Barroco, por Rosângela Vig

Do Obras de Arte

Barroco

Por Rosângela Vig

“Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer,
Animoso, constante, firme e inteiro:

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer;
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.”
(MATOS in BASTOS, 2004, p.13)

A competência de Gregório de Matos (1636-1696) lhe valeu o título de um dos maiores poetas do Barroco, no Brasil e em Portugal. Seu espírito crítico lhe conferiu a alcunha de Boca do Inferno, por muitas vezes satirizar políticos, comerciantes e o clero. Escreveu poesias líricas e satíricas, mas foi em sua poesia religiosa que trouxe à tona seus anseios, espelhando as próprias aflições humanas do século XVII, dividido entre a herança religiosa da Idade Média1 e o teocentrismo; em oposição ao legado antropocentrista e humanista do Renascimento e ao Movimento de Contrarreforma2, 3, do século XVI. A poesia religiosa de Gregório de Matos é como um reflexo do pensamento humano, do Barroco. Sob a forma de lamentação; exprime a oposição entre a razão e a fé; externa a consciência do pecado, do arrependimento; faz um pedido de perdão; e demonstra o desejo de purificação espiritual. 

Fig. 1 – Praça de São Pedro, Vaticano, projetada por Bernini, 1656-1667.

Opondo-se à tendência, críticos conservadores, posteriormente designaram o nome Barroco para conceituar o estilo, como absurdo ou grotesco. Para eles, os modelos gregos e romanos jamais deveriam ser abandonados e “Desprezar as normas da Arquitetura antiga parecia, a esses críticos, uma deplorável falta de gosto” (GOMBRICH, 1988, p.302). Contradizendo tais ajuizamentos, o Barroco aflorou, atestando a competência dos artistas em carregarem suas obras de emoção.

As primeiras manifestações do Barroco ocorreram nas Artes Plásticas e tiveram origem na Itália, difundindo-se depois, para outros países da Europa e para a América, inclusive para o Brasil. Atraídos pelo trabalho nas construções de igrejas e de palácios, muitos artesãos, pintores e escultores iam para Roma, que na época, era um grande centro de inovações. O predomínio da emoção sobre a razão foi uma das marcas registradas do Barroco, opondo-se, pois ao equilíbrio e à austeridade renascentistas. Essa dualidade ficou evidente, no contraste entre claro e escuro, na Pintura. A Arte Maneirista, que havia deixado o legado do dinamismo e do movimento, associou-se à dramaticidade exagerada, ao uso de cores mais fortes, e aos temas mitológicos e religiosos, com uma inclinação para o decorativo.

Fig. 2 – Castelo de Versailles, França.

A opulência e os excessos do estilo podem ser explicados por meio da situação histórica. As Reformas Religiosas levaram ao surgimento de novas Igrejas, como a Anglicana, a Calvinista e a Luterana. Contestava-se o poder da Igreja Católica, que reagiu com a Contrarreforma, fazendo combater o protestantismo; levando à criação da Companhia de Jesus; e fazendo retornar a Inquisição. A Arte entrava nesse quadro, como uma forma de promoção da imagem da Igreja, que perdia sua força, na Europa.

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A Arquitetura

O intuito de impressionar e de divulgar a doutrina cristã ficou nítido na grandiosidade das igrejas. Entre os nomes do período, cabe destacar o pintor, escultor e arquiteto italiano Gianlorenzo Bernini (1598-1680); e o cenógrafo, pintor, teórico, professor, decorador e arquiteto Andrea Pozzo (1642-1709), que também atuou como irmão leigo, na Companhia de Jesus. E foi de Bernini, uma das obras mais representativas da Arquitetura e do Urbanismo barrocos. Católico fervoroso, Bernini projetou a Praça de São Pedro (Fig.1), no Vaticano. O harmonioso conjunto arquitetônico apresenta uma colunata, ou fileira de colunas simetricamente dispostas, de forma circular, composta por 284 colunas, com 17 metros de largura, por 23 metros de altura. Sobre elas, estão 162 esculturas de 2,7 metros de altura. Essas colunas ligam-se à fachada da igreja, em linha reta. O centro da praça ainda apresenta um obelisco de 40 metros, do Antigo Egito, do século I, levado a Roma, pelo imperador Calígula. Além da praça, porta de entrada para o Estado do Vaticano, Bernini deixou várias esculturas que ainda podem ser vistas, no Vaticano e em Roma. 

Fig. 3 – Palácio de Versailles, França, The Royal Orangery. 

Se, por um lado, o estilo rebuscado revelava um objetivo maior para a Igreja, que era a afirmação da fé; por outro lado, aos governantes, o Barroco vinha como uma forma de demonstração de poderio e de ostentação de riqueza. Nos palácios, opondo-se, pois à racionalidade renascentista, a decoração esmerada deixou as marcas da magnificência e do esplendor.

Construído no século XVII e representando o poder econômico da realeza, durante o Absolutismo, o Palácio de Versailles (Fig.2), no subúrbio da França, é um dos maiores do mundo. Transformado em museu em 1837 e considerado Patrimônio Mundial pela Unesco, a luxuosa construção abriga inúmeras obras de Arte e uma pomposa decoração, em seu interior, com detalhes em ouro nas paredes e no teto. Entre os arquitetos que projetaram sua longa construção, estão os franceses Louis Le Vau e Jules Hardouin-Mansant. Seus jardins (Fig.3), os maiores já criados, são verdadeiras obras de Arte, com canais, lagos, fontes, esculturas e bosques. Seu projeto paisagístico grandioso, atingiu o objetivo maior de sua construção, o de impressionar os visitantes.

Fig. 4 – A Gloria de Santo Ignazzio, de Andrea Pozzo, 1691-1694.

A Escultura

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
(PESSOA, 2006, p.75,76)”

Opondo-se ao Renascimento, o artista do Barroco procurou comover o espectador, por meio do drama e da exaltação de sentimentos, de forma intensa, traços que ficaram evidentes na Escultura do período. As imagens, ocasionalmente agrupadas, formam belíssimas e dramáticas cenas, com pessoas interagindo, movimentando-se e se contorcendo exageradamente.

Fig. 5 – Anjo sobre a ponte próxima ao Castelo de Santo Ângelo, Bernini, Roma, 1669.

As linhas curvas dos corpos, por vezes, cobertas por vestes, tem movimento em seus drapeados e tecidos, como se estivessem ao sabor do vento. Na obra de Bernini (Fig. 5), é possível que o olhar se perca, por tanta riqueza de detalhes do anjo, no rosto, nas mãos, nos pés e nas vestes. O cabelo e as roupas do anjo deslocam-se com a brisa, deixando à mostra partes do corpo. Um leve esboço das pernas sugere que ameace caminhar. Atento para o objeto em suas mãos, ele parece esboçar um sorriso.

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A Pintura

“Nasce o sol e não dura mais que um dia,
Depois da lua se segue a noite escura
Em tristes sombras morre a formosura
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o sol porque nascia?
Se formosa a luz é, porque não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena, assim se fia?”
(MATOS in MASSAUD, 2000, p.44, 45)

Fig. 6 –  Adão e Eva, Domenichino, National Gallery of Art, Washington, 1626. 

Distanciando-se da graça maneirista, a pintura do Barroco despontou seus primeiros sinais em Roma, com Caravaggio (1571-1610) e com Annibale Carracci (1560-1609). O estilo foi então seguido por outros pintores, como Domenichino (1581-1641), Guido Reni (1575-1642), Pietro da Cortona (1596-1669), Luca Giordano (1634-1705) e acabou avançando para outras cidades cidades italianas e para outros países. Cabe ainda destacar Bernini que, além de escultor e de arquiteto, tinha a pintura, como um hobby. Despontou ainda no Barroco, o talento de Artemisia Gentileschi (1593-1654), uma das primeiras mulheres renomadas como artista. Seu estilo independente consistia em pinturas muitas vezes sombrias, sérias e temas religiosos, distanciando-se, pois das pinturas tradicionais femininas. 

O realce para as emoções, o movimento acentuado e teatral criaram um novo realismo na pintura, apartado da graça maneirista. Eram retratados, a Mitologia, os costumes da época e a religião. Os temas bíblicos apareciam como um instrumento da Igreja, para a divulgação da fé cristã, demonstrando a grandeza de Deus. Nas cenas de Caravaggio, há um acentuado contraste entre claro e escuro; e as figuras mundanas, adquirem aspecto pesaroso. Nas de Caracci, por sua vez, o herói é idealizado; apresenta-se numa cena mais equilibrada e iluminada.

Fig. 7 – José e a esposa de Potifar, Guercino, National Gallery of Art, Washington, 1649.

Conhecido como Domenichino, em virtude de sua baixa estatura, Domenico Zampieri foi pintor, escultor e músico. Seu estilo classicista foi mais próximo ao Annibale Carracci, de quem foi aprendiz. Destacou-se na pintura de temas religiosos e demonstrou grande habilidade com figuras e com paisagens. O contraste entre claro e escuro e o colorido exuberante, uma de suas marcas, está presente em sua obra “Adão e Eva” (Fig. 6). Na narrativa, Deus está castigando Adão, que aponta para Eva, culpando-a por caírem em pecado. Eva, por sua vez, culpa a serpente. A figura de Deus com os anjos é inspirada na imagem A Criação de Adão, de Michelangelo, no teto da Capela Sistina. Na pintura, há animais livres ao redor e a Árvore do Conhecimento, representada por uma figueira, de acordo com a tradição italiana. As obras de Domenichino eram admiradas por artistas franceses acadêmicos e seu estilo narrativo chegou a influenciar Nicolas Poussin, do Neoclássico.

A Arte de Caravaggio influenciou também os pintores flamengos. De Flandres e da Espanha, vale citar nomes como o de Antoon Van Dyck (1599-1641) e de Jacob Jordaens (1593-1678) que, no início de suas carreiras, trabalharam para Peter Paul Rubens (1577-1640). Na Holanda, cabe destacar Rembrandt (1606-1669); e na Espanha, Bartolomé Esteban Perez Murillo (1617-1682), Valdés Leal (1622-1690) e Diego Velázquez (1599-1660).

Fig. 8 – Las Meninas, Diego Velásquez, Museo del Prado, 1656.

Uma simples cena do cotidiano da família real, na Corte de Felipe IV, foi retratada de maneira brilhante, por Velázquez (Fig. 8). O artista trabalhou com a metalinguagem, ao viabilizar possibilidades criativas e várias interpretações, possíveis, na mesma imagem. O ambiente é decorado com quadros, que fazem parte do acervo do palácio. O contraste entre claro e escuro permite que a distribuição de pessoas e de objetos adquira diferentes planos, proporcionando a sensação de profundidade. Todos parecem estar olhando para um casal, que não aparece na cena, mas sua imagem está refletida no espelho, ao fundo da sala. Em outro plano, mais iluminadas e mais à frente, estão a filha do rei, com algumas pessoas e um cachorro. Ao fundo, próximo à porta entreaberta, está um funcionário do palácio, que parece saudar a todos. Velázquez pintou a si próprio na cena e, em suas vestes, há uma cruz da Ordem de Santiago, que pode ter sido com a intenção de hierarquizar sua profissão (VIG, 2010, p.58,59). Em virtude da claridade, é provável que exista uma janela aberta. A obra, uma das mais estudadas, recebeu em 1957, uma releitura de Picasso, aos moldes do Cubismo.

Considerações Finais

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“A sensação que é objetiva pode ser chamada pura e simplesmente de sensação; a que é subjetiva porém, sentimento. A sensação é uma representação que é referida ao sujeito e, por isso, distingue-se do conhecimento. O prazer é uma sensação na qual eu desejo permanecer; desprazer uma tal que eu desejo afastar.” (SCHILLER, 2004, p.41)

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Fig. 9 – O Triunfo de Galateia, Bernardo Cavallino, National Gallery of Art, Washington, 1650.

Talvez as palavras de Schiller sejam ideiais para uma reflexão acerca do estilo Barroco. O filósofo fala a respeito de um sentido mais profundo, na Arte. Assim foi o Barroco, no agir criativo do artista; ao permitir que emergissem as emoções. É assim mesmo que a Arte atua. O artista opera livremente sobre o material que mais o encanta; ele permite que seu interior aflore e que se traduza em pensamento, em história. Os excessos e os estados emocionais do Barroco formam um conjunto sedutor, que nos convoca à fruição. Compreender esse jogo é voltar no tempo; é permitir que emoções venham à tona; é o prazer maior, na Arte.

O estilo ainda despontou no Brasil, dexando marcas em igrejas de várias cidades e merece um capítulo à parte. Aqui, ficaram nomes como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, Mestre Valentim e Mestre Ataíde. E vale ainda refletir um pouco mais:

“Durante anos procurei a possibilidade de conduzir o espectador a “passear” dentro do quadro, de força-lo a fundir-se no quadro, esquecendo a si mesmo.”
(KANDINSKY, 1991, p.87)

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