Uma escolha difícil 7, por Eliara Santana

Editorial do Estadão carrega na tinta em referência aos atores do PT, e expressa "nível de incredulidade e quase pânico"

Por Eliara Santana*

“Desde que o… precipitou a maior crise econômica, política e moral da Nova República, a população esperou em vão por um mísero mea culpa”. Essa é a abertura do editorial de hoje, domingo, 24 de outubro, do jornal Estado de São Paulo.

Após a leitura do relatório final da CPI da Covid, que apontou uma conduta criminosa do governo federal na gestão da pandemia, o que custou mais de 600 mil vida, todos nós leitores pensamos, com propriedade, que o referido editorial vai falar das mazelas e da gigantesca negligência e irresponsabilidade do governo Bolsonaro. Mas não… essa abertura refere-se aos governos do PT. Isso mesmo, o editorial é mais uma parte do “Uma escolha difícil”. agora em sua versão 7.

O título do editorial já é, em si, uma peça para estudo: “O diabo não desiste”.

Chega a ser curiosa essa obsessão do Estadão pelo diabo, não acham? Sabem tudo o que o diabo fez, especulam sobre o diabo, correm atrás do diabo, problematizam com o diabo. Não conseguem mesmo esquecer do diabo rsrs. O diabo se tornou uma ideia fixa para o Estadão. E assim, à medida que o “diabo” cresce enormemente nas pesquisas de intenção de voto, os “puros” (que, entre outras coisas, ajudaram a eleger Jair, o genocida incomível) seguem exigindo mea culpa.

Ficam tão alucinados ao perceberem que todas as articulações para execrar, silenciar e excluír da vida pública o partido e os atores que chamam de “diabo” deram errado que saem a falar coisas sem nexo e até chamam de “modernizantes” coisas que representam o supra sumo do retrocesso para o Brasil. Por exemplo, diz o editorial que “O PT se opôs a reformas modernizantes como a da Previdência, opõe-se a outras, como a administrativa, e não oferece alternativas construtivas aos desmandos que acusa. Em campanha eleitoral, o partido se mostra incapaz de propor uma agenda positiva para o futuro, muito menos de reconhecer os erros do passado”.

Alucinados, não percebem todas as articulações e discussões que o partido vem propondo e não se dignam a saber o teor das conversas que o pré-candidato Lula da Silva (como eles gostam de chamar) anda fazendo pelo Brasil inteiro e até no exterior. Propostas, o PT tem muitas, muitas e muitas. Para todas as áreas e para todos os problemas do Brasil. Mas a grande imprensa não quer ouvi-las e prefere seguir acreditando em demônios.

O editorial do Estadão também joga pesado e carrega na tinta na construção da referência aos atores do PT. No país em que a imprensa não permite chamar Jair, o incomível de genocida – depois que as ações e omissões dele e de seu governo custaram a vida de mais de 600 mil brasileiros –, é bastante aceitável chamar de delinquentes e criminosos os dirigentes e integrantes de governos petistas, que tiraram o Brasil do Mapa da Fome da ONU e levaram o país a ser a sexta economia do mundo, apenas para ficar em dois exemplos.

Segundo o editorial, em sua alucinação argumentativa, “o PT não só pretende repetir seus erros de gestão, como julga ter poder de apagar os crimes dos quais foi cúmplice. Em entrevista coletiva, a sua presidente, Gleisi Hoffmann, afirmou que nunca houve “corrupção sistêmica”, superfaturamento ou desvio de dinheiro na Petrobras”. A justiça tem mostrado, em várias e varias decisões, que as acusações são infundadas e, mais que isso, foram fruto de condutas e procedimentos absolutamente questionáveis da Operação Lava Jato.

O editorial retoma o caso Petrobras, sob a ótica única da Lava Jato, claro, para dizer que houve ilicitudes e delitos (sem apontar claramente quais). E abusa da misoginia, como sempre, ao chamar a ex-presidenta Dilma Rousseff de “ex-poste” de Lula. Volto a repetir: Dilma foi aquela presidenta que estava revolucionando a matriz energética brasileira, que fez a PEC das domésticas, que obrigou o sistema financeiro a praticar juros decentes, que colocou os jovens brasileiros mais empobrecidos para estudarem no exterior ao fazer o programa Ciência sem Fronteira, apenas para citar alguns exemplos. O Estadão deveria saber que se referir a uma mulher como “poste” de qualquer homem é algo absolutamente inaceitável no século 21. E no caso de Dilma, chega a ser torpe o recurso argumentativo.  

A minha avó Milu, de quem guardo muitas lições, sempre me dizia: “Minha fia, quem desdenha quer comprar”. Logo, penso que o recurso a um excesso de adjetivos negativos para compor a argumentação do editorial, numa tentativa de diminuir pelo discurso o protagonismo dos ex-presidentes petistas que a história deixa claro, mostra bem o nível de incredulidade e quase pânico do Estadão.

Pois o centenário jornal do Reino nada encantado do Tucanistão agora assiste, certamente com muita tristeza, à briga intestina de João Dória e Eduardo Leite para garantirem uma vaga como candidato do PSDB à Presidência em 2022. Todos querendo se afastar da marca de Jair, o incomível, para quem fizeram campanha em 2022. E todos já antevendo que a coisa disforme chamada terceira via não emplaca, como bem percebe o editorial: “O despudor com que o PT tenta reescrever a história do País para edulcorar sua trágica passagem pelo poder rivaliza com o sistemático embuste bolsonarista, o que permite prever que a campanha de 2022, mantido o favoritismo de Lula e Bolsonaro, fará corar o próprio Pinóquio”.

Quem tentou, de verdade, reescrever e ressignificar a história do Brasil foi a mídia corporativa ao se alinhar sem qualquer questionamento à Operação Lava Jato, ao se ajoelhar aos desmandos e armações do ex-juiz Sergio Moro, apoiando as tramoias para tirar de cena o ex-presidente Lula nas eleições de 2018 e ao apoiar, descaradamente, a eleição de um ogro genocida como Jair Bolsonaro, além de pregarem o fim do PT na história política brasileira.

O apagamento não deu certo. E as pesquisas eleitorais, todas elas, mostram isso. 

Portanto, agora, ao invés de fazer editoriais cada vez mais bizarros, infundados e alucinantes, que evocam até o capeta, o Estadão devia fazer reportagens longas para tentar mostrar ao país por que, após uma década de queda na desigualdade (2002 a 2015, como mostrou o concorrente Folha de S. Paulo), o Brasil vê seus cidadãos tendo de comer pé de galinha porque não há dinheiro para comprar outro tipo de alimento. A fome voltou ao Brasil. E essa deveria ser a preocupação do momento. Qualquer outra coisa é ilação desmiolada e inconsequente. 

E sempre vale lembrar: NUNCA FOI UMA ESCOLHA DIFÍCIL.

Nós avisamos.

E até a parte 8.

* Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

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