Leonardo da Vinci, o pintor-filósofo, por Mazé Leite

Neste ano de 2019, diversas atividades ao redor do mundo estão reunindo milhões de pessoas em torno de um mesmo nome: Leonardo da Vinci. O motivo: neste 2 de maio completaram-se 500 anos da morte deste gênio da humanidade. Um homem que se destacou em diversas áreas do conhecimento, entre elas a pintura.

O mural A Última Ceia, uma das obras-primas de Leonardo da Vinci, hoje está afetado pela ação do tempo

do Portal Vermelho

Leonardo da Vinci, o pintor-filósofo

por Mazé Leite

Leonardo nasceu na aldeia de Vinci, perto de Florença, na Itália. Ele foi, além de pintor, cientista, engenheiro, inventor, escultor, arquiteto, anatomista, urbanista, botânico, músico, poeta, filósofo e escritor. Mas este texto pretende se focar em Leonardo da Vinci pintor.

Leonardo nasceu em 15 de abril de 1452. Sua mãe, Caterina, era uma camponesa e engravidou de uma relação amorosa com um nobre descendente de uma rica família florentina. O menino viveu seus cinco primeiros anos com a mãe e foi batizado apenas como “Leonardo”, prática comum no registro de nascimento de pessoas de origem humilde. Somente as famílias ricas possuíam um sobrenome. Por isso, “Da Vinci” foi acrescentado depois, apontando seu local de nascimento.

Quando ele tinha 5 anos, sua mãe casa-se com um camponês e ele vai viver com seu pai, Piero, mas, mesmo crescendo e sendo educado longe de sua mãe, registros mostram que Leonardo a ajudou financeiramente até à morte dela, em 1495.

Seu tio por parte de pai, Francesco, desempenhou um papel importante em sua formação, assim como seu avô Antonio, que incentivava o garoto a observar a natureza. Dizem que seu avô vivia lhe repetindo: “Abra os olhos!” Leonardo frequentou a escola só na adolescência, mas de forma irregular, aprendendo o básico da leitura e da aritmética. Somente aos 40 anos ele foi aprender as línguas dos eruditos e homens cultos, o grego e o latim.


Virgem das Rochas, um exemplo do talento de Leonardo da Vinci

Em consequência do seu crescente interesse por desenho, seu pai o enviou para estudar no ateliê do pintor e escultor florentino Andrea del Verrocchio a partir de 1469. Este ateliê era um dos mais prestigiados da Florença Renascentista.

Verrocchio era um artista famoso e tinha uma formação que ia de ourives e ferreiro a pintor e escultor. Ele recebia muitas encomendas, as quais eram realizadas com a participação também de seus alunos. Leonardo, enquanto limpava os pinceis de seu mestre e fazia outras pequenas tarefas, foi aprendendo as técnicas praticadas em uma oficina tradicional de arte da época. Ele aprendeu também os conceitos básicos de química, metalurgia, trabalho em couro e gesso, mecânica e carpintaria. E, claro, técnicas de desenho artístico, pintura e escultura em mármore e bronze. Além disso, aprendeu a preparar as cores, misturando pigmentos em pó com óleo de linhaça. Também a técnica da gravura e a pintura de afrescos. E foi se destacando de tal forma que Verrocchio lhe passou a tarefa de terminar suas pinturas.

E. H. Gombrich em seu livro “A história da Arte” complementa dizendo que na oficina de Verrocchio, Leonardo também “aprendeu a estudar plantas e animais curiosos para incluir em seus quadros e recebeu fundamentos básicos sobre a ótica da perspectiva e o uso de cores.” E diz que qualquer outro rapaz com talento sairia da oficina do mestre como um respeitável artista, mas Leonardo ia além: “era mais do que um jovem talentoso. Era um gênio cujo intelecto poderoso será eternamente objeto de assombro e admiração para os mortais comuns”.

Leia também:  Putrefação moral dos agentes da lava jato, por Francisco Celso Calmon

Não havia nenhuma forma de conhecimento humano da época que não atraísse seu interesse: seus papeis com anotações e desenhos são milhares de páginas, produzidos a partir de suas leituras. Ele projetava escrever livros sobre diversos assuntos. Neste sentido, Gombrich faz uma observação bastante interessante: Leonardo era um artista florentino e não um acadêmico erudito: “Considerava ele que a função do artista era explorar o mundo visível, tal como seus predecessores tinham feito, só que de maneira mais abrangente e com maior intensidade e precisão”. Ele sempre estava querendo verificar com seus próprios olhos, aquilo que havia lido de algum autor. Por isso, entre outros inúmeros experimentos que ele fez em várias áreas, chegou a dissecar cerca de 30 cadáveres, para estudar a anatomia do corpo humano.

“Passou anos observando o vôo de insetos e pássaros” e observava atentamente a forma de pedras e nuvens, “o efeito da atmosfera sobre a cor de objetos distantes”, assim como a harmonia dos sons. Ele não somente era admirado como pintor, mas também como “esplêndido músico”. Era canhoto, e por isso escrevia da direita para a esquerda. Para ler seus escritos é preciso se utilizar um espelho. Sua insaciável curiosidade o levou a estudar inúmeras áreas; mas “resolvido um problema” perdia todo o interesse por ele “já que existiam outros mistérios a se desvendar”, observa ainda Gombrich.

Giorgio Vasari, um artista do Renascimento e que escreveu a célebre obra “Vida dos melhores pintores, escultores e arquitetos”, afirma, na parte em que trata de Leonardo da Vinci, que ele tinha tanta facilidade para aprender qualquer coisa, que muitas vezes, com seus questionamentos, confundia seus professores. E acrescenta que talvez por isso, fosse “tão volúvel e instável” porque “começava a aprender muitas coisas e depois as abandonava”. Dedicou-se algum tempo a aprender Música e a tocar Lira e cantava “divinamente” bem. Mas o desenho e a escultura “despertavam mais seu interesse do que qualquer outra coisa”.

Em 1472, com 20 anos de idade, ele foi aceito como membro da Guilda de São Lucas, a famosa guilda de pintores e praticantes de medicina, em Florença. Uma observação: toda a química que envolve o ofício da pintura naquela época era adquirida no mesmo lugar, a botica, onde os médicos também adquiriam seus produtos. Por isso, São Lucas é o mesmo patrono de pintores e médicos. As guildas eram um tipo de associação, durante a Idade Média, que juntava indivíduos que praticavam o mesmo ofício ou tinham os mesmos interesses.


Acredita-se que Madona com o Cravo seja a primeira pintura de Da Vinci

Sua carreira como pintor começa já executando obras de alto nível pictórico. Leonardo aperfeiçoa a técnica do sfumato a um ponto de refinamento nunca alcançado antes dele. Mas seus variados campos de interesse e atividades que envolviam sua vida prática, fez com que ele não tivesse feito muitas pinturas: há pouco mais de uma dezena de sua autoria e algumas outras atribuídas a ele. Sua primeira pintura teria sido a “Madona com o cravo”, de 1476.

Mas E.H. Gombrich afirma que toda a curiosidade e profundo interesse que Leonardo desenvolvia com o mundo a seu redor tinha um motivo muito importante para ele: sua arte. Ele queria – com toda a sabedoria adquirida – elevar a arte da pintura, que era “um ofício humilde” na época, a um patamar mais alto, mais nobre e prestigioso.

Leia também:  3º Aniversário da Tentativa de Golpe na Turquia, por Serkan Gedik

Desde Aristóteles, certas artes – as chamadas Artes Liberais (Gramática, Retórica, Lógica e Geometria) eram apontadas como de caráter mais “nobre”, enquanto que as artes manuais, que implicavam trabalho manual, estavam “abaixo da dignidade de um cavaleiro”. Por isso – segundo Gombrich – Leonardo queria mesmo era alçar a Pintura às Artes Liberais e mostrar que o trabalho do pintor não era menor do que o do poeta, que escreve suas poesias. Consciente do valor do seu ofício, muitas vezes Leonardo recusou encomendas e entrava em disputa com seus clientes que não o valorizassem como ele gostaria. Também iniciou várias pinturas que nunca terminou, apesar das reclamações dos clientes. “Além disso, insistia obviamente em que só a ele cabia decidir quando uma obra estava terminada e recusava-se a entregá-la enquanto não se considerasse satisfeito com ela”, apota Gombrich.

Com seu espírito inquieto e sedento de conhecimento, não parava de viajar entre Milão e Florença. Também viajou para Roma, Veneza e para a França, onde morreu em 1519.

Suas obras chegaram até nós em péssimo estado de conservação. O mural “A Última Ceia”, pintado para o refeitório de um convento de monges de Santa Maria delle Grazie, em Milão, está muito afetado pela ação do tempo e pelo desgaste da parede onde foi pintado. Mesmo assim, esta obra é uma das mais visitadas por milhões de pessoas desde que foi pintada. A fila de espera, nos dias atuais, é longa; leva-se meses para se adquirir o ingresso vara ir ver a “Última Ceia” em Milão.

Este tema já havia sido retratado por outros pintores, mas a pintura de Leonardo foi algo absolutamente novo naquele tempo. Era muito diferente de todas as outras. “Há nela drama, teatralidade, excitação”. Na versão de Leonardo, Cristo acabara de pronunciar palavras trágicas (“Um dentre vós me trairá”). Os apóstolos a seu lado estão horrorizados, alguns protestam, outros discutem. Judas não está afastado dos outros apóstolos mas é o único que não gesticula. Cristo, no centro da mesa, parece resignado e calmo, em meio ao alvoroço. Toda a composição do quadro é impressionantemente realista: foi pintada por um homem que também observava a psicologia humana, sua natureza mais íntima e seu comportamento.

Diz-se que um homem que acompanhou Leonardo trabalhando nesta pintura, teria testemunhado que ele “subia no andaime e aí ficava ereto por dias inteiros, os braços cruzados, apenas olhando com o olho crítico o que já tinha feito, antes de aplicar outra pincelada”.

O historiador de arte E.H. Gombrich, afirma que, até ser pintada a “Mona Lisa” de Leonardo, as figuras humanas pintadas por outros artistas tinham algo de duro, parecido como se fossem figuras de madeira. A grande sacada deste artista imenso foi a de que não se deve descrever o todo de uma figura. “O pintor deve deixar ao espectador algo para adivinhar”. Não há necessidade de traçar todos os detalhes, de descrever absolutamente tudo. Há que se deixar formas indefinidas, bordas mais suaves, massas de luz e cor que ultrapassam nariz, boca, olhos, por exemplo. Nesta obra, Leonardo caprichou ainda mais no sfumato, técnica que suaviza a transição entre a luz e as sombras.


Mona Lisa, com seu sorriso indescritível, é um dos quadros mais conhecidos no mundo

Esta pintura é conhecida, em particular, pelo sorriso indescritível no rosto da mulher, cujos olhos parecem nos seguir, quando a vemos de perto no Museu do Louvre em Paris. O sfumato sutilmente “cria” os contornos da boca, nariz e olhos, de tal modo que dá um certo mistério a esse sorriso, que já foi tão estudado ao longo dos anos. Giorgio Vasari escreveu que “o sorriso é tão bom que parece mais divino do que humano; aqueles que o viram ficaram muito surpresos ao descobrir que ele parece tão vivo quanto o original”.

Leia também:  A esquerda precisa mudar o discurso, por Daniel Dalmoro

Como desenhista, Leonardo encheu seus diários com esboços e desenhos detalhados para acompanhar tudo o que chamava sua atenção. Além de anotações, há muitos estudos para pinturas, algumas das quais podem ser consideradas preparatórias para obras como “A Adoração dos Magos” e a “Última Ceia”. Seu primeiro desenho datado é uma paisagem, “Paisagem do Vale do Arno” de 1473.

Mas seu desenho mais famoso é o “Homem Vitruviano”, um estudo das proporções humanas.

Outros desenhos incluem muitos estudos geralmente chamados de “caricaturas” porque, embora exagerados, parecem basear-se na observação de modelos vivos. Giorgio Vasari relata que, se Leonardo encontrava uma pessoa que tinha um rosto interessante, ele a seguia o dia todo para observá-la. Há muitos estudos de homens jovens e bonitos, frequentemente associados a Andrea Salaí, que teria sido seu amante. Salaí também é frequentemente representado em fantasias e adereços.

Leonardo da Vinci morreu na antiga vila de Clos Lucé, no vale do Loire, na França. Ele havia se tornado grande amigo do rei francês Francisco I e Vasari relata que Leonardo teria morrido em seus braços. Cerca de 20 anos após sua morte, o mesmo rei teria falado, segundo o escultor Benvenuto Cellini:

“Nunca nasceu no mundo outro homem que soubesse tanto quanto Leonardo, nem tanto por seus conhecimentos de pintura, escultura e arquitetura, mas por ele ter sido um grande filósofo”.

Filósofo que nasceu naqueles dias em que seu avô Antonio lhe repetia o tempo todo para estar de olhos abertos para o mundo…

Mazé Leite, pintora e ilustradora, é bacharel em Letras pela USP. Está à frente do Ateliê Contraponto de Arte Figurativa

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome