram aprimorando estas aqui elencadas.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Leia também:

Criando uma Agenda Cultural (I), por Walnice Nogueira Galvão

Criando uma Agenda Cultural (II), por Walnice Nogueira Galvão

Um festival de verão, por Walnice Nogueira Galvão

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

ze sergio/sorocabanoburaco

- 2022-04-25 12:07:42

É preciso fazer uma ressalva. O Estádio do SPFC, Clube que representa toda a vanguarda e primazia da Nação Brasileira guiada pelas excelência Paulista é Obra Privada. Com Dinheiro Privado do próprio Clube e seus Associados. Maior do Mundo. Não á toa representa SÃO PAULO, sua Liberdade, sua Democracia, sua Vanguarda, sua Evolução, sua Sociedade Civil Farol e Porto Seguro da Humanidade. Todo restante é Obra Pública de um período obscuro onde a Nação Brasileira se enterra, entre Corrupção, Superfaturamentos e Cleptocracia. A maquete é do Estádio do Morumbi. Estádio Cícero Pompeu de Toledo. Lar do SOBERANO. Maior de Todos. Sacro Santo Templo do Futebol. (o abismo para o restante dos exemplos é intransponível)

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador