A agonia de Bolsonaro, por Gustavo Conde

A decisão interna, de quarentena, que todos podemos tomar se quisermos, é ir ao encontro de nossas significações mais profundas. Elas são nossa garantia de que o esforço até aqui para se manter vivo diante de uma sociedade egoísta valeu a pena.

A agonia de Bolsonaro

por Gustavo Conde

O sujeito que precisa pagar uma hashtag com os dizeres #EuTenhoRazão é porque realmente já é carta fora do baralho.

Assistam agora a agonia de Bolsonaro. Ele não vai querer sair mas vai ser obrigado a sair (pela pressão gigantesca que já se formou).

Vai ser mais uma novela.

Enquanto isso, a população brasileira vai começar a morrer em escala.

Além de Bolsonaro e do vírus, nós temos dois problemas gravíssimos: um, comum a todos os países do mundo, a subnotificação.

Dois, a nossa jabuticaba: setores do poder público estão omitindo deliberadamente dados sobre infectados – inclusive sobre o mais célebre deles, o presidente, que se nega a mostrar o exame que fez.

Sintomático. Ou melhor, “assintomático”.

Há rumores também de que já havia casos de coronavírus no Brasil antes do carnaval. Calculem a dimensão do problema.

Hora para se desesperar?

Desespero é improdutivo.É hora de tentar viver com mais dignidade, se é que o país vai mergulhar mesmo na espiral suicida.

Eu lembro do neurocientista Oliver Sacks que, quando soube que tinha câncer terminal, começou a viajar o mundo para ver os amigos e se despedir deles.

É uma das maiores declarações de amor à vida que já pude testemunhar.

Ainda que as viagens estejam proibidas e o contato humano idem – com vistas à frágil iniciativa de não propagar uma doença assustadora – é assim que procederei diante da insanidade dos desinformados.

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É ativar a memória e lembrar das coisas boas que constituem nossas identidades. É lembrar da fragilidade humana e entender que se é parte dela. É lembrar que o ideal de humanidade nunca passou de um ideal, mas que mesmo assim, idealizada, fez parte dos nossos valores e da nossa experiência social, limitada aos que respeitaram a democracia e o voto.

É lembrar que a renúncia às amizades tóxicas, de pessoas que só sabiam odiar, foi decisão histórica que nos transformou nos fez mudar de patamar subjetivo – e todo o meu desprezo àqueles que mantiveram ‘amizades’ para manter as aparências.

A decisão interna, de quarentena, que todos podemos tomar se quisermos, é ir ao encontro de nossas significações mais profundas. Elas são nossa garantia de que o esforço até aqui para se manter vivo diante de uma sociedade egoísta valeu a pena.

Nós, brasileiros, ainda temos uma lembrança a mais para levarmos conosco. Nós experimentamos o maior fenômeno de humanidade e humanização com 4 governos profundamente democráticos.

Há de se perguntar: como isso foi possível? Como pudemos enganar o sistema e eleger Lula e Dilma? Como, numa sociedade tão egoísta e desigual como a brasileira, pudemos construir uma realidade generosa, de amor ao próximo, de inteligência, de crescimento econômico, de felicidade, de esperança?

Nós vivemos isso. Isso vale uma vida.

1 comentário

  1. Muito legal.Isso mesmo pudemos viver com um operário sendo eleito presidente de um país tão desigual e tão multifacetado pelos mais insidiosos interesse da nossa elite tupiniquim. O resto que vier. Que venha.

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