273.835 armas de fogo X 6 tiros = ?, por Alexandre Filordi

Façamos uma conta por baixo: se essas 273.835 armas de fogo comportarem apenas 6 tiros, temos 1.643.010 de projéteis em uma só rodada.

(Extraído de http://smebulletin.com/powerful-dangerous-857-million-civilian-guns-in-the-world/)

273.835 armas de fogo X 6 tiros = ?

por Alexandre Filordi

“Me chamou de macaca!”, o filho ouve da mãe. Em seguida, ele aparece na residência do agressor. Alguém está filmando tudo. O agressor, uma vez interpelado, não se intimida. Ele confirma, de dentro de sua residência, que chamou mesmo a mulher de macaca, e complementa: “é igual a você, rapaz, da mesma espécie”. O agressor é desafiado a sair de casa para falar “na cara” do jovem o que já disse. Ele bem que tentou, porém, o jovem saca uma pistola e dispara uma vez para cima. Em seguida, outro disparo é feito na direção do portão de dentro da casa, enquanto o agressor corre buscando guarida. Fim do vídeo que circula nas redes sociais.

Não sei dizer como o ato racista e o afrontamento foram ou serão resolvidos. Contudo, o que me chama a atenção é o tiro para o alto, para o “nada”, como forma de abordar a divergência. Todo projétil que sobe, forçosamente, tem de descer. A física é imperdoável: o projétil chegará ao solo, depois de uma breve viagem pela atmosfera, com a mesma letalidade de quando saiu da pistola.

Em 8 de janeiro, ficamos sabendo que, em 2020, os brasileiros registraram 179.771 armas de fogo: recorde absoluto! Não vivemos em tempos de guerra, ainda assim, somando-se os registros de armas de fogo de 2020 com os de 2019 (94.064), alcançamos a cifra de 273.835 armas de uso pessoal.

Majoritariamente, revólveres são capazes de disparar 6 projéteis. As pistolas automáticas variam entre 7 a 15, em média, de suas capacidades de disparos. Façamos uma conta por baixo: se essas 273.835 armas de fogo comportarem apenas 6 tiros, temos 1.643.010 de projéteis em uma só rodada.

Para se ter ideia do absurdo que tal número representa, na década de 2010-20, 449.079 pessoas morreram no Brasil vítimas de armas de fogo. Se subtraíssemos daquele número de vítimas os possíveis 1.643.010 projéteis das armas registradas entre 2019 e 2020, ainda sobrariam 1.193.931 cartuchos para serem disparados. Veja bem, as armas registradas não equivalem às armas compradas. Muitas armas sequer são registradas, sem mencionar o mercado paralelo ou de contrabando de armas de fogo, contribuindo para o aumento de todo esse montante letal.

Toda semana deparamos com mortes por balas perdidas. O fato é que não existe bala perdida. O tiro para o alto não se evapora, ele encontra um alvo à revelia. Mas é claro que ninguém sai atirando para o alto quando se adquire um revólver ou uma pistola. Por outro lado, a pergunta é: que serventia, afinal, terão tantas armas?

De minha parte, tais números são, na verdade, efeito profundo da barbárie instalada em nossa sociedade, a partir de um processo de normalização social ancorado na violência, no ódio e no medo da alteridade, além de todo descrédito na confiança dos vínculos sociais humanos.

O vertiginoso aumento na compra de armas de fogo também é o testamento de óbito do republicanismo como meio de nexo social, onde as instituições da república haveriam de consolidar a defesa do direito de modo cristalino, isonômico e universal, sem deixar de garantir a segurança da sociedade e de todos os seus cidadãos.

No instante, porém, que um governo defende o enfraquecimento das instituições republicanas e o autoarmamento, o resultado não pode deixar de ser outro. Por isso mesmo, o aumento desses armamentos pessoais, sob o verniz do pretenso discurso de direito de defesa pessoal, neste caso, é o fracasso final da incapacidade da condição humana de depositar nas leis, no diálogo, na razão, na condição sapiens os instrumentos de superação de suas divergências, medos, fragilidades, desigualdades e tensões visando a convivência mútua.

De uns tempos para cá, nas redes sociais, passou a ser comum indivíduos postarem fotos pessoais com armas de fogo. Que recado eles nos dão? Será que a disposição emocional de quem se municia com uma arma de fogo é a mesma de quem não a porta, quando pensamos nas frustrações afetivas, nas desavenças de vizinhança, nos impasses de convivência, nas “barbeiragens” banais de trânsito etc.? Será que a banalização do consumo da potência letal do armamento não é sinal invertido de nossa impotência democrática atual?

Na empunhadura de cada uma dessas 273.835 armas de fogo, sem contar as que serão adquiridas adiante, está também a mão de um eleitor. Nesse caso, existe uma mão capaz de fazer duplos disparos. Mas a julgar pelo que temos visto nos tempos atuais, tudo se converge para o mesmo propósito: o estampido iminente de muitas mortes e o consumo habitual de obituários. No final, valeria a pergunta: essas mãos armadas estão dispostas a defender o quê; estão dispostas a atacar o quê?

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