2035, por Daniel Afonso da Silva

2035

por Daniel Afonso da Silva

Global Trends: paradox of progress foi o legado formal do presidente Obama ao seu sucessor em orientação de política externa e percepção prospectiva do meio internacional.[1] Confeccionado pelo conjunto de serviços de segurança e inteligência norte-americanos e publicado pelo National Intelligence Council, esse ensaio de futurologia apresenta linhas-mestras das tendências mundiais dos próximos cinco e dos próximos vinte anos e afirma uma conclusão, no mínimo, desoladora: malgrado todos os avanços presentes e futuros, em todas as frentes da atuação humana, os mundos de 2020 e de 2035 serão menos seguros e mais desiguais, mais violentos e menos amicais.

A hecatombe política de 1989-1991 e a pasmaceira financeira de 2007-2009 modificaram – e continuarão modificando – a essência das relações humanas, nacionais e internacionais, contemporâneas. As fissuras geopolíticas e geoestratégicas oriundas do “9/11” de 2001 e das primaveras árabes de 2011 deixaram o mundo – de hoje e de 2035 – desbussolado. Tudo segue e seguirá confuso e sombrio. As contradições da globalização colocaram em questão a natureza do próprio fenômeno. O destino da interconexão planetária segue uma incógnita.

Os Estados Unidos da América, que ordenam o meio internacional desde 1945, deixarão progressivamente de fazê-lo nos próximos vinte anos. A ascensão do resto continuará sendo uma verdade. A sociedade industrial fabricada pelos anos de 1970, em muito esmaecida, tende, enfim, a desaparecer. A tendência estrutural ao baixo crescimento mundial colocou em risco o futuro da redução de desigualdades entre os países ricos e pobres e no interior deles. As tensões entre todos eles tende a aumentar.

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A era da informação chegou ao limite e será superada. Ainda não se sabe por o que. O presente da tecnologia – inclusive da obscura inteligência artificial – corre risco de virar passado. Informação e tecnologia começarão a causar mais tensão que distensão entre indivíduos, povos e nações.

O choque de civilizações, que se misturou ao choque de emoções, vai alimentar, mais e mais, o choque de paixões. Desses choques virão mais e mais nacionalismos, extremismos e populismos; terrorismos, barbáries e laivos de estupidez. Local, regional e gerais.

Autoridades ficarão ainda mais impotentes. Políticos, desmoralizados, cínicos, demagogos e incapazes. Governos, em resposta, mais autocráticos, autoritários e inconsequentes.

Rússia e China amplificarão seu protagonismo. Os destinos da Otan e da segurança internacional serão, também por isso, reorientados às demandas da Ásia e da Eurásia. Europa vai seguir nas agruras de manter seu lugar ao sol; mesmo permanecendo a região econômica e diplomática mais dinâmica do mundo.

África seguirá na senda de dias bons. Sem redução verdadeira e estrutural das assimetrias do desenvolvimento no continente, os africanos continuarão sorvendo os efeitos negativos choque da descolonização. Américas Central e do Sul terão muitos lustros perdidos, de transição permanente, na dispersão do espelho de próspero. O Brasil de hoje dá o tom da frustração prospectiva.

Embora imperfeitas e imprecisas, resta saber o que fazer com essas projeções.

 

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3 comentários

  1. O que estará em jogo daqui

    O que estará em jogo daqui pra frente são os interesses que serão disputados no ar de Megido (armagedom).  www.mensageirosdovento.com.br/Videos.html

  2. Ocaso do capitalismo

    O que eles não são capazes de ver, por não conseguierem exergar fora dos pressupostos do sistema, é que estas tendências são o aspecto visível do fim do capitalismo:

    – Crise do trabalho;

    – Crescente automação da produção, serviçoes e comércio;

    – Grandes contigentes populacionais tornados supérfluos, incapazes transformar seu trabalho em capital;

    Temos, como nunca tivemos, meios técnicos para atendermos as necessidades materiais e simbólicas de todos (desde que não sejam consumistas), mas paradoxalmente, o que se vê é concentração de renda e favelização do mundo. A “lógica” do capital é concentrar e excluir.

    Mas como pensamos (à direita e à esquerda) somente a partir dos pressupostos do capitalismo não somos capazes nem de imaginar que “um outro mundo é possível”.

     

  3. Jogar no lixo

    “Embora imperfeitas e imprecisas, resta saber o que fazer com essas projeções.”

    Ué, eles, os poderosos dos EUA, façam o que quiserem. As tais previsões talvez sejam apenas recados de Obama a Trump, ou melhor, dos que tinham poder político institucional nos EUA aos que passam a ter com essa eleição. Afinal toda desgraça “prevista” já vem sendo promovida pelos EUA contra o mundo faz tempo. E fica o alerta: cuidado que a hegemonia dos EUA está sob risco de desfazer-se justamente por aqueles de quem Trump parece querer se aproximar: russos e chineses. “Ataque-os em vez de tentar alinhar-se com eles, ou eles nos atacarão.”

    A nós talvez o melhor seja jogar no lixo essas “previsões”, porque não são nossas, não foram feitas por nós nem pensando nos nossos interesses, e ainda mais porque são, como você mesmo diz, imperfeitas e imprecisas. A nós não servem para nada. Quem tem amigos como os EUA não precisa de inimigos.

    Agora sobre os efeitos negativos da descolonização na África… os países desse continente consiguem se organizar melhor sem a colonização europeia ou a neo-colonização pelo dólar us-based, o do FMI.

    Previsões, tirado o disfarce de que “nós não gostaríamos que fosse assim mas assim será”, restam apenas como lista de desejos.

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