Exposição Gaudí, por Walnice Nogueira Galvão

Exposição Gaudí

por Walnice Nogueira Galvão

A obra de Antoni Gaudí – veja Exposição no Instituto Tomie Ohtake – assinala o ponto máximo de um desabrochar  artístico e intelectual na Catalunha, que floresceu no período a cavaleiro da virada de século (XIX-XX), tornando Barcelona um modelo de cidade moderna. Embora subjugados à Espanha até hoje, com alguns privilégios de autonomia como falar catalão e ministrar ensino em sua própria língua, os catalães são um povo orgulhoso de seu passado e de seu tesouro cultural, assim como de seu percurso de lutas. A resistência se acentuaria durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1938), quando a região seria um baluarte de democracia e republicanismo  contra o golpe de estado do general Franco, que traria um atraso obscurantista de 40 anos ao país todo.

O séc. XX assistiu à eclosão daquilo que o universo de língua espanhola rotulou de modernismo e que tem significado diferente para nós. Nosso modernismo começa em 1922 com a Semana de Arte Moderna e frutifica daí para a frente. O deles é anterior e corresponde ao que chamamos de Art Nouveau (para nós: pré-modernismo), com fortes marcas do simbolismo e do parnasianismo. Caracteriza-se por uma rejeição do equilíbrio neoclássico, demolindo seus padrões geométricos, lineares e simétricos. A nova estética entroniza a assimetria e a natureza. Claro que esta, altamente estilizada – e veremos o que Gaudí é capaz de fazer com a natureza.

O arquiteto deixou sua assinatura no tecido urbano de Barcelona de várias maneiras. Suas obras são tão gloriosamente excêntricas que é impossível não vê-las. Entre elas várias “casas” , ou prédios – a Casa Battló, a Casa Milá (La Pedrera) – e mais o enorme Parque Güell, obrigatório para o visitante.

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Nascido de uma feliz parceria que durou décadas entre o arquiteto e o rico industrial Eusebi Güell, admirador sem restrições e financiador de vários projetos, o Parque serviu para Gaudí testar muitas de suas ideias, que nunca eram de baixo custo nem de fácil realização. Levou a extremos a imitação da natureza, como se pode ver na colunata que sustenta a praça elevada do Parque. Tomando as árvores como modelo, não ergueu uma única coluna vertical e simétrica, como aquelas a que nos acostumaram os egípcios e os gregos. Todas são tortas e inclinadas, parecendo estar a despencar, e ademais são diferentes umas das outras. Os turistas se regalam em tirar fotos simulando tentar “endireitar” essas colunas.

Bizarras edificações de fantasia pululam pelo Parque, entre elas o grande dragão em uma das três fontes. Ali, Gaudí fez farto uso de um de seus estilemas prediletos, que é o uso do trencadís, ou cacos coloridos de azulejos e vidros formando o revestimento de paredes, bancos e figuras, a exemplo do dragão. Nisso, foi um precursor tanto da reciclagem quanto da bricolagem.

Isso sem falar no Temple Expiatori de la Sagrada Familia. Obra maior e culminante da vida de Gaudí, dedicação exclusiva de seus últimos anos, é nada menos que espetacular. Não se sabe o que mais admirar, se a beleza da execução ou a audácia do projeto, aberto para o futuro. Se há algum work in progress, é aquele, porque faz cem anos que continua em construção e ninguém sabe quanto terminará. Prometem para 2026, mas há quem duvide.

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Tudo isso está representado na exposição. Metade mostra pintores coevos de Gaudí, juntamente com o estágio das Artes e Ofícios de então, expressas na decoração de interiores, nos moveis, nas ferragens, nos pisos e tapetes, nos lustres. A outra metade é dedicada integralmente a Gaudí, apresentando  maquetes de seus trabalhos, com ênfase em uma linda e intrincada da Sagrada Família. Uma série de vídeos traz os riscos e croquis, mostrando  sua maneira de projetar, com obsessão pelo cálculo e pela resistência de materiais. Vê-se como montava uma rede de cordões da qual pendem saquinhos de tecido cheios de grãos de chumbo, que se transformam em curvas de abóbadas e ogivas – depois era só virá-los ao contrário, de ponta-cabeça, e pronto. A minúcia de sua obra diária (missão de Sísifo) fica assim patenteada, e é admirável. Viva Gaudí!

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
 

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