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A autocrítica como valor, por Juliana Rosas

A ombudsman da Folha de S. Paulo, Flavia Lima, comentou sobre a nova ação do jornal a favor da democracia. A campanha chamou a atenção por alguns motivos.

Créditos: Gino Crescoli / Pixabay

do objETHOS

A autocrítica como valor

por Juliana Rosas

Existe um ônfalo no Oráculo de Delfos, local uma vez considerado centro do mundo. Hoje, encontra-se em ruínas na Grécia, berço da democracia moderna. Ônfalo significa umbigo em grego e o nome foi dado a uma pedra de formato oval localizado no templo de Apolo em Delfos, onde deuses e humanos se reuniam em busca de conselhos. Em tempos contemporâneos e lugar mais próximo, em sua coluna do dia 05 de julho, a ombudsman da Folha de S. Paulo, Flavia Lima, comentou sobre a nova ação do jornal a favor da democracia. A campanha chamou a atenção por alguns motivos.

Primeiramente, por talvez ter sido o primeiro veículo da mídia tradicional a realmente tomar um posicionamento, provocado, majoritariamente pelo comportamento do presidente e os desmandos do seu atual governo. Segundo, pela demora em acontecer, apesar de a Folha ter se mantido crítica desde que o presidente assumiu a função, especialmente depois de ter sido atacada inúmeras vezes. Em terceiro lugar, por haver, como o professor da UnB, Luiz Felipe Miguel, quem lembrasse do seu passado não tão longínquo, quando, primeiramente defendeu a ditadura de 1964, para, oficialmente, só 26 anos depois assim chamá-la. E, ainda assim, recordando proezas, como bem lembrou a ombudsman em seu texto.

Falando em passado não tão distante, alguns estudos mostram que a Folha naturalizou o golpe parlamentar que impediu o mandato da presidente Dilma Rousseff. Durante a campanha de 2018, assim como anteriormente proibiu a redação de usar a palavra “ditadura”, desautorizou seus repórteres a se referirem a Bolsonaro como candidato de “extrema direita”, fato aludido pela ombudsman anterior, Paula Cesariano Costa, quando sugeriu à Folha ser franca e dar nome aos bois. A atual ombudsman lembrou os dois casos:

“Em nome de interesses múltiplos, nem sempre convergentes com os da população, jornais têm normalizado guinadas autoritárias pelo menos até que os novos donos do poder se voltem mais enfaticamente contra a própria imprensa. (…) Isso, a despeito da inexistência de riscos à democracia durante mais de uma década de PT no poder. Na eleição do Bolsonaro, a Folha determinou internamente que não se usasse “extrema direita” para se referir a ele.”

Vários hoje repetem que não foi por falta de aviso. Mas, população e, especialmente, o jornalismo tradicional, fizeram ouvidos moucos. No programa Roda Viva de 2018, o então candidato à presidência da república pelo PT, Fernando Haddad, foi perguntado se achava que dezenas de milhões de brasileiros eram antidemocráticos por votarem em Bolsonaro. Uma pegadinha, pois, assim como a população, boa parte do jornalismo estava dominada por um sentimento antipetista. Na entrevista de Haddad em 2020, ainda é possível ver tal sentimento.

Pesquisadores da área afirmam que a autocrítica em jornal é uma das coisas mais raras que existe. Indicam falta de autocrítica jornalística, quanto jornalistas são corporativistas, que se acostumaram a ser vitrine e não vidraça e se colocaram no papel de vigilante não vigiado. Há ainda um outro fator que impede a autocrítica: tê-la como valor. Podemos, por exemplo, comparar à atitude de países colonizadores e imperialistas do passado que não se arrependeram nem nunca pediram desculpas oficiais a suas ex-colônias e milhões de vítimas pelo mal que causaram. Estudos mostram que muitos tiveram acesso a fake news, no entanto, não admitem tê-las espalhado ou por estas terem sido enganados ou influenciados. As pesquisas sobre racismo e branquitude de Lia Schucman mostram que as pessoas reconhecem o racismo na sociedade e o mal que causam. Mas não admitem elas mesmo serem racistas ou que usufruem do chamado privilégio branco.

Pesquisas de Geert Hofstede demonstraram que existem grupos culturais nacionais e regionais que afetam o comportamento de sociedades e organizações e que são muito persistentes ao longo do tempo. O psicólogo holandês foi inspirado pela antropologia e culturalismo, acreditando que a cultura é o modo de pensar, de sentir e de reagir de um grupo humano. Ele encontrou dimensões culturais e padrões de comportamento que predominam em diferentes sociedades. Utilizando-se de tais dimensões, pode-se medir o grau de individualismo ou coletividade de determinadas nações ou se são mais abertas a outras culturas, por exemplo.

Na dimensão distância hierárquica, uma forma de medir o quanto membros menos poderosos em uma sociedade aceitam e esperam a distribuição desigual existente, Portugal apresenta uma sociedade em que tal distância é aceita e os que ocupam os cargos mais poderosos são admitidos como privilegiados por seu cargo. O Brasil apresenta características similares.

Na antropologia cultural, há também estudos que utilizam o espectro vergonha e culpa ao categorizar grupos e sociedades. A Alemanha, por exemplo, seria uma nação da culpa. Uma representação deste comportamento seria a admissão de culpa pela Segunda Guerra e holocausto, com a atitude de deixar a história a olhos vistos até hoje. O Japão, por outro lado, seria uma nação da vergonha. Lá, até hoje falar sobre a Segunda Guerra é tabu. É um país onde muitos suicídios são causados pela vergonha e em nome da honra. A vida é cessada imediatamente após ou mesmo antes de admiti-la. Como tudo na vida, nem tudo é preto no branco e há muitos tons de cinza pelo caminho. Isso não quer dizer que a culpa da Alemanha pelo holocausto a tenha feito admitir todos os seus erros. Trabalhadores estrangeiros que foram convidados a reconstruir a nação após o fim da guerra afirmam que o país falhou com eles, deixando problemas até hoje.

Portugal nunca pediu desculpas ao Brasil ou a nenhuma de suas ex-colônias pelos massacres, explorações, pela escravidão. Isso pode se dever a vários motivos, mas, entre eles, assim como na Espanha, está a ideia de que a colonização foi natural ou um mal necessário, um fator inescapável da história. O ensino da história nesses países perpetua o mito do bom colonizador e banaliza a escravidão. Falta o aspecto histórico crítico, ou, quiçá, autocrítica.

Infelizmente, muitos brasileiros também pensam assim, algo que aconteceria de todo modo, que se não fossem os portugueses, seriam outros. Provavelmente pensam sobre si mais como fruto de desbravadores e menos como filhos de estupro, escravidão ou trabalho, religião e comportamentos forçados. Descendentes de ocupações europeias mais recentes, como a alemã ou italiana, no sul do Brasil, também trazem um orgulho cultural que muitos mantêm e parecem ignorar o fato que vários de seus antepassados eram pobres, considerados cidadãos de segunda classe refugiados que provavelmente nunca tiveram o brasão de família que hoje possam ostentar.

Além da dimensão cultural e histórica, a autocrítica é um valor democrático. Ser capaz de admitir erros e a partir deles aperfeiçoar o sistema é tão democrático como a vigilância mútua entre os poderes. Se é mesmo a democracia que a Folha quer, se é a democracia que 75% dos brasileiros desejam, terão que tomá-la como valor. Pois democracia não é um broche que se usa para enfeite quando dá vontade ou quando é bonito fazê-lo. Faz parte do sistema e dos valores que resolveram defender. Isso é complexo. Perto disso, a autocrítica que se cobra que o PT faça é fichinha. Autocrítica como valor é mais que admissão de erros. É olhar para o próprio umbigo, mas não de maneira autocentrada.

Passou-se um longo tempo desde a democracia grega. Ela foi aperfeiçoada e tornou-se mais inclusiva, apesar de, às vezes, parecer estar em ruínas, como Delfos. Vejamos quando o jornalismo irá olhar para o próprio umbigo. Não como centro do mundo, mas em busca de sabedoria e conselho.

Juliana Rosas – Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora do objETHOS.

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