Nobres & Vagabundos, por Franco Átila

Durante muito tempo, a arte (e os artistas) escaparam da absorção capitalista, pelo menos em parte. Aos artistas foi permitida uma vida sem trabalho, típica dos nobres e vagabundos, e neles se tolerou a loucura e a embriaguez.

Enviado por Wilton Moreira

Do Poesia Agora

Nobres & Vagabundos

Por Franco Átila

O sonho dos artistas

A união da arte com a vida é um sonho acalentado pelo artista moderno. A civilização burguesa tende a expandir o capitalismo a todas as esferas da vida: tudo e todos se tornam mercadorias e só tem importância o que pode ser mensurado como valor de troca: saberes, pessoas, coisas, seres vivos, terras…

Durante muito tempo, a arte (e os artistas) escaparam da absorção capitalista, pelo menos em parte. Aos artistas foi permitida uma vida sem trabalho, típica dos nobres e vagabundos, e neles se tolerou a loucura e a embriaguez.

O preço desta tolerância foi a separação entre arte e vida. Se o artista desfruta de uma liberdade moral que a pessoa comum não tem, sua atividade (a arte) deve ser claramente delimitada da vida em sociedade: uma coisa é a arte (ficção, artifício, imaginação), outra é a vida real.

O quadro é a expressão acabada desta separação. No seu interior circula o universo estético do pintor, teatro imaginário delimitado pela geometria retangular moldura. Fora dela, o mundo real. Se ficção e realidade se influenciam mutuamente, não deve restar dúvidas de que há claro limite entre eles.

Nas sociedades anteriores aos capitalismo esta separação, ou nao existia, ou não tinha a precisão geográfica da moldura. Em muitas culturas pré-capitalistas não havia nem mesmo uma palavra que se aproximasse do que entendemos por arte: um mundo e um fazer estéticos separado do mundo e fazer ordinários da vida real.

Os artistas da civilização burguesa ficaram livres do trabalho – fazer convertido em mercadoria, voltada para a produção de mais mercadorias que se tornam, por sua vez, valor de troca. Em contrapartida se apartaram do mundo e levam, enquanto artistas, uma vida marginal, fora da sociedade, produzindo objetos inúteis, do ponto de vista do valor de troca: pinturas, esculturas, músicas, poemas, romances, teatro.

O sonho dos artistas é a reintegração da vida na arte ou, por outras palavras, o fim da arte. Afinal, numa vida vivida esteticamente não haveria necessidade de haver uma esfera da ficção e um fazer artístico separados da vida ordinária. Mas isto demandaria também o fim do capitalismo, pois o fazer instrumental voltado para o capital (o trabalho)  é incompatível com uma vida em que a atividade humana se confunde com o fazer estético. Certamente haveria pessoas mais propensas e especializadas no que chamamos de arte, mas sua posição e função sociais seriam distintas do papel de louco embriagado que o artista exerce no capitalismo.

O pesadelo dos artistas

Embora a arte tenha permanecido, em grande parte, independente do mundo capitalista, como universo e como fazer estéticos, ela não está imune à expansão do capital a todas as esferas da vida. Na verdade, desde a invenção da imprensa (desde os primórdios do capitalismo, portanto) o capital tenta se apropriar da arte como mercadoria. E o primeiro artista pop é ninguém menos que o Deus cristão. A reprodutibilidade da Bíblia impressa preludia a mercantilização da arte, que mais tarde os frankfurtianos vão chamar de indústria cultural.

Na esteira da narrativa bíblica, o romance será, por muito tempo, o epicentro desta crescente tensão entre o mundo “fictício” da arte e o mundo “real” da mercadoria, numa luta em que o este último tenta adestrar as forças selvagens daquele, absorvendo o fazer afetivo do artista no trabalho instrumental do burguês. O estatuto do romance oscila entre a obra de arte e a mercadoria; o da escrita, entre o ofício e a profissão; e o do escritor, entre o artista e o trabalhador.

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A partir do século XX, com a invenção das mídias elétricas (rádio, cinema, TV), a tensão entre arte e mercadoria se intensifica, com a última avançando constantemente no reino sagrado da primeira. Para o mundo do capital, a arte deve a ser produzida em massa e para as massas e seu objetivo principal é o lucro. A obra se torna mercadoria e o universo das artes, um ramo de negócios, a indústria cultural.

Na passagem do século XX para o XXI, finalmente a mercadoria triunfa e, com raras exceções, a produção e a fruição estética se torna mais um negócio do capitalismo. Os próprios artistas passam a falar a linguagem dos pequenos burgueses contemporâneos, autointitulando-se empreendedores, inovadores, profissionais eficientes etc. Ou então vestem a máscara de trabalhadores, reivindicando para seu ofício o status de profissão regulamentada.

Finalmente, no século XXI, arte e vida não mais estão separadas. Mas, ao contrário da utopia sonhada pelos artistas do século XIX e de boa parte do séc. XX, não foi a vida que se tornou estética, com a arte derrotando o capital. O que aconteceu foi o contrário: a vida instrumentalizada no capitalismo absorveu a esfera estética e a transformou em mais um negócio, entre tantos.

A arte se tornou entretenimento. A última esfera da vida humana que ainda resistia às coerções do capital, finalmente caiu. O pesadelo dos artistas se tornou realidade.

Do moralismo e das pessoas de bem

Todo moralismo é uma farsa, sem exceção. Na política, na religião, nos costumes, nas artes ou nos negócios, o moralismo é sempre um disfarce para o exercício do ódio e do poder tirânico sobre as pessoas. Quem faz discurso moralista, ou é pilantra ou idiota útil, também (auto)denominado “pessoa de bem”.

A partir da terceira revolução industrial, o trabalho humano está se tornando obsoleto como produtor de valor. Cada vez mais pessoas tendem a se tornar supérfluas para o mercado e são empurradas para o desemprego e o subemprego. Quem ainda se mantém no mundo do trabalho tem medo de se tornar supérfluo.
Sem trabalho, as pessoas são excluídas da vida social e empurradas para a miséria. Incapazes de questionarem o capitalismo, cujas coerções sociais foram naturalizadas na psique, as pessoas tendem a se refugiarem no moralismo, em busca de segurança, certezas e bodes expiatórios em que possam descarregar suas frustrações.

O sucesso do moralismo entre as massas é obra do medo e da frustração que, por sua vez, redunda em ressentimento e  ódio. Os imorais, o grupo de pessoas que se desviam da boa moral, passam a ser o alvo do ódio moralista e se tornam culpados pelas desgraças do mundo.

Os evangélicos odeiam gays e macumbeiros, a classe média odeia os pobres e a esquerda, o povo odeia os políticos, os esquerdistas odeiam a banca e as corporações. E o motivo de tanto ódio é sempre o desvio moral do grupo odiado. Gays e macumbeiros são pecadores, os pobres são preguiçosos, a esquerda quer me roubar e dar aos vagabundos, os políticos são ladrões, a banca é gananciosa etc.

Mas a pessoa de bem, seguidora da moral e dos bons costumes, não acredita que seja ódio ou ressentimento o que ela sente pelo outro “imoral”. O que o moralista diz sentir, acreditando em sua própria mentira, é indignação para com o desvio ético dos imorais, que tanto prejudicam a ordem social. Os evangélicos, que deveriam amar os pecadores, chegam a inventar para si mesmos que amam os gays (como Deus manda), mas abominam as práticas homossexuais, por serem demoníacas. Convenientemente, esta autoilusão “se esquece” que o homossexualismo constitui a singularidade irredutível (a alma) da pessoa que é gay e que não há como abominar o homossexualismo sem abominar o homossexual.

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A necessidade de moralismo das massas se torna um terreno fértil para o surgimento de uma espécie muito particular de vigarista, o líder moral. Nossa época é pródiga no surgimento de líderes morais, prontos a oferecer um bom código moral ao rebanho capitalista amedontrado, frustrado e ressentido, ávido por encontrar um imoral que sirva de bode expiatório para descarregar seu ódio.

A corrupção (da alma, do corpo, dos negócios, do estado etc) se torna uma obsessão em nossa sociedade, onde o discurso moralista se tornou hegemônico. Para a mente moralista, a corrupção é a fonte de todos os males e deve ser combatida com rigor, assim como os corruptos, que devem ser punidos para se purgarem dela e servirem de exemplo aos que se sintam tentados a se deixarem corromper.  A moral deve ser atingida pelo convencimento, mas também pela coerção.

A coerção, “necessária” para o estabelecimento da boa moral, é a brecha para a proliferação das tiranias e protofascismos, pragas que infestam, por todo o globo, o tecido social do capitalismo tardio. O mundo atual se tornou o paraíso para o líder moral, o vigarista que se aproveita dos medos e ressentimentos do povo para impor ao rebanho atordoado sua tirania moralista, que não hesita em punir, com requintes de sadismo, o imoral que insiste em não se comportar como uma pessoa de bem.

BRock

O Rock Brasil (BRock) é um produto da indústria cultural do país. Foi o primeiro produto musical de larga escala pós-redemocratização e colocou o mercado da música em patamares jamais vistos anteriormente.

O BRock é pobre esteticamente (música e letra), acessível e dançante. Tornou-se o entretenimento ideal para a juventude desnorteada das décadas de 80 e 90 e prenunciou ondas musicais ainda maiores e mais lucrativas: axé music, sertanejo, pagode, funk etc.

O BRock tem classe social e cor no Brasil. É música de jovens brancos de classe média. Trata-se, portanto, de uma reverência subserviente à cultura dos EUA e Inglaterra, cuja indústria cultural, há muito, já havia expropriado o rock dos negros americanos.

No entanto, há duas correntes no BRock, uma iê, iê, iê (o chamado rock de bermuda) e outra mais neurótica e agônica, com letras críticas e som pesado. Esta segunda corrente, também chamada rock de protesto, é a voz de adolescentes brancos de classe média que odeiam sua própria condição e se sentem oprimidos pela racionalidade asséptica da vida pequeno burguesa e seu cotidiano fútil e confortável entre o condomínio, o shopping e a escola (e quando adultos, o trabalho).

O BRock de protesto é um grito contra o modo de vida classe média, vindo de seus próprios rebentos. Continua sendo uma subserviência à cultura norte-americana e uma expropriação dos negros, mas em sua revolta contra a própria classe, resgata uma aliança com a voz dos negros, sua resistência e seu sofrimento.

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Os adolescentes brancos e bem nascidos do BRock conseguem ver o óbvio: o homem de classe média é um escravo. O ser homem branco, profissional, bem educado, cidadão pronto para o mercado, competitivo, que 11 entre 10 minorias do mundo (negros, latino-americanos, mulheres, gays, árabes, asiáticos) almejam se tornar é um escravo inconscientemente voluntário, cujo senhor é o capital.

Os novos nobres

Nietzsche é um filósofo reacionário, não importa o quão vanguardista ele seja. O que mais seria, senão reaça, quem defende a aristocracia como regime político ideal?

Mas há um jeito de salvar Nietzsche, não para ele (que certamente riria de tal presunção), mas para nós. Ele odiava o escravo, o espírito de cordeiro que se manifestava no cristão e no democrata burguês (uma extensão do cristão). Por isto ele recusava a ideia de uma democracia burguesa, que seria apenas um governo de escravos.

Nisto, ele acertou em cheio, assim como os roqueiros brasileiros. A democracia representativa, sua igualdade formal, suas leis e instituições, seu ideal de cidadania e a mitologia do estado de direito nada mais são que a face política da escravidão capitalista. Desejar a democracia e, na democracia, querer o conforto “civilizado” da vida classe média é querer ser escravo, como todos queremos.

Um projeto para a emancipação do capitalismo seria, não a retomada reacionária de um regime aristocrático, como Nietzsche queria, mas a recuperação, para cada indivíduo, de uma certa nobreza de caráter.
A sociedade emancipada do capitalismo exigiria uma revolução antropológica que extirparia os afetos submissos do escravo (trabalhador, gerente, rentista, proprietário) que nos habita, para colocar, em seu lugar, os afetos altivos do nobre: o orgulho e a generosidade, o autogoverno de si, o amor ao ócio, o ódio do trabalho e, principalmente, o desprezo pelo escravo.

Desprezo, não por um escravo fora de nós, por um povo ou grupo social que deveria ou mereceria ser escravizado, mas pelo escravo interior, submisso voluntário à toda sorte de tiranos: padres e pastores, democracia de massas, capital.

Numa sociedade emancipada do capitalismo, o exercício da nobreza não seria para manter os privilégios de uma elite opressora, como nas aristocracias do passado. Mesmo porque a sociedade emancipada seria desprovida de classes e castas, composta em sua totalidade por homens e mulheres nobres e iguais. A luta pelo triunfo da nobreza se daria principalmente no espaço íntimo da psique, se expandindo para o fora social. A nobreza pessoal se afirmaria como recusa à qualquer submissão, seja a uma pessoa, a determinados grupos sociais ou a senhores abstratos e impessoais, como a técnica e o capital.

O nobre deve ter orgulho de sua liberdade radical, mas também deve ser capaz de identificar falsas liberdades e combatê-las com ferocidade. No capitalismo tardio, por exemplo, os neoliberais e os ditos libertários acreditam-se pessoas de mentes livres por lutarem contra o leviatã estatal. Advogam que, ao contrário do estado, o mercado proporciona o exercício pleno da liberdade. Em suas ilusões, trocam um senhor ruim, o estado, por outro pior ainda, o mercado, que é a expressão mais direta do capital e suas coerções impessoais. Neoliberais, liberais e libertários têm espírito de escravos e não sabem: acreditam-se livres. A escravidão inconsciente é a mais eficaz que há. E a mais perigosa também.

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