Desenhos de Sylvia Plath, por Maíra Vasconcelos

Os desenhos são muito importantes para mim

Desenhos de Sylvia Plath
por Maíra Vasconcelos

Ela sempre usava lápis, caneta e nanquin. Enquanto viva, seus desenhos nunca foram reconhecidos e nem vendidos, ainda que Sylvia Plath sonhasse com a possibilidade de usá-los como ilustração de seus escritos. Nunca foram. Chegaram às vistas do público em 2011, vendidos na Mayor Gallery, em Londres.

Em seus desenhos tive sensação oposta à leitura dos poemas de Ariel, por exemplo. Seus traços erguem esperança ao olhar. Esperança que suas palavras nunca tiveram ou transmitiram, digo da minha leitura, porque parecem preferir antes se sufocar, deixar-se extrair ao máximo em busca de cada nova palavra para determinar o que, enfim, não se poderá alcançar pela escrita.

Veja bem o Touro perto de Grantchester, ele é capaz de descansar de costas sem se importar, porque há demasiada confiança e segurança nele mesmo e no ambiente que o rodeia, sem que isso seja um esforço. É apenas óbvio que o touro descansará reclinado ao lado que mais lhe convém.

O Gato francês curioso (1956) é tão curioso que não se mostra totalmente, não se entrega em absoluto ou em um salto como é típico dos gatos. A curiosidade permanece ali como moeda de troca, ou quase isso. O gato, espiando, se deixa ver apenas por uma greta porque a curiosidade precisa ser atiçada e guardada também. Como quem diz, permaneçamos todos curiosos e à procura. Atrás da curiosidade sempre reside o perigo e a natureza do gato é sábia diante dessa certeza. É bom guardar a curiosidade, é como manter a esperança acesa.

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Tão divertida em o guarda-chuva onipresente (1955-56), ora, quem poderia imaginar tamanha diversão na autora de Redoma de Vidro. Brincando com o clima londrino, transformando o guarda-chuva no objeto menos cinza que os ingleses já viram, e ao mesmo tempo resguardando-o na sua importância.

O prazer das quinquilharias,2 (1957) parece mais uma de suas diversões que sorriem para comuns modos do cotidiano, ao retratar o amontoado de objetos diversos em um depósito. Isso que é como se ter uma casa já há muito habitada e que, inevitavelmente, irá entulhar objetos.

O barco mais frágil que já conheci é Esboço para um barco (1956). Chego a duvidar se este desenho quer mesmo ser barco ou apenas se dissolver com as águas. Claro, é um esboço. E esboços, geralmente, assim como estudos de desenhos e pinturas, dão a impressão de pretender incorporar a figura, mas sem chegar a concretizar a forma exata. Sempre tenho a impressão de ver um esfumaçado, nesses casos. Este esboço de barco é quase quase uma água com contornos, porque não é barco ainda, é quase um barco. E o mesmo acontece em Estudo para um barco e Estudo de um barco de pesca.

Mas, quando finalmente ela define o barco, eis que o mesmo se encontra partido ao meio, cortado, aberto, cheio de areia e algumas folhagens. O barco foi concluído em Barco ao largo de Rock Harbour, e foi também quando encalhou na beira mar. Sem que, por isso, tenha aspecto de desistência e fim. Não, ali é apenas o lugar que bem lhe coube, apenas isso, um lugar onde lhe acometeu estar junto ao todo que o rodeia.

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Talvez, o único desenho em que Sylvia Plath possa ser interpretada com aspectos de decaimento como em seus escritos, é no Estudo de uma figura sentada (1957). Ali, tem-se uma mulher, ela está de costas, com a mão direita no queixo, a cabeça um pouco reclinada para baixo. Isso que pode sugerir a posição dela própria, mulher escritora. E está de costas, reparem. O desenho não está titulado como autorretrato. Em seus desenhos nota-se a diferença da mulher que desenha e da que escreve. Também nas cartas familiares isso fica muito nítido. Que alegria tinha Sylvia Plath em desenhar. Talvez, ela fosse menos ela mesma quando desenhava, como se os desenhos fossem usados como hora de descanso.

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