75 anos depois da derrota do fascismo: uma lição desperdiçada por Trump e outros, por Inderjeet Parmar

Faz 75 anos desde que a Declaração de Potsdam anunciou sem hesitação, ou ambiguidade, o objetivo de extirpar permanentemente o hitlerismo, a doutrina do partido nazista e todos os seus clubes, instituições e cultura.

Joseph Stalin (centro), Harry Truman (dir.) e Clement Atlee (esq.), acompanhados de seus ministros e secretários, na Conferência de Potsdam, de 17 de julho a 2 de agosto de 1945 (Crédito: Wikimedia)

do OPEU – Observatório Político dos Estados Unidos

75 anos depois da derrota do fascismo: uma lição desperdiçada por Trump e outros

por Inderjeet Parmar

Tradução de João Fernando Finazzi e revisão de Tatiana Teixeira**

Quais são as lições do Dia da Vitória na Europa (VE Day) que comemora 75 anos da derrota do Nazismo e, com este, de todo o edifício de teorias de superioridade e inferioridade racial, de supremacia branca e da disputa por ser o mais forte?

Faz 75 anos desde que o mundo repudiou o hitlerismo e o princípio de que a “força é o direito” – desde a derrota de uma ideologia e seus patrocinadores industriais e financeiros cujo ponto final foi o Holocausto, o genocídio contra os judeus e outros povos. Faz 75 anos desde que a Declaração de Potsdam anunciou sem hesitação, ou ambiguidade, o objetivo de extirpar permanentemente o hitlerismo, a doutrina do partido nazista e todos os seus clubes, instituições e cultura.

No Dia da Vitória na Europa, marcamos o sacrifício de 60 milhões de mortos na guerra mais destrutiva da história – mortos devido a uma ideologia abertamente belicosa de ódio sustentada pelas máquinas de assassinato em massa da modernidade industrial.

O nazismo e o fascismo raramente ascendem ao poder sem o apoio inicial e continuado de plutocratas industriais e financeiros e dos partidos que eles sustentam. De fato, estas forças sobreviveram à guerra e prosperaram na paz.

Olhem em volta hoje – na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) declara que Hitler foi um incidente na arquitetura do Holocausto, expõe seu cansaço em relação à culpa da guerra e quer um novo esforço para tornar a Alemanha grande novamente. E os principais partidos são aquiescentes, coniventes, persuadidos, e cooptam a retórica e as políticas de xenofobia e islamofobia.

Na França, os fascistas da Frente Nacional – ou como quer que eles se chamem hoje – defendem as políticas de dividir e conquistar e de uso de refugiados de guerra, repressão e pobreza como bodes expiatórios. Eles punem aqueles que chegam à costa da Europa, devido àquilo que essas grandes potências europeias fizeram no e com os povos do Oriente Médio.

Vemos Viktor Orbán na Hungria, louvando abertamente as virtudes da intolerância autoritária e da ditadura, declarando seus oponentes e críticos “inimigos do povo”.

Na Índia, o primeiro-ministro Narendra Modi usa a política da islamofobia e do nacionalismo hindu para dividir e conquistar um país, cuja população se uniu para vencer o domínio colonial e criar uma república na qual todos seriam iguais a despeito de religião, casta e língua.

Os EUA lideram o declínio

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump chama neonazistas de “boas pessoas” e os iguala a antifascistas que carregam uma lição fundamental da Segunda Guerra Mundial – a de que os nazistas não têm o direito de promover sua doutrina de supremacia racial. Quando milicianos de extrema direita, supremacistas brancos e neonazis adornados com suásticas invadiram a Assembleia Legislativa de Michigan durante uma sessão, Trump pediu que o governador do Estado fizesse um acordo com essas “boas pessoas”. Ou seja, que se apaziguasse com os agressores.

Como a congressista de Michigan Rashida Tlaib tuitou, homens negros desarmados são alvejados pela polícia somente por ser, enquanto homens brancos armados vestindo suáticas e carregando forcas se livram sem ao menos serem presos. É possível observar um elo entre o mainstream do Partido Republicano, a extrema direita e a chamada direita alternativa (alt-right). O que os une é a doutrina desacreditada do apaziguamento com o fascismo.

Trump chama países africanos de “shithole”, enquanto elogia noruegueses. Seus contatos incluem a Ku Klux Klan, neonazistas e a direita alternativa de Stephen Bannon e do portal Breitbart, e os eugenistas e defensores de uma “limpeza étnica pacífica” do National Policy Institute. Essa rede é apoiada pelo Partido Republicano – o já desaparecido partido de Lincoln que libertou os escravos e derrotou os odiados estados escravocratas da Confederação.

Vemos o governo Trump violando a Constituição dos EUA e o estado de direito nos EUA e no exterior, colocando imprudentemente em perigo as vidas de americanos na forma horrível como tem lidado com a pandemia da COVID-19 – a qual está literalmente matando milhares de pessoas, principalmente da classe trabalhadora. Ele está desviando sua atenção de suas próprias falhas catastróficas e em direção a uma campanha abertamente racista e xenófoba contra a China, “o vírus chinês”, ou “vírus de Wuhan”, em um retorno mal disfarçado das políticas do “perigo amarelo” que acompanham profundamente a história dos EUA.

Trump denuncia abertamente os efeitos progressistas da Segunda Guerra Mundial – especialmente as Nações Unidas e, mais recentemente, a Organização Mundial da Saúde – como inúteis, porque eles ousam ser independentes e internacionalistas contra o nacionalismo egoísta do “America First”. Enquanto a ONU e a OMS criam pontes, abrem portas e encorajam o diálogo e a resolução pacífica de controvérsias, Trump vai à ONU ameaçar Irã e Coreia do Norte de genocídio. Trump constrói muros, barreiras, tarifas e fortalezas mentais. O governo Trump rompe com as leis dos EUA e internacionais sobre asilo e refúgio, separa crianças de seus pais e comandou a construção de campos de detenção na fronteira com o México.

Claro, a ordem pós-1945 nunca chegou nem perto da perfeição, mas ela foi um passo à frente no progresso humano em direção ao reconhecimento dos direitos dos povos no mundo à sua humanidade, representação e nacionalidade. Ela reconheceu a obsolescência do conflito e da rivalidade nacional frente a um mundo que encolhia, ao fim dos impérios e da corrida armamentista, e ao descrédito total das hierarquias coloniais e raciais. O espírito da ONU estava na direção da paz e contra a guerra, contra o princípio de que a força é o direito.

A promessa das Nações Unidas

O sistema ONU teve e tem muitas falhas – algumas fundamentais – mas as demandas dos povos do mundo e suas aspirações, que subjazem o sistema ONU, eram de paz, progresso e melhora material e cultural. Isto representava um projeto cooperativo, amplo e inclusivo de escala global, e não as políticas de superioridade racial, religiosa, ou nacional.

Mas, mesmo que as grandes potências “jogassem” com os povos do mundo e ‘”administrassem” suas elevadas aspirações, o sistema internacional que emergiu após a Segunda Guerra Mundial foi um aperfeiçoamento do que havia anteriormente.

Sem dúvida, o establishment da política externa dos EUA – toda a rede de Wilsonianos apoiados pelo “arsenal da democracia” – foi conduzido por seu desejo de usar as instituições internacionais recém-formadas, baseadas em Nova York e em Washington, para dominar o planeta. Para a classe dominante britânica, a arquitetura do internacionalismo iria ajudar na sua movimentação em direção a uma aliança anglo-americana, na qual as abertas e agora insustentáveis opressões de um sistema colonial desacreditado e impraticável abririam caminho para a depredação mais suave e a violência estrutural do “desenvolvimento” do Terceiro Mundo.

As sementes para a ruína do progressivismo do sistema da ONU estavam nestes motivos obscuros das grandes potências que o fundaram. Essa nova ordem mundial mais justa era radicalmente diferente, mas embutida nela estavam as políticas e os interesses dos mais poderosos – envelopados em organizações dedicadas à transparência e à representação de todos. Isso significou e significa, em princípio e na prática, que a porta estava aberta para discussão, deliberação e acesso a um corpo de leis e de proteções – com as memórias dos sacrifícios feitos por milhões de mortos e por aqueles que viveram para proferir estas palavras imortais: “Nunca Mais”.

Para os governantes no Ocidente, o Dia da Vitória na Europa é uma celebração nacionalista – reparem em como, entre eles, a imensa contribuição da Rússia na derrota do fascismo é diminuída, assim como os sacrifícios de milhões ao redor de todo mundo que lutaram contra o militarismo alemão, italiano e japonês.

Em sua essência, porém, o Dia da Vitória na Europa é a história de milhões de trabalhadores, homens e mulheres comuns de todas as raças e nacionalidades que se uniram para derrotar uma ideologia assassina de hierarquia racial, de opressão de classe e de violência e morte industrializadas. Eles prometeram construir um mundo melhor do que aquele do período após 1918 – com sua devastadora depressão dos anos 1930, o massacre de Amritsar, a violência racial e segregadora das leis Jim Crow, a política e o horror da ideia de raça superior e a política de dividir e conquistar com o uso de minorias como bodes expiatórios.

A meu ver, a Declaração de Potsdam de 1945 expressa isso da melhor forma possível. Portanto, no Dia da Vitória na Europa, nós relembramos Potsdam e as principais lições da Segunda Guerra Mundial:

“Destruir o Partido Nacional-Socialista e as organizações filiadas, ou sob seu controle; dissolver todas as instituições nazistas; garantir que não serão revividas de forma alguma; e evitar toda espécie de propaganda, ou atividade, nazista, ou militarista;

“Preparar a eventual reconstrução da vida política alemã em bases democráticas e a futura cooperação pacífica da Alemanha na vida internacional;

“Todas as leis nazistas que proporcionaram as bases para o regime de Hitler, ou estabeleceram discriminação de raça, credo, ou opinião política serão abolidas. Tais discriminações, sejam legais, administrativas, ou de outra forma, não serão toleradas”.

 

Inderjeet Parmar é professor de política internacional na City, University of London, professor visitante no London School of Economics IDEAS (o think tank de política externa da LSE), e pesquisador visitante no Rothermere American Institute na Universidade de Oxford. É colunista do The Wire, onde este artigo foi publicado originalmente em 8 de março de 2020.

** João Fernando Finazzi é doutorando e mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). É bolsista do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) e pesquisador do Grupo de Estudos em Conflitos Internacionais (GECI/PUC-SP). Tatiana Teixeira é editora do OPEU, pesquisadora do INCT-INEU e do NEAI (Ippri/Unesp) e assistente editorial da revista Sul Global, do IRID (UFRJ).

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