Mostra de Basquiat em São Paulo, por Walnice Nogueira Galvão

Foto de Julio Donoso

Mostra de Basquiat em São Paulo

por Walnice Nogueira Galvão

Um fulgurante astro riscou o firmamento das artes visuais e num átimo se apagou,  morrendo de overdose aos 27 anos: Jean-Michel Basquiat.

A exposição ora no CCBB de São Paulo enfatiza sua criatividade, seus interessantíssimos experimentos e sua ousadia. Uma boa amostra de tudo o que fez, em tão curta vida.

Tendo começado como grafiteiro nas ruas de Nova York, Basquiat logo evidenciou a capacidade de expandir-se para um âmbito maior. Chamou a atenção de marchands e de outros artistas, como Andy Warhol, que lhe emprestou uma mão amiga e com ele produziu em parceria cerca de uma centena de obras. 

Como podemos verificar, Basquiat tornou-se um mestre na bricolagem, na montagem e na colagem, submetendo até mesmo o suporte a um tratamento de choque. Vemos vários trabalhos em que são reaproveitadas madeiras de demolições ou mesmo do lixo, questionando a forma bidimensional e retangular do quadro convencional, revolucionando suas coordenadas. O conjunto de signos desenhados, pintados e escritos – sim, seus quadros são cheios de letras, palavras e frases – exige decifração, que pode ser contestada e às vezes sujeita a elocubrações abusivas. Utilizava habitualmente tinta acrílica aplicada com bastão, sobre desenhos e aquarelas, amiúde com cores berrantes.

Basquiat era filho de pai haitiano com avós portoriquenhos pelo lado materno, e sua afrodescendência foi alvo de reflexão e de expressão plástica. Dedicou-se a honrar os herois das causas negras, entronizando seus feitos no atletismo ou na política, bem como no jazz, de que era aficionado. Tornou-se, no panorama hegemônico invariavelmente branco do meio artístico, um representante da negritude.

Sua obra sumariza bem o que se passava nas ruas trepidantes da cidade de Nova York nas décadas de 70 e 80 em que viveu, décadas em que jorrava a livre invenção, ainda com ressonâncias das turbulências da década de 60, em que parecia que existiam vulcões em incessante erupção, alimentando a cultura por longo tempo depois. Muita coisa cabe em seus trabalhos, mistura de street art com hip hop e rap, citações do pop, do punk, e assim por diante. Graças à educação que recebera, não era totalmente popular apenas, mas introduzia em seu ofício vários elementos da cultura erudita.

Pelo menos nos Estados Unidos, senão em outros cantos do planeta, o grafite nasceu no metrô de Nova York, colorido, escandaloso, um grito de identidade contracultural, manifestação de uma necessidade premente de expressão. Uma reivindicação de voz dentro do anonimato da cidade grande com suas multidões sem face e sem caráter. Todo mundo se lembra do espanto que causaram aqueles rabiscos gigantescos incompreensíveis e com as cores do arco-iris nos vagões do trem subterrâneo da capital norte-americana. Hoje o grafite é uma forma de arte perfeitamente aceita e praticada no mundo todo. Nem precisa dizer que Basquiat, com sua arte urbana e até metropolitana, é um de seus ícones mais salientes. Muitos, como ele próprio e como nossos célebres patrícios OsGêmeos, já estão nos museus.

É verdade que Basquiat recebeu alguma educação artística formal em escolas especializadas, mas sempre lutou contra essa formação, que a seu ver tolhia a invenção livre. Tornou-se modelo e padrão para uma arte nova, metropolitana, nutrida do humus das ruas, fervilhando de contemporaneidade. Sua influência é imensa e estende-se ao mundo todo.

Desnorteou um tanto a crítica, que não sabia bem como classificá-lo em razão de sua incontornável originalidade, acabando por adequar a ele o rótulo de neoexpressionismo. Mas há um inegável elemento de surrealismo em sua arte, fazendo lembrar as colagens de Max Ernst – desde que este fosse negro, americano e nascido no final do séc. XX em Nova York…

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Merece registro a informação de que todas estas obras pertencem a um único colecionador, o magnata colombiano da indústria têxtil José Mugrabi: por isso a exposição se oferece como Coleção Mugrabi.

Tal a raridade de uma mostra de Basquiat – até início de abril no Centro Cultural Banco do Brasil –  que os curiosos afluem em massa, notando-se a presença de grafiteiros entre os espectadores.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

 

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